A revista científica New England Journal of Medicine (NEJM) dedicou em agosto um editorial às alterações climáticas, sublinhando que os hospitais, mesmo esterilizados e com ar condicionado, não estão imunes ao “caos ambiental” que acontece no exterior. Proteger a saúde humana nos dias de hoje exige uma ação climática urgente e radical, defendeu aquela que é uma das mais prestigiadas publicações médicas do mundo. 

A mensagem tem vindo a ser repetida por ambientalistas e climatologistas — e ninguém esquece a imagem do secretário-Geral da ONU, António Guterres, com o mar pelos joelhos, publicada na capa da revista Time, em junho. O texto não traz efetivamente nada de novo. Mas serem clínicos a afirmá-lo pode vir a fazer toda a diferença. “Em diversos momentos, no passado, os médicos assumiram posição em questões de escala planetária e ajudaram a mudar o curso da História”, lembra James Dunk, investigador da Universidade de Sidney, citado na página The Conversation. A forma como as vozes da área da medicina foram decisivas para incentivar o desarmamento nuclear, nos anos 1960, é um dos melhores exemplos. 

Em plena Guerra Fria, a NEJM deu várias páginas aos “médicos pela responsabilidade social” — um grupo que defendia que a maior ameaça para a saúde não era a paragem cardíaca, mas uma guerra nuclear — e o debate entre a comunidade científica intensificou-se. Num dos textos, descreviam-se os efeitos de uma explosão de uma bomba de 20 megatoneladas sobre Boston: morte, ferimentos, estragos ecológicos e perturbações profundas nas estruturas sociais. James Dunk considera-o decisivo para a evolução de uma nova atitude: “Não obstante as ameaças para as outras espécies e os ecossistemas, os artigos enfatizavam os perigos para a saúde humana”, sublinha o historiador. 

Perigo cada vez mais próximo

O mesmo tem vindo a acontecer com as alterações climáticas. Os diagnósticos científicos divulgados pelas Nações Unidas sucedem-se, com alertas que, além de encurtarem os prazos de ação para desacelerar o aquecimento global e evitar os efeitos devastadores do degelo nos polos, mostram com cada vez maior nitidez os efeitos da crise climática sobre o bem-estar, a saúde e a própria vida humana. 

Um quarto das mortes prematuras e das doenças de todo o mundo estão relacionadas com a poluição e com os atentados ambientais provocados pelo Homem, afirmava o relatório sobre o ambiente mundial (GEO, na sigla inglesa) de 2019: doenças evitáveis, como diarreias ou parasitas associados a águas contaminadas, matam anualmente 1,4 milhões de pessoas; os químicos lançados ao mar provocam efeitos nefastos na saúde "potencialmente sobre várias gerações"; 3,2 mil milhões de pessoas vivem em terras degradadas por agricultura intensiva ou desflorestação. 

O documento foi revelado em janeiro e, menos de um depois, em agosto, os cientistas do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, da ONU (IPCC em inglês), lançavam um novo aviso: com o aumento da população, para manter as temperaturas globais a níveis seguros, abaixo dos 2ºc ou mesmo dos 1,5º estabelecidos pelo Acordo de Paris, o mundo terá de alterar a dieta e a forma como usa a terra. A produção de alimentos contribui significativamente para o aquecimento global, e as mudanças climáticas decorrentes estão a ameaçar a produção de alimentos — é preciso quebrar o ciclo, defenderam os cientistas, com o lançamento de um novo relatório, em Genebra. 

O sistema alimentar é responsável por 30% de todas as emissões de gases de efeito estufa (nomeadamente por causa do metano libertado pelo gado e nas lixeiras), bem como 80% da desflorestação global, pela necessidade de pastagens extensas para agropecuária. E isto ao mesmo tempo que, como explica o documento, citado pelo The Guardian, “as alterações climáticas estão a exacerbar a degradação da terra através do aumento da intensidade da chuva, inundações, frequência e severidade da seca, stresse térmico, vento, aumento do nível do mar e a ação das ondas”. 

O combate à pobreza e empoderamento das mulheres permitirá, a longo prazo, reduzir os efeitos da sobrepopulação. Mas isso não chega: urge impulsionar a mudança. “A minha esperança é que este relatório tenha algum impacto sobre a forma como consideramos a terra no contexto das mudanças climáticas e sobre as políticas que promoverão a gestão sustentável da terra e sistemas alimentares sustentáveis", afirmou Alisher Mirzabaev, coautor do relatório do IPCC. 

1 milhão de espécies em risco

O futuro da humanidade está igualmente ligado à biodiversidade, e as notícias também não são animadoras. Há um milhão de animais e plantas em risco de extinção nas próximas décadas, segundo o relatório da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistémicos (IPBES, na sigla inglesa), divulgado em maio. Para salvar estas espécies e proteger os ecossistemas terrestres e marítimos, há que tomar atitudes radicais e imediatas, alertava o documento, realizado por 145 cientistas e 310 colaboradores de 50 países, ao longo de três anos. 

montanhas

Os especialistas identificaram as cinco maiores ameaças: perda de habitat, exploração excessiva, alterações climáticas, poluição e ação de espécies invasoras. Cerca de 75% do ambiente terrestre e 66% do ambiente marítimo foram significativamente alterados pela ação humana, lê-se no documento, que refere também os efeitos da pesca: 33% dos recursos marinhos foram sobrepescados e 60% foram explorados no máximo da sua capacidade em 2015. Além disso, há dez vezes mais plástico nos oceanos do que em 1980 e as emissões de gases de efeito estufa duplicaram desde 1980, o que causou o aumento da temperatura global em pelo menos 0,7 º Celsius. 

A humanidade depende da biodiversidade, direta e também indiretamente: 10% dos insetos estão em perigo e a polinização é essencial para a agricultura, por exemplo. Proteger e recuperar os habitats e combater a caça e a pesca ilegais e tráfico de animais selvagens são, por isso, políticas essenciais. Mas é preciso também não esquecer as alterações climáticas e o combate à poluição: reduzir as emissões de gases com efeito estufa, substituindo os combustíveis fósseis por energia renovável e reduzindo as emissões originadas pela agricultura e processos industriais; travar a desflorestação e replantar espécies nativas. “Após este relatório histórico, ninguém poderá dizer que não sabia”, afirmou Azoulay. “Não podemos mais destruir a diversidade de vida. Esta é nossa responsabilidade com as gerações futuras”.

O dossier O Futuro do Planeta é uma parceria entre o Polígrafo e a Fundação Francisco Manuel dos Santos

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