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UE contra a desinformação: Portugal surge em sete artigos de “fake news” pró-Rússia

Este artigo tem mais de um ano
A União Europeia desenvolveu um projeto para combater a desinformação pró-Rússia. Desde 2015, mais de 12 mil artigos foram analisados e verificados no âmbito da "East Stratcom Task Force" e são agora divulgados na plataforma "EUvsDisinfo". Na base de dados deste projeto europeu há sete artigos em que Portugal é mencionado.

Quando a Rússia invadiu a Crimeia e começou o conflito na região leste da Ucrânia, a União Europeia (UE) percebeu que era necessário responder às campanhas de desinformação divulgadas por Moscovo e que afetam tanto os Estados-membros da UE e dos parceiros.

Por isso, em 2015, o Conselho Europeu aprovou, por unanimidade, a criação do East Stratcom Task Force – um projeto incluído no Serviço Europeu de Ação Externa. Deste projeto, foi desenvolvida a plataforma EUvsDisinfo (UE contra a Desinformação, em português) que divulga os artigos de fake news identificados e as respetivas verificações.

“O principal objetivo do EUvsDisinfo é aumentar a consciencialização pública e a compreensão sobre as operações de desinformação do Kremlin, ajudando os cidadãos na Europa e não só a desenvolver resistência à informação digital e à manipulação dos media”, pode ler-se na página do EUvsDisinfo.

A base de dados do EUvsDisinfo junta mais de 12 mil exemplos de artigos de desinformação pró-Kremlin, publicados em 15 línguas diferentes. Além da verificação de artigos, a plataforma analisa também as novas práticas e métodos de desinformação utilizados.

O portal permite pesquisar os artigos por tema, por data, por língua ou por país/região. O Polígrafo foi saber quais as fake news que estão a ser propagadas sobre Portugal: segundo uma pesquisa realizada a 21 de novembro de 2022, o país é mencionado em sete artigos – três deles sobre o mesmo assunto.

Portugal, Espanha e Itália a caminho de um novo Brexit

O primeiro artigo que foi identificado pelo EUvsDisinfo com referência a Portugal data de 9 de setembro de 2019. Foi publicado em russo, num site chamado Sonar2050. Em resumo, a publicação alega que Portugal, Espanha e Itália e até França estavam “em linha para sair da União Europeia (UE)”, seguindo o caminho do Reino Unido – que tomou a decisão deixar a união por “estar menos ligado aos mecanismos de integração da UE”.

“O problema chave da UE é que nunca esteve integrada. Em vez de cooperação igualitária entre os países da UE, tem uma hierarquia, a dominância de alguns países e a subordinação de outros”, pode ainda ler-se.

O EUvsDisinfo explica que “a narrativa do iminente colapso da UE” é consistente entre as publicações de fake news pró-Kremlin. Segundo dados avançados pela plataforma, cintando o Eurobarómetro, apenas 7% da população portuguesa estaria disposta a votar para deixar a UE, sendo o país – entre o quatro referidos – com uma percentagem mais baixa de rejeição da UE. França apresenta a maior percentagem, com 21% da população a querer deixar a UE, seguido de Itália com 19% e de Espanha com 10%.

A criação da NATO não foi justificada

Neste artigo, Portugal não é protagonista, mas surge por ser fundador da NATO. Num artigo publicado em russo no site Vesti7, a 17 de novembro de 2019, é afirmado que o Presidente francês, Emmanuel Macron, pensa que a NATO foi concebida como resposta ao inimigo – numa referência à União Soviética – e ao Pacto de Varsóvia.

O artigo, resumido pelo EUvsDisnifo, nega essa afirmação e garante que a NATO foi criada pelos Estados Unidos, França, Reino Unido, Canadá, Benelux, Itália, Islândia, Noruega, Dinamarca e Portugal como uma “ameaça contra um amigo, com quem lutaram contra o fascismo e com quem estavam a erguer a vida pós-guerra na Europa”.

Na verdade, o conflito entre os países Aliados – que lutaram contra os países do Eixo – começou logo depois do final da II Guerra Mundial. Em 1949, os Estados da Europa Central e de Leste – exceto a Jugoslávia – ficaram sob alçada do regime soviético de Josef Stalin, o que motivou os países do Ocidente a procurar formas de prevenir a expansão do comunismo na Europa. 

“A 4 de abril de 1949, o tratado do Atlântico Norte foi assinado, servindo três propósitos: dissuadir o expansionismo soviético, proibir o reaparecimento do militarismo nacionalista na Europa e incentivar a integração política europeia”, pode ler-se na verificação da plataforma europeia contra a desinformação.

Cooperação entre os países mediterrânicos são uma ameaça à hegemonia alemã

O artigo foi partilhado num site russo News-Front, sediado na Crimeia – península ucraniana ocupada por militares russos desde 2014. No texto, é alegado que a cooperação dos países mediterrânicos (Espanha, Portugal e Grécia) tinha-se tornado “um problema na garantia da hegemonia da Alemanha sobre o continente [Europeu]”.

