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Investigação identifica milhares de canais de “médicos” gerados por IA: a rede de falsos especialistas que inunda o YouTube com desinformação

Soluções simples, acessíveis e supostamente eficazes para diferentes problemas de saúde. É esta a promessa feita em vídeos que circulam no YouTube, protagonizados por falsos médicos. Uma investigação do espanhol "Maldita.es" identificou 1.046 canais, em mais de 30 línguas, que utilizam inteligência artificial para difundir e monetizar conteúdo repleto de desinformação em saúde. 

No YouTube, o “Dr. Richard Ben” afirma num dos seus vídeos que é possível eliminar todos os vestígios de cancro em apenas 24 horas. Já a “Dra. Laura Mendoza” garante que comer uma determinada fruta permite “dizer adeus ao Alzheimer” e o “Dr. John Meyers” assegura que a diabetes pode ser revertida de forma simples e natural.

São promessas apelativas, assentes em conselhos e tratamentos sem qualquer suporte científico. Mas há outro elemento em comum entre estes supostos especialistas: nenhum deles é um médico real. Richard Ben, Laura Mendoza e John Meyers são, na verdade, avatares gerados por Inteligência Artificial (IA). Estes três casos são apenas uma pequena amostra dos 1.046 canais de YouTube que difundem desinformação relacionada com saúde, identificados numa investigação do jornal de fact-checkingMaldita.es“.

Promessas medicamente impossíveis

Ao serem apresentadas por alegados médicos com “anos de experiência”, estas recomendações ganham uma aparente credibilidade que pode levar os utilizadores a aceitarem como verdadeiras alegações falsas. A ideia de que seria possível eliminar “100% do cancro” em apenas 24 horas, por exemplo, surge num vídeo de um falso médico que se apresenta como “o oncologista número um”.

Na realidade, o vídeo em questão, que ultrapassou as 430 mil visualizações em menos de três meses, aborda hábitos diários para “prevenir o cancro depois dos 50 anos”. Contudo, um utilizador que se limite a ler a mensagem da miniatura, sem assistir ao vídeo, é facilmente induzido em erro por uma informação potencialmente perigosa para a saúde, já que confiar nestes pseudotratamentos e conselhos pode levar algumas pessoas a desvalorizar terapêuticas prescritas, cientificamente validadas e comprovadamente eficazes.

O mesmo padrão repete-se noutros canais, como no vídeo da “Dra.Laura Mendoza” sobre dizer adeus ao Alzheimer através do consumo de determinadas frutas.

Canais acumulam mais de 1,8 mil milhões de visualizações

Alguns dos canais identificados pelo “Maldita.es”, que somam mais de 23,7 milhões de subscritores e cujos vídeos acumulam quase 1,84 mil milhões de visualizações, tentam monetizar este tipo de conteúdos. Fazem-no ao tentar convencer os utilizadores a pagar uma subscrição mensal para aceder a conteúdos exclusivos, solicitando donativos através de plataformas externas ou vendendo produtos como guias e livros.

Alguns canais têm disclaimer

Embora não seja frequente, alguns canais, como o de Richard Ben, incluem um aviso (disclaimer). Quando acontece, na descrição do perfil ou dos vídeos surge uma mensagem semelhante a esta: “Este canal destina-se apenas a fins educativos e não substitui aconselhamento, diagnóstico ou tratamento médico profissional. Consulte um médico devidamente habilitado para obter aconselhamento personalizado.”

Este mesmo texto, ou versões muito semelhantes, repete-se em várias línguas, incluindo coreano, espanhol, filipino, neerlandês, indonésio e inglês.

Quase 80% das contas foi criada desde 2025

A conta mais antiga identificada pela investigação foi criada há 20 anos, a 6 de julho de 2006. Pertence a “Dra. Nieves Martínez”, que tem vídeos sobre “saúde para idosos”.

Apesar disso, mais de 77% dos canais analisados foram criados entre janeiro de 2025 e julho de 2026. Em apenas um ano e meio, os 809 canais falsos criados durante esse período conseguiram reunir mais de 13 milhões de subscritores e publicar mais de 62 mil vídeos com supostos conselhos médicos e tratamentos.

Vídeos publicados em mais de 30 idiomas

Os 1.046 canais analisados publicaram, no total, mais de 96.400 vídeos, que acumulam quase 1,84 mil milhões de visualizações. Os conteúdos estão disponíveis em 33 línguas, sendo o espanhol, o inglês e o português as mais frequentes. Em conjunto, estas três línguas correspondem a 45,7% dos canais analisados.

Quanto à localização, foi possível identificar o país de origem de 717 canais, distribuídos por 54 países. O México, os Estados Unidos, o Brasil e a Espanha são os países com maior número de contas identificadas.

No conjunto, estes quatro países concentram 303 canais, dos quais 95 estão sediados em Espanha, representando 42,3% das contas cuja localização foi possível determinar.

Em Portugal, em número substancialmente inferior, a investigação identificou sete canais, seis dos quais criados entre janeiro de 2025 e junho de 2026. Na maioria, o target era a terceira idade.

Presentes em mais plataformas

Alguns destes canais mantêm perfis noutras plataformas, onde publicam o mesmo tipo de conteúdos. É o caso da “Dra. Camille Reyes”, cujo canal foi criado a 23 de junho de 2026 e já ultrapassa os 6.200 subscritores. Na descrição do canal existe uma ligação para uma conta de Facebook com o mesmo nome, onde a suposta médica também publica vídeos no seu consultório.

Ao contrário do que acontece no YouTube, esses vídeos não estão identificados como conteúdo gerado por inteligência artificial.

Por sua vez, a “Dra. Nieves Martínez” encaminha os utilizadores para um perfil no Instagram. Nessa rede social, o “Maldita.es” identificou igualmente uma rede coordenada composta por centenas de contas geradas por IA que procuram vender suplementos alimentares — alguns sem autorização sanitária — e guias com alegados conselhos de saúde.

Há canais que remetem ainda para perfis no X (antigo Twitter), Telegram e outras plataformas.

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