Como é que descrevem a metodologia utilizada e quais as principais conclusões que destacam do estudo realizado pelo Nova SBE Behavioural Lab, com enfoque no "viés de confirmação" e na forma como as pessoas filtram e consomem informação relacionada com a pandemia de Covid-19?

Durante a pandemia somos levados a tomar as decisões apropriadas de forma a conter a propagação do vírus e a proteger a nossa saúde e a de outras pessoas. Por exemplo, precisamos de limitar o contacto social, usar máscaras e ser vacinados contra a Covid-19. Os erros de tomada de decisão neste contexto podem ter consequências aterradoras: o não cumprimento das medidas recomendadas pode tornar ineficazes os esforços para conter o contágio. Concluímos que o viés de confirmação - tendência de procurar e interpretar evidências que apoiem as crenças e opiniões existentes - pode ser particularmente nocivo, porque uma seleção tendenciosa de informações pode levar à implementação de menos medidas de prevenção ou até a um não cumprimento das mesmas. Por exemplo, se uma pessoa preferir não usa máscara, ela pode procurar informações que sugiram que as máscaras são prejudiciais e evitar outras informações. Isso pode resultar no uso de menos máscaras ou até num desuso total.

Concluímos que o viés de confirmação - tendência de procurar e interpretar evidências que apoiem as crenças e opiniões existentes - pode ser particularmente nocivo, porque uma seleção tendenciosa de informações pode levar à implementação de menos medidas de prevenção ou até a um não cumprimento das mesmas. Por exemplo, se uma pessoa preferir não usa máscara, ela pode procurar informações que sugiram que as máscaras são prejudiciais e evitar outras informações.

Nesta pesquisa testamos uma nova intervenção de treino em vídeo para reduzir o viés de confirmação, no contexto da pandemia. Esta intervenção já tinha sido testada por outros investigadores, em laboratório, e mostrou resultados promissores. Mas a sua eficácia nunca tinha sido testada na vida real. A ideia era que, se o viés de confirmação desempenhasse um papel e esta intervenção se mostrasse eficaz, técnicas de redução de viés semelhantes poderiam ser utilizadas para melhorar os processos de tomada de decisão das pessoas nesta ou em outras crises.

Nos dois primeiros estudos, com uma amostra portuguesa e uma dos EUA, respetivamente, testamos se a redução do viés de confirmação afetava a opinião das pessoas sobre as medidas de prevenção. Já num terceiro estudo, com uma amostra dos EUA, focamo-nos especificamente nas intenções de vacinar contra a Covid-19. No nosso estudo de vacinação, primeiro medimos as intenções de vacinação e pedimos às pessoas que selecionassem artigos para ler sobre esse tópico. Nesse ambiente controlado apresentamos uma mistura equilibrada de artigos a favor e contra a vacinação, de modo a que a disponibilidade de informações não fosse um problema. Por outras palavras, esta foi uma maneira de medirmos as preferências de leitura dos participantes, em vez de ver um efeito impulsionado pela acessibilidade à informação. Nesta primeira pesquisa, já tínhamos evidências de viés de confirmação: quanto mais os participantes eram contra as vacinas, maior a probabilidade de selecionarem artigos desfavoráveis à vacinação e vice-versa. No estudo de acompanhamento, no qual administramos a nossa intervenção, convidamos apenas pessoas em dúvida face a serem ou não vacinadas e que estavam inclinadas para o não.

Nesta primeira pesquisa, já tínhamos evidências de viés de confirmação: quanto mais os participantes eram contra as vacinas, maior a probabilidade de selecionarem artigos desfavoráveis à vacinação e vice-versa.

