O aumento dos novos casos positivos de Covid-19 verificado em Portugal na última semana levantou a questão: é uma consequência do alívio das medidas de controlo da pandemia no período do Natal e passagem de ano? Há especialistas que consideram que a subida da curva pode estar relacionada com a decisão do Governo, mas também há quem indique outros fatores para justificar o aumento verificado.

Será este aumento um fenómeno generalizado entre os países europeus que aliviaram as medidas no referido período? E o que aconteceu nos países em que se optou por manter regras de contenção mais apertadas?

O Polígrafo analisou a evolução da pandemia nos países que integram a União Europeia, comparando os números de novos casos - disponibilizados pelo portal Our World in Data, que reúne dados estatísticos mundiais divulgados por fontes oficiais - com as medidas aplicadas por cada Estado-membro.

Com o objetivo de entender a variação dos dados examinámos os números de novos casos por cada milhão de habitantes, seguindo a média móvel a sete dias (uma relação estatística que contabiliza flutuações de dados e permite apresentar a tendência da pandemia). Importa aqui ressalvar que a Covid-19 tem um período médio de incubação de cinco a seis dias, mas que este poderá ir até aos 14 dias. Tendo esses fatores em conta foram analisados os dados correspondentes ao período entre 1 de dezembro e 12 de janeiro.

Os quatro primeiros lugares

Portugal é, atualmente, o quarto país da União Europeia com mais casos de Covid-19 por milhão de habitantes e está entre os que registam um maior agravamento da curva a partir da passagem de ano - precisamente uma semana depois do Natal. Entre 1 e 8 de janeiro, as novas infeções passaram de 404,15 para 600,40 por milhão de habitantes. No dia 12 de janeiro chegavam mesmo aos 840,23, mais do dobro em relação ao registado no início do ano.

Entre os dias 23 e 26 de dezembro, o Governo aliviou as medidas de contenção da pandemia, de forma a possibilitar a celebração do Natal. Foi possível circular livremente pelo país, assim como participar em jantares familiares sem que houvesse um limite de participantes ou do número de agregados familiares que se podiam encontrar. Também o recolher obrigatório foi dilatado, sendo permitido circular até às as 02h00m do dia de Natal.

Na passagem de ano, pelo contrário, foi proibida a circulação entre concelhos e o recolher obrigatório foi imposto a partir das 23h00m, de forma a evitar ajuntamentos nas ruas. A medida foi estendida até ao dia 4 de janeiro.

A Irlanda é o país que mais se destaca no gráfico do portal Our World in Data. No dia 1 de dezembro apresentava 54,04 novos casos por milhão de habitantes, um cenário que mudou substancialmente cerca de um mês depois. A 10 de janeiro viria a atingir o valor mais alto do período analisado, chegando aos 1.322,92 novos casos. Segundo os dados mais recentes, nos últimos dias registou uma ligeira descida, mas continua a liderar os países da União Europeia com 1.222,90 infeções confirmadas por milhão de habitantes.

Antes do Natal, o país já apresentava uma ligeira tendência de subida, registando a 24 de dezembro 156,08 novos casos por milhão de habitantes. No entanto, foi depois da entrada em 2021 que a curva se tornou mais acentuada: a 1 de janeiro, a Irlanda registava 272,94 infeções; e a 8 de janeiro atingia 1.225,30.

Depois de seis semanas de confinamento para controlar a taxa de infeções, o Governo irlandês reabriu as lojas no final de novembro e os estabelecimentos de restauração a 4 de dezembro. Durante três semanas (entre 18 de dezembro e 6 de janeiro) houve um alívio das medidas: foram permitidos encontros entre famílias até três agregados para as celebrações, assim como a circulação entre regiões - o que não acontecia desde outubro.

No segundo lugar da tabela encontra-se a República Checa que também regista uma acentuada subida de casos positivos nas últimas semanas. O país passou de 619,76 novos casos por milhão de habitantes, confirmados a dia 27 de dezembro, para 1.136,08 a 12 de janeiro. À semelhança da Irlanda, também a República Checa registou o valor máximo no dia 10 de janeiro.

Em relação às medidas implementadas no país, optou-se por um recuo no desconfinamento, tendo sido limitado para seis o número máximo de pessoas por encontro - seja em espaço interior ou exterior. Antes era possível realizar reuniões com 10 pessoas em interior e 50 no exterior. As escolas foram fechadas, mas o Governo checo decidiu manter as lojas abertas.

