A internet faz, cada vez mais, parte do dia-a-dia. As pessoas estão online de manhã à noite, seja em contexto de trabalho, na procura de entretenimento ou na comunicação com amigos. É um facto que a vida sexual também passou a estar mais ligada ao online, quer para encontrar conteúdos que provoquem excitação, quer para aceder a informação de natureza mais pedagógica.

Um estudo sobre o impacto dos meios digitais na sexualidade, coordenado por Patrícia Pascoal, psicoterapeuta clínica, professora universitária e presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica (SPSC), mostra que as três atividades relacionadas com sexualidade que são mais recorrentes na internet são “ver material sexualmente explícito [como a pornografia] para se excitar sexualmente” (26%), “aceder a material com conteúdo erótico [por exemplo fotografias, literatura, etc.]” (20,4%) e “ver/ouvir programas de rádio, podcasts, televisão, videocasts ou outros sobre sexualidade” (17,8%).

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Fonte: Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica

Este estudo, lançado ontem, 4 de setembro, no âmbito da celebração do Dia Nacional da Saúde Sexual, foi realizado em colaboração com o Mestrado em Sexologia da Universidade Lusófona e contou com a resposta de 411 participantes. Os dados foram recolhidos entre 19 de agosto e 1 de setembro.

“Com o mundo digital, as pessoas tiveram acesso a muito mais informação. Há a ideia de que só procuram a internet para ter sexo, quando - e os nossos dados também traduzem isto - há uma grande quantidade de pessoas que procuram informação, programas informativos”, explica Patrícia Pascoal ao Polígrafo. Os números são prova disso: 22,9% dos participantes afirmou procurar temáticas sobre “prazer e satisfação sexual (por exemplo técnicas)”, 20,2% disse aceder a “artigos científicos sobre sexualidade” e 16,8% a “sites oficiais/especializados sobre temas de saúde sexual/reprodutiva”.

“Com o mundo digital, as pessoas tiveram acesso a muito mais informação. Há a ideia de que só procuram a internet para ter sexo, quando - e os nossos dados também traduzem isto - há uma grande quantidade de pessoas que procuram informação, programas informativos”, explica Patrícia Pascoal ao Polígrafo.

Patrícia Pascoal enaltece a forma “democrática” como atualmente se acede à informação, mas alerta para os riscos que podem existir na internet. As fake news, as informações erradas ou desatualizadas e os conteúdos promocionais podem ser um problema para quem procura esclarecimentos sobre saúde sexual. “Neste momento a grande dificuldade é saber selecionar o que é uma fonte fidedigna”, alerta a psicoterapeuta.

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Fonte: Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica

“Acho que o grande desafio passa, em relação às populações mais jovens, por saber onde está a informação credível. Porque, muitas vezes, a informação credível é quase como um presente que está embrulhado em papel de jornal, enquanto a menos credível surge num papel de embrulho muito mais reluzente. Chama muito mais a atenção, com uma linguagem muito menos rigorosa, muito mais populista, sem assentar em dados credíveis e estudos atualizados.”

As fake news, as informações erradas ou desatualizadas e os conteúdos promocionais podem ser um problema para quem procura esclarecimentos sobre saúde sexual. “Neste momento a grande dificuldade é saber selecionar o que é uma fonte fidedigna”, alerta a psicoterapeuta.

A SPSC considera que “o acesso à informação de qualidade é um direito” e, por isso, aconselha os internautas a optar pelas informações publicadas nos sites oficiais de organizações credíveis. Alerta ainda que além das fake news - criadas com o objetivo de propagar informações falsas - há também “objetivos comerciais” e “personalidades que querem aparecer”, dois fatores que podem levar à divulgação de informações imprecisas ou desatualizadas.

Além do acesso à informação, os participantes do questionário realizado pela SPSC em colaboração com a Universidade Lusófona identificaram como um dos principais temas a importância dos meios digitais na democratização do acesso a conteúdos sexuais. “Hoje em dia, qualquer pessoa - homem, mulher, transsexual, não binária - acede e procura os tipos de conteúdos que a excitam e que lhe interessam”, sublinha Patrícia Pascoal, acrescentando que a internet possibilita um anonimato que retira o estigma e a vergonha associados à prática sexual.

Vantagens e riscos para a saúde sexual no online

Além da democratização da informação, os participantes do estudo identificaram como uma das principais atividades em contexto online o envolvimento “em novos relacionamentos através da internet” (15,1%) e a utilização de “sites, chats e/ou aplicações de encontros” (12,2%). O papel dos meios digitais na diminuição do isolamento social é também um dos temas mais abordados pelos participantes. Defendem que estes permitem aos utilizadores conhecer pessoas para fins eróticos, mas não só: também possibilitam a integração em grupos sociais que podem aumentar o sentimento de pertença e de comunidade e fazer diminuir o isolamento e a discriminação.

“Temos pessoas que salientam a hipótese de ter acesso a meios digitais para se unirem e terem visibilidade. Podemos falar das minorias sexuais, mas podemos falar também das mulheres vítimas de violência ou abuso sexual. Há a possibilidade de sair da ação local e de lutar por direitos”, explica Patrícia Pascoal.

Se, por um lado, a união de grupos de ativismo e o sentimento de pertença são vantagens, os meios online trazem também o reverso da moeda: “Da mesma forma que permitem denunciar e mostrar, também aceleram e maximizam os ataques.” O cyberbullying sexual, o discurso de ódio e as agressões motivadas por orientação, identidade ou comportamentos sexuais são um dos maiores problemas no que toca à saúde sexual online.

“A difusão de imagens e conteúdos gravados em contexto de intimidade éuma violação muito grande do direito de imagem e da privacidade das pessoas. E, claro, a exposição a muitas formas de abuso e de engodo através da sexualidade, em que as pessoas podem ser assediadas para contextos onde podem ser abusadas”, alerta a psicoterapeuta, referindo o risco acrescido de estes embustes envolverem menores de idade e pessoas vulneráveis.

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