A publicação refere ainda que os três países “sofreram muito com o regime fiscal imposto pela Alemanha e as suas políticas financeiras” e que “a pandemia demonstrou que a Alemanha, em tempos de crise, não quer ajudar os seus parceiros da União Europeia”, estando “preocupada com os seus próprios interesses”.

Estas alegações são falsas. Segundo o EUvsDisinfo, as táticas pró-Kremlin procuram partilhar a ideia de uma suposta hegemonia alemã da Europa, tentando colocar os países-membros da União Europeia uns contra os outros. O presumível colapso da União Europeia é também regularmente usado nas publicações de propaganda e desinformação.

A união entre os Estados-membros da UE não colapsou com a pandemia de covid-19, nem os países se voltaram uns contra os outros. Pelo contrário, a Comissão Europeia teve um papel importante na aquisição e distribuição de vacinas para os países da UE, assim como na aprovação de apoios para a recuperação da economia dos países.

Desvio do avião da Ryanair para a Bielorrússia e aterragem do voo presidencial com Evo Morales

Três das sete fake news em que Portugal é mencionado estão relacionadas com o desvio do avião comercial da Ryanair FR4978 para a Minsk, a 23 de maio de 2021, que levou à detenção do jornalista Roman Pratasevich (fundador do canal Nexta, uma plataforma crítica ao Governo bielorrusso liderado por Alexander Lukashenko). Nos três artigos – um publicado em alemão (Snanews), outro em húngaro (Oroszhirek) e o terceiro em russo (Armeniasputnik) –, o desvio do avião é comparado com a aterragem do avião presidencial da Bolívia, onde viajava o Presidente Evo Morales, em 2013.

Em julho de 2013, o avião presidencial da Bolívia foi forçado a aterrar em Viena, na Áustria, depois de vários países europeus – como França, Espanha, Itália e também Portugal – terem “inesperadamente negado a passagem do voo no espaço aéreo”. “A razão para isso foi a suspeita de que o ex-agente de inteligência norte-americano Edward Snowden estava a bordo do avião presidencial, cuja extradição era exigida pelas autoridades norte-americanas”, avança o EUvsDisinfo no resumo do artigo publicado no Snanews.

O caso evocado é real, mas não se compara com o desvio do voo da Ryanair. “Em julho de 2013, sob a Administração de Obama, o [avião] do Presidente boliviano Evo Morales foi forçado a aterrar na Áustria, devido a pressões dos EUA, numa caça ao fugitivo norte-americano Edward Snowden, que se pensava estar a bordo”, explica o EUvsDisinfo.

O EUvsDisinfo sublinha que “ao contrário da conspiração bielorrussa, que envolveu caças a jato e ameaças de bomba, o avião boliviano foi levado a aterrar devido a burocracia”, uma vez que os países da União Europeia recusaram que o avião presidencial entrasse nos seus espaços aéreos, o que impedia um percurso entre Moscovo (de onde partia) e a Bolívia. A aterragem ocorreu devido à necessidade de reabastecer a aeronave. Durante o tempo que o avião esteve em terra, Heinz Fischer, Presidente austríaco à época, encontrou-se com Evo Morales no aeroporto.

O desvio do avião comercial da Ryanair e a consequente detenção de Roman Pratasevich e da namorada Sofia Sapega foram condenadas pela União Europeia. O Conselho Europeu chegou mesmo a aprovar sanções contra a Bielorrússia e a “proibir as companhias aéreas do país de entrar nos espaços aéreos dos Estados-membros e a impedir o acesso aos aeroportos da UE aos aviões dessas companhias”.

Alemanha não quer solidariedade energética, mas sim vassalagem

Portugal volta a aparecer num artigo de desinformação sobre a solidariedade energética, publicado a 22 de agosto, pela RT – a rede de televisão internacional da Rússia. Num artigo que foi divulgado em espanhol, a Alemanha é acusada de “exigir vassalagem” a Portugal e Espanha ao propor “extrair gás ou construir um gasoduto há muito esquecido”, resume o EU vs Disinfo.

“Uma vassalagem desprovida de qualquer sentido de solidariedade, uma vez que não se trata de cidadãos ricos a ajudarem cidadãos desfavorecidos, mas muito pelo contrário, trata-se de desfavorecidos, e uma vez lesados ​​– aqueles PORCOS preguiçosos e insuportáveis ​​– ipso facto entregando o máximo de gás possível, mesmo que precisem.”

Na verificação deste artigo, o EU vs Disinfo avança que “em termos energéticos, tanto Espanha como Portugal têm mais do que suficiente abastecimento para cobrir as suas necessidades devido a um investimento de longo prazo em energia renováveis e centrais elétricas LNG [sigla para Linde Engineering Gas] e são capazes de providenciar até 30% da procura de gás natural na Europa”.

Na verdade, algumas das medidas adotada pela Comissão Europeia para ultrapassar a crise energética resulta de propostas apresentadas em conjunto por Portugal e Espanha. O objetivo desta publicação, denuncia a plataforma, é diminuir a confiança dos Estados-membros da Europa e evitar que sejam tomadas medidas solitárias, reduzindo assim o impacto que os cortes de fornecimento de gás natural russo possam ter na Europa.

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