"Os democratas devem ser muito firmes nos seus princípios e, ao mesmo tempo, ser sensatos na sua defesa. Firmes nos princípios significa uma tolerância zero em relação àquilo que é condenado pela Constituição [da República Portuguesa], sensatez significa estar atento às campanhas e escaladas que é fácil fazer a propósito de temas sensíveis na sociedade portuguesa", afirmou o Presidente da República, no dia 13 de agosto.

Marcelo Rebelo de Sousa prestava declarações à comunicação social após visitar três unidades hoteleiras em Lisboa. Referia-se especificamente às ameaças de morte visando três deputadas à Assembleia da República - Beatriz Dias (Bloco de Esquerda), Mariana Mortágua (Bloco de Esquerda) e Joacine Katar Moreira (sem partido) - e sete ativistas anti-racismo, através de um e-mail supostamente remetido por um grupo auto-denominado como "Nova Ordem de Avis - Resistência Nacional".

"Informamos que foi atribuído um prazo de 48 horas para os dirigentes antifascistas e anti-racistas incluídos nesta lista, para rescindirem das suas funções políticas e deixarem o território português", sublinhava-se no e-mail, avisando que se o prazo não fosse respeitado "medidas serão tomadas contra estes dirigentes e os seus familiares, de forma a garantir a segurança do povo português". Mais, proclamava-se que "o mês de agosto será o mês do reerguer nacionalista".

Para Rebelo de Sousa, há que "perceber a utilização, instrumentalização e manipulação desses temas, que tem sido, noutros países, uma forma de radicalizar a vida política e promover fenómenos anti-sistémicos e debilitar a democracia".

"Temos de saber responder a esse tipo de desafios com inteligência: não fazer aquilo que quem promove esse tipo de escalada pretende que seja feito, que é criar um clima emocional de clivagem na sociedade portuguesa", salientou, defendendo também a necessidade de "apoiar a atuação das autoridades encarregadas de fazer justiça, neste caso o Ministério Público".

É neste contexto que, no mesmo dia 13 de agosto, na página oficial do Sindicato Unificado da Polícia de Segurança Pública (PSP) na rede social Facebook, surge uma publicação mostrando a imagem de uma frase insultuosa contra a polícia (em língua inglesa) alegadamente grafitada numa parede de Viseu, associada à seguinte mensagem: "Isto não é num outro qualquer país ou cidade, isto é em Portugal e numa cidade portuguesa, isto é em Viseu. Sobre isto o senhor Presidente da República, senhor presidente da Assembleia da República e demais figuras políticas, nada têm a dizer. E sobre as agressões e ameaças aos elementos das Forças de Segurança, o que têm a dizer? Está tudo bem, não se passa nada?"

O Polígrafo confirmou junto do Sindicato Unificado da PSP que a página é oficial e a publicação em causa é autêntica e, aliás, assumida pelo presidente da estrutura sindical, Peixoto Rodrigues.

"Confirma-se que a página que faz referência é a página oficial do Sindicato Unificado da Polícia de Segurança Pública", afirmou, em resposta por escrito ao Polígrafo.

Questionado sobre se o Sindicato Unificado da PSP obteve uma reação da parte de algum dos visados, ou se apresentou queixa formal da mensagem grafitada numa parede de Viseu, o mesmo Peixoto Rodrigues indicou que "relativamente à publicação em apreço, não tivemos qualquer reação das entidades a que faz referência. Não compete ao Sindicato Unificado da PSP apresentar qualquer queixa, uma vez que é crime público, compete ao Ministério Público acionar os mecanismos que achar por convenientes. As manifestações de desagrado demonstradas na redes sociais visa unicamente alertar as entidades competentes para o elevado grau de ameaça de que os polícias estão a ser alvo".

"O objetivo não é inflamar seja o que for, apenas um alerta para as entidades competentes tomarem todas as medidas possíveis para que esta onda de ameaça e desconsideração aos polícias tenha um fim. Somos contra toda e qualquer ação que vise fomentar o racismo, xenofobia a discriminação, etc. Da mesma forma que somos contra todos os atos que visem toda e qualquer ação contra os elementos policiais", concluiu.

A crítica implícita na mensagem abrange igualmente o presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, "e demais figuras políticas". Também no dia 13 de agosto, Ferro Rodrigues repudiou as ameaças remetidas por um "grupúsculo de extrema-direita" a deputadas e ativistas.

"A tentativa de intimidar deputados e ativistas políticos reveste-se de gravidade suficiente para que, enquanto presidente da Assembleia da República, não possa - nem queira - deixar de a condenar, manifestando também todo o meu apoio aos visados", escreveu Ferro Rodrigues, em mensagem enviada à Agência Lusa.

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