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As verdades e as mentiras de (e sobre) Lula da Silva nos primeiros meses como presidente do Brasil

Este artigo tem mais de um ano
A visita oficial de Lula da Silva a Portugal, de 22 a 25 de abril, tem levantado polémica - entre os que condenam a receção do presidente brasileiro, principalmente o Chega, e os que esperam que aproveite a ocasião para retratar-se das polémicas declarações sobre a Guerra na Ucrânia. Com os holofotes mundiais apontados a Lula, cresce também a partilha de informação sobre o presidente nas redes sociais, mas será que é toda verdadeira?

O Presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, realiza uma visita oficial a Portugal entre os dias 22 e 25 de abril. Chegou hoje, 21 de abril, mais cedo do que o previsto. A viagem decorre após uma semana de intensa atenção mediática internacional, devido às polémicas declarações que Lula da Silva fez sobre a guerra da Ucrânia durante as suas deslocações à China e aos Emirados Árabes Unidos.

Mais recente ainda é a notícia da queda do seu ministro do Gabinete de Segurança Institucional, General Gonçalves Dias, que pediu a demissão depois de surgir nas imagens da invasão ao Planalto. É a primeira baixa do Governo de Lula.

Os recentes acontecimentos catapultaram a informação partilhada sobre o presidente brasileiro nas redes sociais. Assim, não é de admirar que tenha sido atingido por uma onda de desinformação. Mas também não foram poucas as vezes em que foi Lula o próprio autor das informações falsos, avançando dados incorretos sobre a economia do país e factos decorridos no anterior Governo.

1. Em 100 dias como presidente, Lula já propagou muita desinformação sobre a economia do Brasil e o legado de Bolsonaro?

O jornal de verificação de factos brasileiro “Aos Fatos” reuniu o repertório de informações falsas, principalmente sobre a economia e o legado do governo Bolsonaro, propagadas pelo presidente do Brasil, Lula da Silva, desde o início do seu mandato.

É falso, por exemplo, que a economia brasileira não tenha crescido nada em 2022, como afirmou o presidente. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) atesta um crescimento de 2,9% no PIB em comparação com 2021.

Também não é verdade, tal como alegado por Lula, que 2022 tenha terminado com 186 mil obras de unidades habitacionais paralisadas. O dado citado pelo presidente refere-se, sim, ao total de casas em construção mais o de obras paradas. O dado falso foi citado por Lula em pelo menos seis ocasiões desde o início do ano.

Noutra ocasião, o presidente garantiu que, segundo o relatório da FAO, o Brasil é o maior produtor de proteína animal do mundo. O “Aos Fatos” verificou que estava errado, o país está afinal no terceiro lugar deste ranking, depois da China e dos EUA.

Avaliação do Polígrafo: Verdadeiro

2. Vídeo mostra Lula da Silva bêbedo ao lado da mulher?

“Olha a situação desse cachaceiro, o seu estado é lastimável, temos que ter é vergonha. Que decadência!”, lê-se na descrição de um vídeo protagonizado pelo presidente brasileiro e a mulher, Janja Lula da Silva.

A falar de forma arrastada, como se estivesse embriagado, Lula diz o seguinte: “Se você tem namorado, abrace ele e vá para o Vale do Anhangabaú. Se você tem mulher, abrace a sua mulher. Ou seja, vamos aquecer o Vale do Anhangabaú. Se tiver frio, a gente faz calor. Se tiver calor, a gente faz frio. O que é importante é que a gente faça uma grande festa amanhã, a partir das 10h. Eu e a Janja vamos estar lá.”

O vídeo foi manipulado e exibido em velocidade reduzida, com a intenção de fazer parecer que Lula está embriagado. A gravação original, divulgada a 19 de agosto de 2022, mostra o político a falar normalmente e sem sinais de estar sob o efeito de qualquer substância. Nas imagens, Lula e Janja divulgam o evento que teria lugar no dia seguinte, no Vale Anhangabaú, em São Paulo.

Avaliação do Polígrafo: Manipulado

3. Lula confiscou áreas do sul da Amazónia e entregou-as a ONGs e países europeus

Circula nas redes sociais um vídeo em que se alega que as terras do sul da Amazónia estariam a ser confiscadas por Lula da Silva, desde que tomou posse como presidente brasileiro. O destino dos terrenos seriam Organizações Não Governamentais (ONGs), países europeus e até a China. Em vários posts admite-se mesmo que a soberania do país poderá estar em risco com esta cedência de Lula.

A informação é falsa. Não é verdade que áreas do sul da Amazónia foram confiscadas para serem entregues a ONGs e países europeus. A Agência Lupa, que verificou esta informação, contactou o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis que garantiu a falsidade do conteúdo analisado, bem como ser falso que o Instituto tenha confiscado terrenos na Amazónia.

Na região, ocorre desde o início de abril deste ano uma ação contra o desmatamento batizada “Operação Retomada”. As equipas do instituto mencionado, acompanhadas pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) e pela Força Nacional de Segurança Pública, apreenderam cerca de 3 mil cabeças de gado em áreas já embargadas por desmatamento ilegal na Amazónia. Mas não houve lugar à desapropriação de terrenos.

Avaliação do Polígrafo: Falso

4. Lula roubou crucifixo do Palácio do Planalto?

Circula pelas redes sociais um vídeo em que um homem comenta a notícia, publicada pela revista Veja, de que a Polícia Federal brasileira teria encontrado jóias e obras de arte num cofre de Luiz Inácio Lula da Silva. Na captura de ecrã do artigo jornalístico, é destacada a informação sobre um “crucifixo desaparecido do Planalto”. O autor do vídeo cobra ainda à Globo a divulgação desta informação, insinuando que está a proteger o presidente brasileiro. 

A agência Lupa verificou esta informação, chegando à conclusão de que a mesma se baseia numa análise pouco fiel à verdade. Desde logo porque a reportagem da revista Veja é antiga (foi publicada a 11 de março de 2016, no auge da Operação Lava Jato). Ao contrário do que sugere a peça, Lula não roubou o crucifixo. A peça foi oferecida ao atual Presidente, em 2003, por José Alberto de Camargo, presidente da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração. Assim sendo, a mesma não se constitui como “património público” nem tampouco estava “desaparecida” do acervo do Palácio do Planalto.

Depois de receber o presente, Lula da Silva entendeu por bem afixar o crucifico numa coluna naquele que era o seu gabinete no Palácio do Planalto. Em março de 2009, enquanto o Planalto sofria algumas obras de restruturação, “Lula levou o crucifixo para uma sala no Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília”. Só em agosto de 2010 é que a peça voltou ao gabinete presidencial, tendo sido colocada mesmo atrás da mesa do Presidente.

A chegada de Dilma Rousseff ao poder, em janeiro de 2011, fez com que o crucifixo fosse retirado do gabinete e levado para São Paulo, dentro de um avião da Força Aérea Brasileira, a par com um conjunto de “outras peças valiosas do acervo de Lula”.

Avaliação do Polígrafo: Falso

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