No treino em vídeo utilizamos técnicas de eliminação de viés que literatura anterior sugeriu como eficazes: um narrador apresentou o viés de confirmação a um grupo de participantes; apresentou vinhetas nas quais os atores cometem esse preconceito; e estratégias de mitigação sugeridas. Os participantes de outros dois grupos de controlo assistiram a um vídeo semelhante, sobre outros enviesamentos não relacionados. De seguida medimos se os participantes perceberam o vídeo, apresentando-lhes cenários hipotéticos, nos quais eles poderiam cometer o viés de confirmação, e que foram utilizados em pesquisas anteriores como uma verificação de que a intervenção funcionou.

Como pretendido, o vídeo de eliminação do viés reduziu o viés de confirmação, em comparação com os grupos de controlo nos quais as pessoas não foram treinadas: por exemplo, os participantes que foram treinados sobre o viés de confirmação estavam mais propensos a escolher informações que não estavam de acordo com uma opinião hipotética inicial, em comparação com os participantes não treinados.

O vídeo de eliminação do viés reduziu o viés de confirmação, em comparação com os grupos de controlo nos quais as pessoas não foram treinadas: por exemplo, os participantes que foram treinados sobre o viés de confirmação estavam mais propensos a escolher informações que não estavam de acordo com uma opinião hipotética inicial, em comparação com os participantes não treinados.

Tínhamos esperança de que isso também se traduzisse nas escolhas literárias. No entanto, quando o assunto remetia para decisões do quotidiano, os participantes não ajustaram a seleção de informações - eram ainda mais propensos a escolher artigos contra do que a favor e não houve melhoria após a intervenção. As intenções das pessoas de vacinação também não mudaram significativamente como resultado da intervenção. Por outras palavras, embora a intervenção melhore o viés de confirmação num contexto hipotético, ela não afeta a maneira como as pessoas procuram informações ou mesmo as suas decisões no contexto real de pandemia.

A experiência baseou-se em dois grupos de pessoas, quais foram as principais diferenças registadas entre os portugueses e os norte-americanos?

No que respeita às principais conclusões, não encontramos diferenças entre os dois grupos. Encontramos algumas pequenas disparidades em medidas exploratórias não relacionadas com as hipóteses principais. Por exemplo, em média, os participantes portugueses eram mais propensos, relativamente aos norte-americanos, a ver a resposta do Governo como sendo a certa, aquando da colecta dos dados. Os participantes dos EUA consideram a resposta do seu Governo muito fraca, no geral.

Em média, os participantes portugueses eram mais propensos, relativamente aos norte-americanos, a ver a resposta do Governo como sendo a certa, aquando da colecta dos dados. Os participantes dos EUA consideram a resposta do seu Governo muito fraca, no geral.

Outra das diferenças encontradas prende-se com o uso das redes sociais como fonte de informação para assuntos relacionados com a Covid-19, que era muito maior nos EUA, comparável ao nível dos telejornais. Por fim, a amostra dos EUA era mais propensa a mencionar "monitorizar sintomas" como uma medida preventiva, sendo que em Portugal quase ninguém mencionou isso.

Ainda assim, uma vez que estas são meras correlações baseadas em medidas descritivas exploratórias, estamos hesitantes no que toca a tirar delas fortes conclusões. Ao todo, não foram observadas grandes diferenças.

Porque é que, mesmo sabendo que estavam a consumir informação enviesada, os participantes não mudaram as suas escolhas? Como é que se explica essa opção?

Existem diferentes razões potenciais pelas quais as pessoas não mudam a forma como selecionam a informação, mas não temos dados que possam responder diretamente a isso. No nosso caso, em específico, pode ser simplesmente difícil para as pessoas colocarem a teoria em prática nos diversos contextos, especialmente nas escolhas do quotidiano, quando os alertas para o preconceito não estão presentes. Em cenários hipotéticos, provavelmente é mais fácil ser objetivo e detetar o viés. Mas quando se trata de nosso próprio processo de pensamento, é mais difícil identificar e diagnosticar problemas.

