O primeiro equipamento eletrónico inteiramente desenhado, fabricado e testado em Portugal, a viajar para o espaço – um registador autónomo chamado EuTemp – retornou à Terra e voltou a casa. “Depois de cumprir com sucesso a sua missão na plataforma externa do Columbus – o laboratório da Agência Espacial Europeia (ESA) na Estação Espacial Internacional – regressou no Space Shuttle da NASA, e a ESA ofereceu-nos a unidade, que faz agora parte do nosso espólio”, conta João Costa Pinto, diretor da Divisão Aeroespacial da Efacec. 

Passaram-se 17 anos desde o primeiro contacto com a ESA, e muita coisa mudou na empresa. Havia duas pessoas a trabalhar para o projeto do espaço, agora são 15; e a tecnologia Efacec passou a estar presente em várias missões espaciais. 

Há um monitor de radiação na missão Bepicolombo a caminho de Mercúrio, preparado para “detetar, discriminar e catalogar o impacto de partículas energéticas fundamentalmente expelidas pelo Sol”. Está a ser desenhado um outro, ainda mais sofisticado, para integrar a missão JUICE, da ESA, que irá orbitar Júpiter e as suas luas. E isto além de, na área dos altímetros para naves, haver duas tecnologias em desenvolvimento e estar “planeada a construção de uma unidade de voo baseada na solução LIDAR que irá incorporar a missão conjunta da ESA e da NASA, para acompanhar e impactar um asteroide [AIDA]”.  

Um setor em expansão

Portugal aderiu à ESA na viragem do século, e o crescimento do setor tem sido enorme desde então. “O ecossistema espacial empresarial português conseguiu um retorno económico superior a 120% na última década, envolvendo uma força total de trabalho de mais de 1400 pessoas, onde se incluem 300 engenheiros altamente qualificados”, lê-se no texto do documento que define a estratégia nacional para o setor do espaço – “Portugal Espaço 2030”, publicado em 2018. Telecomunicações, sistemas cibernéticos, realidade aumentada, observação da Terra, sistemas de navegação, exploração espacial e tecnologia de lançadores são alguns dos subdomínios em causa. 

A faturação do setor aeroespacial ronda os 40 milhões de euros anuais. Mas, com o impulso da recém-criada agência espacial portuguesa, a Portugal Space, e a construção de uma base de lançamento de microssatélites em Santa Maria, nos Açores, o governo espera multiplicar este número por dez na próxima década. Citado pela agência Lusa, o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, anunciou em abril, à data do anúncio da criação da Portugal Space, que a expetativa era criar mil novos empregos e gerar uma faturação de 400 milhões de euros até 2030.

Assinaturas no espaço

Há mais de 40 empresas e instituições científicas ligadas ao setor do espaço registadas no Cluster Português das empresas de Aeronáutica Espaço e Defesa (AEDCP). Na lista, estão algumas das empresas pioneiras, e basta uma breve incursão pelos seus percursos para perceber a abrangência da impressão digital tecnológica portuguesa no espaço.

A Critical Software, uma das primeiras empresas a disponibilizar serviços de Verificação e Validação Independente de Software (ISVV) – tecnologia que permite testar a segurança de software espacial que muitas vezes não pode ser testado em terra –, é um dos melhores exemplos. Já participou em mais de 20 missões espaciais da NASA ou da ESA. Atualmente, além da programação de satélites e da colaboração em projetos ligados aos maiores telescópios do mundo, como o Extremely Large Telescope (ELT), ou o Square Kilometre Array (SKA), está envolvida na missão Solar Orbiter, da ESA, uma sonda que ambiciona saber mais sobre o Sol, e ainda a desenvolver o software que controla a missão europeia a Marte ExoMars.

Com um percurso igualmente relevante, a Deimos Engenharia possui um vasto currículo no desenvolvimento de satélites e é responsável pela plataforma que divulga as imagens recolhidas pelo programa europeu de observação da Terra Copernicus. Participou em mais de 150 projetos da ESA, nomeadamente relacionadas com os cálculos para trajetórias de missões de exploração a Marte, e mais recentemente, destinadas a Júpiter. 

Mas há mais casos, como a GMV, responsável pela criação de um banco de testes que é usado pela ESA antes do lançamento de um veículo, rover ou foguetão. Ou a Active Space Technologies, a quem coube a tarefa de desenvolver o sistema de deslocação do rover da missão Exomars 2020 e testar, por exemplo, o sistema de seis rodas. 

Espaço 4.0

João Costa Pinto reconhece que “o peso do aeropespacial na Efacec é ainda residual, considerando a dimensão da empresa”, mas diz também que a ambição é de crescimento e, sobretudo, diversificação. “Até aqui, temo-nos dedicado principalmente à exploração espacial, mas a verdade é que o espaço é muito mais do que isto – e cada vez mais. Por exemplo, estamos a estudar a inclusão de serviços de espaço em alguns dos nossos produtos da Efacec que se destinam a utilities de energia e transportes”, explica. 

O uso comercial das tecnologias aeroespaciais não é uma novidade. Muitos dos produtos que hoje usamos no dia-a-dia são spinoffs de tecnologias da NASA [link para Fact chek 1]. O futuro passa também por aí, e essa é igualmente uma aposta da estratégia “Portugal Espaço 2030”. 

O crescimento do setor passa pela intenção de replicar iniciativas como o Centro de Incubação de Negócios da ESA, liderado em Portugal pelo Instituto Pedro Nunes (IPN), de Coimbra. Como explicou recentemente o diretor de inovação do IPN, Carlos Cerqueira, citado pelo jornal Público, o ESA-BIC, que tem polos em Cascais e no Porto, “apoia start-ups que transfiram tecnologia espacial para setores terrestres e empresas que operem no mercado espacial comercial”. Em cinco anos ajudou a lançar 27 empresas, com uma taxa de 100% de sobrevivência. 

Parceria Polígrafo | Fundação Francisco Manuel dos Santos

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