Em Espanha, o Governo definiu uma lista de medidas para a época festiva, dando liberdade às regiões autónomas para aplicar regras adicionais. Entre 23 de dezembro e 6 de janeiro só era permitido atravessar as fronteiras das regiões para visitar família e amigos. Nos dias de festas (24, 25, 31 de dezembro e 1 de janeiro) foi possível juntar até um máximo de 10 pessoas em casa (incluindo crianças), limitadas a dois agregados familiares.

Foi a partir de 6 de janeiro - em Espanha, as prendas de Natal trocam-se sobretudo no "Dia de Reis" -, que a linha epidemiológica espanhola começou a subir: passou dos 220,99 para os 472,61 em seis dias. 

Os países no lado oposto

A Lituânia, a Dinamarca e os Países Baixos são dos poucos países que apresentam uma tendência decrescente no pós-época festiva. Na Lituânia, o valor mais alto de novos casos registado no último mês aconteceu, precisamente, no dia 24 de dezembro: foram confirmadas 1.094,72 infeções diárias por milhão de habitantes. Desde então, a linha do gráfico tem vindo a descer, acabando por chegar aos 621,90.

Também na Dinamarca se verifica uma curva decrescente depois das festividades. A 18 de dezembro, o país apresentava o valor mais alto de casos por milhão de habitantes registado durante o período analisado, chegando aos 610,94 novos casos. A partir de 23 de dezembro, a tendência de descida começava a acentuar-se ainda mais. Na antevéspera de Natal foram registados 585,10 casos por milhão de habitantes e, a 12 de janeiro, este valor já tinha caído para metade (272,36).

Nos Países Baixos, a descida de casos levou também a uma queda na tabela: desde 22 de dezembro, passaram de segundo país da União Europeia com maior taxa de novos casos por milhão de habitantes (688,89) para 12º (com 414,53).

De destacar que estes três países mantiveram a configuração do confinamento durante o período de Natal e passagem de ano, não registando alívios significativos nas regras de contenção da pandemia. 

Cinco outros exemplos

Itália, Alemanha, Bélgica, Áustria e França - países que impuseram algumas limitações para as festas - apresentam pequenas variações no número de novos casos por milhão de habitantes.

Em Itália foi proibida a circulação entre cidades tanto no Natal como na passagem de ano Mais, foi imposto um recolher obrigatório a partir das 22h00m. Também em França era proibido circular a partir das 20h00m, uma decisão que não vigorou apenas a 24 de dezembro, para que os cidadãos celebrassem a consoada com os mais próximos.

Na Áustria podiam juntar-se um máximo de 10 pessoas, provenientes de até 10 agregados familiares, para celebrar o Natal. Foi também no dia 24 de dezembro que começou o terceiro confinamento desde o início da pandemia. A atividade económica deverá ser retomada entre 18 e 24 de janeiro, depois da realização de uma testagem maciça à população. 

O Governo alemão aplicou igualmente um limite de 10 pessoas, pertencentes ao círculo próximo, aos ajuntamentos realizados entre os dias 24 e 26 de dezembro. Já a Bélgica apresentou um limite mais restrito de visitantes: cada família podia apenas receber um convidado. Os cidadãos que vivem sozinhos podiam convidar até duas pessoas. 

 O caso britânico

Fora da União Europeia desde o dia 1 de janeiro, o Reino Unido também apresenta uma subida do número de casos positivos por milhão de habitantes. A 19 de dezembro, depois de ter sido detetada uma nova variante do SARS-CoV-2 no país, o primeiro-ministro Boris Johnson anunciou que o alívio de medidas para o Natal não iria ser aplicado.

Inicialmente, o Governo britânico pretendia criar uma bolha de cinco dias que permitiria juntar até três agregados familiares na mesma casa. No entanto, com o aumento registado no início de dezembro, o Executivo voltou atrás e determinou que as reuniões familiares só teriam lugar no dia de Natal e fora das regiões de risco máximo.

As medidas podem não ter chegado a tempo: no prazo de um mês, o Reino Unido passou para mais do triplo de novos casos diários por milhão de habitantes, ou seja, de 251,67 infeções para 821,93.

Em suma, analisando os dados, é possível identificar uma tendência de decréscimo de casos nos países que não aliviaram as medidas de contenção durante as festas. Já naqueles em que foi permitida a livre circulação, em sentido inverso, constata-se um crescimento dos novos casos nas primeiras semanas do ano, dentro do período de 14 dias depois da consoada.

No entanto, outros fatores podem ter contribuído para o aumento de casos, tal como o facto de existir uma nova variante de SARS-CoV-2, com maior transmissibilidade, ou a onda de frio, propícia à transmissão de vírus respiratórios, que atingiu a Europa nas primeiras semanas de janeiro.

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