Não cremos que se trate de negação, é mais um ponto morto. É provável que as pessoas pensem: "O meu treino de tendência de confirmação não se aplica aqui". Esta conclusão está aparentemente de acordo com uma visão dos preconceitos como sendo persistentes, mesmo face a um adestramento. De qualquer forma, gostaríamos de ser mais otimistas: levantaríamos a hipótese de que intervenções mais fortes, com feedback personalizado de treino mais extenso sobre os próprios preconceitos, ainda que mais caras e difíceis de implementar, podem ter um efeito positivo a longo prazo, mesmo in loco. Há algumas evidências iniciais de pesquisas anteriores que mostram que uma preparação mais extensa produz maiores efeitos de redução do viés no laboratório. Fica em aberto se estes efeitos se transferem também para o quotidiano.

Quanto mais forte for a crença de uma pessoa, menor será a probabilidade de mudar o seu comportamento?

Precisamente. Isto vai de acordo com publicações anteriores e com o senso comum: quanto mais forte for a crença de uma pessoa, mais difícil é mudá-la. Infelizmente, também é difícil mudar as estratégias de procura de informações tendenciosas relacionadas com essa crença.

Na vossa perspetiva, quais são as principais responsabilidades dos media nestas situações?

Os nossos dados mostram que pessoas com atitudes negativas em relação à vacinação tendem a favorecer artigos contra vacinas e, também, que a sua escolha é baseada no título do artigo. Em primeiro lugar, isto sugere que artigos e notícias equilibradas são particularmente importantes, porque as pessoas não procuram informações equilibradas por iniciativa própria. Em segundo lugar, os nossos resultados mostram também que títulos negativos atraem mais as pessoas que tendem a não querer ser vacinadas e, assim sendo, devem ser utilizados com cuidado.

Pessoas com atitudes negativas em relação à vacinação tendem a favorecer artigos contra vacinas e, também, que a sua escolha é baseada no título do artigo.

Principalmente se considerarmos que muitas vezes as pessoas não lêem mais do que o título. No geral, isso é algo que os media e os órgãos de comunicação devem ter em consideração: não só os artigos devem ser mais equilibrados, tanto quanto possível, mas também os títulos desses artigos.

De acordo com o que observaram no estudo, as pessoas têm uma maior tendência para procurar informação mais simplificada de verdadeiro ou falso, preto ou branco, ou preferem informação mais complexa e inconclusiva que não providencia desde logo respostas definitivas sobre um dado assunto?

Esta é uma pergunta interessante, mas não podemos dar uma resposta com os dados recolhidos até ao momento. Nos nossos estudos, de forma propositada, demos às pessoas a opção de ler artigos a favor e contra as vacinas, de forma a que elas tivessem, sozinhas, que equilibrar as informações, procedendo à escolha de uma combinação de informações que abordassem os riscos ou benefícios da vacina. Com este design experimental controlado fomos capazes de testar se as pessoas são capazes de - ou desejam - equilibrar informações por iniciativa própria. O que observámos foi que isto não acontece.

Com este design experimental controlado fomos capazes de testar se as pessoas são capazes de - ou desejam - equilibrar informações por iniciativa própria. O que observámos foi que isto não acontece.

No entanto, os dados recolhidos não nos dizem qual seria o apelo de artigos equilibrados, frente a informações positivas ou negativas. A nossa hipótese é pessimista: mesmo quando informações equilibradas estão disponíveis, prevemos que as pessoas tenderiam, ainda assim, a escolher informações de acordo com as suas crenças atuais. Se isso for verdade - devia ser testado -, exige não apenas informações mais equilibradas (por exemplo, informação que inclua riscos e benefícios das vacinas), mas também uma redução da disseminação e/ou impacto de informações desequilibradas (por exemplo, informação focada apenas nos riscos), especialmente quando esta informação é de baixa qualidade.

Consideram que o jornalismo de verificação de factos pode ser uma espécie de vacina eficaz contra o viés de confirmação? Ou as pessoas também só acreditam nos fact-checks que confirmam os seus preconceitos?

