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Não é mentira: estas “falsidades” continuam a enganar muita gente… envolvem o Pateta, uma “jovem prodígio” e a NASA

Em 2017, o Dicionário Collins elegia "fake-news" como a expressão do ano, poucos meses depois de Donald Trump ter vencido as presidenciais dos EUA. É claro que as mentiras como hoje as conhecemos não nasceram nas primeiras décadas do século XXI, mas as redes sociais criaram o terreno perfeito para a sua proliferação. É por isso que, desde 2018, o Polígrafo deparou com falsidades, rumores e boatos que continuam hoje a circular no ciberespaço. E que o agitam cada vez mais devido à sua precisão. Neste Dia das Mentiras, celebramos algumas das mais inverosímeis (e divertidas) que desmontámos ao longo dos anos.
© Shutterstock

Sim, os cães (ou as vacas) também sofrem com as fake-news

O Polígrafo existia há poucos meses quando, em fevereiro de 2019, um site norte-americano apresentou o Pateta, personagem de animação criado por Walt Disney e apontada como um cão da raça Bloodhound, como… uma vaca escocesa da raça Aberdeen-Angus. O alvoroço foi tal que da mentira de Tony Fischer, autor do siteReel Rundown“, que, em “A Herança Revelada de Pateta”, explica que o personagem teria como nome completo “Dipalwa Dawala”, era filho de imigrantes egípcios e vinha de uma longa linhagem de gado sem chifres chamada Aberdeen Angus, nasceram outras conspirações. Aliás, o próprio Fischer acrescentou que Max, o filho de Pateta, também ele vulgarmente apresentado como um cão, teria morrido de… doença das vacas loucas.

A avaliar pelas reações à mentira, a mais óbvia balela pode mesmo ser verdade adquirida para os mais distraídos. Apesar disso, o artigo do Reel Rundown era pura ficção humorística. E ainda hoje é visto a circular nas redes sociais.

Mia Khalifa é Maria Cândida… ou como uma atriz pornográfica também pode ser uma “aluna prodígio”

Em setembro de 2019, não muito depois de o Pateta inundar as redes sociais, Mia Khalifa já era conhecida do público português… mas não pelas razões mais óbvias. “Esta jovem portuguesa chama-se Maria Cândida, estuda na Universidade do Minho e acaba de ganhar o primeiro prémio no concurso de projectos de física nuclear, na Rússia. Mas como não é futebolista nem mostra o corpo no Instagram, ninguém se importa. Vamos partilhar para o mérito desta jovem ser reconhecido”. Era esta a teoria que acumulava cerca de 60 mil partilhas no Facebook, mas o “caso de genialidade ignorado entre nós”, como o Polígrafo escrevia à data, era apenas um logro do início ao fim.

“Maria Cândida”, a jovem-prodígio, era, na realidade, Mia Khalifa, uma ex-atriz pornográfica, e o seu “caso” já tinha sido verificado por vários jornais de fact-checking internacionais, nomeadamente brasileiros. Aliás, terá sido mesmo no México que esta “fake-news” nasceu, tendo sido partilhada como verdadeira até mesmo pelo ex-chefe do Governo Marcelo Ebrard, que chegou a publicar no seu perfil no X uma mensagem de apoio à suposta estudante – mais tarde viria a retratar-se por ter caído na farsa.

A história de “Maria Cândida” não é propriamente uma novidade: em 2018, a versão masculina da história versava sobre um alegado “génio” português que ficara em 2º lugar nas Olimpíadas de Física Quântica. O post gerou uma euforia no Facebook que resultou em mais de 90 mil partilhas. Na realidade, “Tiago”, o jovem luso, era Jordi “El Niño Polla”, um ator pornográfico espanhol.

Depois das estrelas pornográficas, NASA é vencedora de teorias da conspiração

Sim, a humanidade foi à Lua; e a terra não é plana; e Buzz Aldrin não admitiu rigorosamente nada quanto à alunagem. Mas não é por isso que as redes sociais deixam de partilhar estes rumores. Ano após ano, há quem negue o sucesso desta missão da NASA, sustentando que a agência espacial norte-americana é um órgão “focado em falsificar imagens e manipular as massas” e que a ida à Lua é uma mentira.

Um dos vários argumentos utilizados para sustentar esta teoria serve-se do facto de o formato da sola das botas utilizadas por Neil Armstrong na missão Apollo 11 não corresponder a uma fotografia da pegada amplamente divulgada. No entanto, tal como o Polígrafo verificou anteriormente, isso deve-se ao facto de a fotografia em causa não mostrar uma pegada de Neil Armstrong, mas sim do seu companheiro de missão e segundo homem a pisar a Lua, Edwin “Buzz” Aldrin.

Aldrin também não escapa às teorias, apesar de nunca ter admitido que a alunagem nunca aconteceu. O clip de vídeo que é consecutivamente partilhado no Facebook retrata um momento de uma conferência realizada em 2015 na Universidade de Oxford, Reino Unido, com a participação de Buzz Aldrin. Questionado por uma mulher na plateia sobre qual foi o momento mais assustador da viagem espacial até à Lua, em 1969, o astronauta – que se distinguiu na História como o segundo ser humano a pisar a superfície da Lua, logo após Neil Armstrong – respondeu da seguinte forma: “Mais assustador? Não aconteceu.”

Na realidade, Aldrin falou durante cerca de uma hora na referida conferência. Analisando a versão integral do vídeo da conferência torna-se evidente que não negou que a missão Apollo 11 em que participou tenha realmente chegado à Lua.

Naquele instante em específico parecia estar a fazer humor e a afirmação de que “não aconteceu” referia-se a não ter acontecido qualquer momento assustador na viagem.

E a terra? É plana? De todo: a forma arredondada da Terra não só já foi provada cientificamente como havia quem nela acreditasse há mais de dois mil anos. Segundo a Sociedade Americana de Física, “por volta de 500 antes de Cristo, a maioria dos gregos antigos acreditava que a Terra era redonda, e não plana”.

Atualmente, como explica a NASA, “com GPS e outros satélites, os cientistas conseguem medir o tamanho e a forma da Terra com precisão de um centímetro”. Além disso, é visível nas várias fotografias captadas no Espaço a forma arredondada tanto da Terra como do seu satélite natural, a Lua.

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