O primeiro jornal português
de Fact-Checking

Filipe Froes: “Utilizar a estirpe inglesa como justificação [para fechar as escolas] é fazerem de nós ignorantes”

Este artigo tem mais de um ano
O primeiro-ministro, António Costa, anunciou esta quinta-feira a interrupção de todas as atividades letivas durante pelo menos os próximos 15 dias, explicando que os novos dados do Instituto Ricardo Jorge apontam para um crescimento acentuado desta estirpe do SARS-CoV-2. Especialistas ouvidos pelo Polígrafo consideram que fazer depender a decisão do aumento da estirpe inglesa foi um pretexto fraco para corrigir um erro, dado que a medida já devia ter sido implementada há mais tempo.

Creches, escolas e universidades vão encerrar a partir desta sexta-feira, num período mínimo de duas semanas, anunciou o primeiro-ministro, António Costa, numa declaração ao país na qual voltou a reforçar que a decisão tinha como base a prevalência da variante britânica do novo coronavírus entre os novos casos de infeção confirmados.  “Há um crescimento muito acentuado da presença desta estirpe, desde a semana passada para esta. Tínhamos 8% de prevalência, esta semana temos 20% e os estudos prospectivos indicam que possa ter um crescimento muito significativo e possa vir mesmo a atingir 60% de prevalência nas próximas semanas“, declarou o Chefe de Governo, citando dados recentes do Instituto Dr. Ricardo Jorge.

Esta posição – de fechar os estabelecimentos de ensino conforme a evolução desta variante – já tinha sido assumida por António Costa durante o debate no Parlamento na quarta-feira passada e foi criticada por especialistas. Ao Jornal de Negócios, Celso Cunha,  virologista do Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT), defendeu que o Governo se socorreu desta nova estirpe para não assumir o erro que foi não ter encerrado os estabelecimentos de ensino mais cedo. “Esta variante tem tendência a aumentar em proporção e a prevalecer com o tempo. Estar a fazer depender [dela] o fecho das escolas é demagogia, para dizer que não errou”, acusou.

Também para o pneumologista Filipe Froes, a decisão governamental foi tomada tardiamente, tendo em conta o cenário pandémico que se vive em Portugal. “Já não estamos a viver rotura de camas, estamos a entrar em rotura de fármacos que permitem, por exemplo, colocar as pessoas num ventilador”, garante em declarações ao Polígrafo. “Tempo é vida em pandemia”, reforça o especialista, muito crítico da justificação apresentada: “utilizar a estirpe como justificação é associar à variante inglesa uma outra variante mais grave que é fazerem de nós ignorantes”. 

Também para o pneumologista Filipe Froes a decisão governamental foi tomada tardiamente, tendo em conta o cenário pandémico que se vive em Portugal. “Já não estamos a viver rotura de camas, estamos a entrar em rotura de fármacos que permitem, por exemplo, colocar as pessoas num ventilador”, garante em declarações ao Polígrafo. “Tempo é vida em pandemia”, reforça o especialista, muito crítico da justificação apresentada: “Utilizar a estirpe inglesa como justificação para decidir o encerramento das escolas é fazerem de nós ignorantes”. 

Para o coordenador do Gabinete de Crise da Ordem dos Médicos, estabelecer esta relação é “justificar mal e admitir que houve um atraso na deteção do seu impacto”. Ou seja, “o encerramento das escolas já devia ter sido feito, mesmo sem se saber o impacto da variante inglesa do SARS-CoV-2. Se agora sabemos a dimensão e o impacto desta estirpe, a falha é ainda maior porque já se devia ter detetado a disseminação da mesma há mais tempo”. 

E continua as críticas. “Decidir em pandemia é decidir na incerteza. E se não temos os elementos todos para fundamentar as melhores decisões, temos obrigação de instalar todos os mecanismos para monitorizar a situação e, em face das alterações ao esperado, corrigir rapidamente as medidas. No Natal, podemos ter decidido mal, mas ainda decidimos pior quando demorámos tanto tempo a reagir”, defende, remetendo para as decisões tomadas antes de ser decretado um novo confinamento geral: “O SARS-CoV-2 não se adapta aos nossos horários: não descansa à noite, não vai a restaurantes não pára aos fins de semana. Em pandemia, somos nós que temos que nos adaptar ao ritmo do inimigo. Ele não se consegue adaptar a nós e isso é uma vantagem que ele tem”. 

@ Agência Lusa / Paulo Novais

Filipe Froes recorda ainda que outros países onde existe a mesma variante fecharam as escolas mais cedo do que aquilo que foi feito em Portugal, para “não só diminuir o impacto da pandemia na comunidade, mas também para diminuir a transmissão da variante nessa comunidade”. Por isso, defende que “o não fechar as escolas e atrasar essa medida contribui para agravar a pandemia e para aumentar a disseminação da variante na população” em Portugal.

Ao Polígrafo, Paulo Paixão, presidente da Sociedade Portuguesa de Virologia, também não tem dúvidas em secundar a opinião de Celso Cunha. “A variante já estava a subir ainda antes da tomada decisão [de não encerrar as escolas] a semana passada: do dia 3 para o dia 12 aumentou de 8,1% para 15,2%. Ou seja, já se sabia que esta estirpe cá estava e que os números subiam”, alega. Por isso, para o virologista, a decisão comunicada esta sexta-feira pelo Governo é um recuo perante um erro. “Meteram o pé na argola e a pressão com os números feita por toda a gente levou a esta saída airosa”, acusa. 

Ao Polígrafo, Paulo Paixão, presidente da Sociedade Portuguesa de Virologia, também não tem dúvidas em secundar a opinião de Celso Cunha. “A variante já estava a subir ainda antes da tomada decisão [de não encerrar as escolas] a semana passada: do dia 3 para o dia 12 aumento de 8,1% para 15,2%. Ou seja, já se sabia que esta estirpe cá estava e que os números subiam”, alega. Por isso, para o virologista, a decisão comunicada esta sexta-feira pelo Governo é um recuo perante um erro. “Meteram o pé na argola e a pressão com os números feita por toda a gente levou a esta saída airosa”, acusa. 

Paulo Paixão considera ainda não fazer sentido que qualquer decisão dependa da prevalência de uma estirpe. “Os indicadores mais importantes são a mortalidade, os novos casos e o internamento hospitalar. A variante vai é agravar tudo isso”, diz o especialista, para quem esta questão “é claramente uma desculpa. Não cabe na cabeça de ninguém achar que faz sentido perceber se os números da variante ainda podem piorar mais.”

O virologista defende igualmente que começavam a escassear as condições – inclusivamente psicológicas dos professores – para assegurar a continuidade do funcionamento escolar. “No primeiro confinamento, as crianças estiveram de março a setembro sem aulas. Neste caso, estaremos a falar de dois meses – que é bem possível que seja o tempo necessário. Claro que afeta, mas estamos a falar de uma situação totalmente diferente”, explica, antes de reforçar a importância da decisão anunciada esta sexta-feira. “Estamos a falar de um um cenário muito pior. Estamos no meio de uma guerra, estamos na pior altura da guerra”, conclui. 

Partilhe este artigo
Facebook
Twitter
WhatsApp
LinkedIn

Relacionados

Em destaque