O jornalismo de verificação de fatos é extremamente importante porque aborda a questão da informação de baixa qualidade. Possivelmente, isso não resolve completamente o viés de confirmação porque, como é sugerido na questão, as pessoas estão livres de escolher notícias verificadas de acordo com as suas crenças. Esta é outra hipótese interessante a ser testada, a par com potenciais soluções para o problema.

O jornalismo de verificação de fatos é extremamente importante porque aborda a questão da informação de baixa qualidade. Possivelmente, isso não resolve completamente o viés de confirmação porque, como é sugerido na questão, as pessoas estão livres de escolher notícias verificadas de acordo com as suas crenças.

Entre as soluções possíveis, as plataformas de verificação de fatos podem estimular as pessoas a procurar notícias verificadas de maneira equilibrada e lembrar os leitores sobre o panorama geral. Por exemplo, se as pessoas escolherem ler notícias negativas verificadas, seria boa ideia apresentar em simultâneo o conteúdo positivo relacionado (se disponível e de igual qualidade). Ou ainda, se as pessoas procurassem notícias verificadas, poderiam ser confrontadas com um lembrete de como seria um comportamento de pesquisa de informação imparcial, para além de receberem um feedback sobre o seu próprio enviesamento (por exemplo, "o utilizador leu x% de notícias sobre os riscos das vacinas, enquanto que x% seria mais equilibrado. Considere a leitura de…"). Integrar automaticamente os dois lados de uma questão, apresentar uma imagem tanto matizada quanto possível, ou incluir feedback sobre o próprio comportamento de procura de informações potencialmente tendencioso, pode ser uma forma eficaz de mitigar o viés.

Como muitas vezes as pessoas só lêem o título, uma técnica complementar para amenizar o preconceito poderia relacionar-se com sinalizar títulos negativos (ou positivos) que não refletem com precisão o conteúdo do artigo. Por outras palavras, se ainda não foi feito, sinalizar títulos desequilibrados, especialmente quando estes não correspondem totalmente ao conteúdo do artigo, também pode surtir um efeito positivo.

Outra sugestão prende-se com o título dos artigos que devem ser mais equilibrados e refletir com precisão o conteúdo dos artigos. Por vezes são utilizado títulos negativos em artigos que, na verdade, contêm informações mais equilibradas do que aquilo que o título sugere. Como muitas vezes as pessoas só lêem o título, uma técnica complementar para amenizar o preconceito poderia relacionar-se com sinalizar títulos negativos (ou positivos) que não refletem com precisão o conteúdo do artigo. Por outras palavras, se ainda não foi feito, sinalizar títulos desequilibrados, especialmente quando estes não correspondem totalmente ao conteúdo do artigo, também pode surtir um efeito positivo.

Importante: todas estas sugestões são meramente especulativas e devem ser testadas em estudos ad hoc, juntamente com as condições de contorno para estes hipotéticos efeitos positivos.

A aprendizagem de princípios científicos básicos, a par da literacia digital, deveria ser intensificada nas escolas, de forma a reduzir o número de pessoas vulneráveis perante o fenómeno de desinformação? Sobretudo fake news relacionadas com matérias importantes de saúde pública como temos encontrado durante a pandemia, ou sobre a vacinação, entre outros exemplos.

Absolutamente. Mesmo que o viés de confirmação seja generalizado e persistente, a pesquisa sugere que os alunos que receberam treino extensivo apresentam menos viés, em média. Por exemplo, o treino em raciocínio estatístico e em ciências probabilísticas (tais como psicologia experimental e medicina) parece aumentar a aplicação de princípios estatísticos e lógica para problemas do quotidiano.

O pensamento científico deve fazer parte dos currículos escolares desde o início. O pensamento crítico e as habilidades de raciocínio são benéficas, em geral, e devem ser parte importante dos currículos básicos, ao invés de parte do treino especializado do ensino superior.

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