"A ministra é mesmo autista", destaca-se no título de um recente artigo de opinião, visando a ministra da Saúde que, poucos meses antes, por coincidência, utilizara uma expressão similar: "A governação não é autista, a governação às vezes não consegue refletir inteiramente qual é a vontade das pessoas, mas a governação não é autista". Mais exemplos: "As declarações do primeiro-ministro revelam um autismo preocupante", afirmou um deputado em 2008. Já em 2017, outro deputado criticou o que descreveu como "um Governo bipolar".

Estes são apenas alguns exemplos aleatórios de um fenómeno recorrente na cena política portuguesa. Na perspetiva de Ana Matos Pires, psiquiatra, este tipo de discurso "revela o estigma associado à doença mental", uma vez que “não passa pela cabeça de ninguém chamar diabético ou hipertenso a alguém em sentido depreciativo".

Coordenadora regional de Saúde Mental da ARS Alentejo, Matos Pires considera que a utilização destes termos - referentes a transtornos ou condições do foro mental - como insulto ou crítica política "demonstra a associação negativa e insultuosa que temos interiorizada. Se vem do lado da doença mental, é má. E como qualquer coisa má, pode ser usada como insulto. E este é um estigma que é transversal, existe na comunidade, nos profissionais de saúde e é uma das barreiras importantes que temos de ultrapassar".

A especialista aponta para a empatia -  a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro - como uma ferramenta importante para inverter esta tendência. "Há um movimento que se faz muito pouco, que é o movimento empático. Se nós fizermos esse movimento percebemos perfeitamente que alguém que já tem dificuldade em viver com a sua própria doença e que já se sente estigmatizado com ela, quando ouve usarem-na em sentido insultuoso, sente-se pior".

Por sua vez, Miguel Ricou, psicólogo e e presidente do Conselho de Especialidade de Psicologia Clínica e da Saúde da Ordem dos Psicólogos Portugueses, considera que "a primeira consequência clara [deste discurso] tem a ver com o estigma das pessoas que têm esses diagnósticos. Estamos a atribuir características à doença que ela não tem". Nesse sentido, exemplifica: "Tenho pessoas que chegam ao consultório e me dizem que devem ser bipolares por terem mudanças de humor, mas não tem nada a ver".

"Estamos a atribuir características à doença que ela não tem", adverte o psicólogo Miguel Ricou. Nesse sentido, exemplifica: "Tenho pessoas que chegam ao consultório e me dizem que devem ser bipolares por terem mudanças de humor, mas não tem nada a ver".

Este tipo de discurso pode não ter uma intenção maldosa, pelo menos conscientemente. Há casos em que parece ser mais por desconhecimento ou distração. "As pessoas não fazem isto por mal, nem consideram isto um insulto, que é o mais grave. Quando se insulta alguém com um palavrão, o insulto é claro. Aqui não, estamos a adjetivar, que é mais grave. Estamos a querer de alguma forma ganhar preponderância sobre o outro, qualificando ou desqualificando o seu discurso ou comportamento através de uma adjetivação que diz respeito a uma doença. Temos tanta linguagem inclusiva e depois com isto descartamo-nos", lamenta Ricou.

Sara Rocha, ativista e autora da página "Autismo em português", explica que "a utilização de determinadas condições, perturbações ou deficiências como forma de insulto faz com que milhares de pessoas ao nível nacional sejam conotadas de forma negativa" e que essa ideia se manifeste quando alguém estiver "a contratar, fazer amizades ou conhecer pessoas com essas perturbações".

"Vale a pena compreender que utilizar uma condição ou perturbação como insulto é denegrir as pessoas que realmente foram diagnosticadas. Assim como utilizar a cor da pele ou a orientação sexual como insulto são sinais de preconceito, também o é o uso das deficiências ou perturbações. No entanto, ainda é dito, e defendido, precisamente pelas pessoas que deviam estar a fazer decisões sobre como nos apoiar e que não estão", critica.

"Utilizar uma condição ou perturbação como insulto é denegrir as pessoas que realmente foram diagnosticadas. Assim como utilizar a cor da pele ou a orientação sexual como insulto são sinais de preconceito, também o é o uso das deficiências ou perturbações", afirma Sara Rocha, autora da página "Autismo em português".

"Quem tem poder político para nos ajudar neste trabalho de inclusão na sociedade são os primeiros a utilizar os diagnósticos como insulto, sendo provavelmente a única vez durante a sua carreira que falaram da nossa condição", acrescenta.

"Estas expressões populares, por muito que alguns tentem negar, entram nas nossas realidades e deixam as suas marcas. Introduzem preconceito que custa a desmistificar", afirma Sara Rocha, a qual foi diagnosticada fora de Portugal, tardiamente, o que atribui também ao estigma associado ao autismo. "Apenas descobri o meu diagnóstico de autismo quando saí de Portugal, precisamente pela ideia antiquada que é expressa neste tipo de discurso", algo que terá levado a que os seus traços típicos de autismo fossem ignorados "por não irem de encontro à ideia popular".

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