Como sempre acontece nestas ocasiões, há números para todos os gostos, mas tudo indica que a manifestação de ontem levou mais de 10 mil agentes da autoridade às escadarias da Assembleia da República. Temia-se o pior, nomeadamente pelas alegadas ligações que o Movimento Zero, intrinsecamente ligado à iniciativa, terá a forças de extrema-direita.

O dispositivo de segurança montado pelas autoridades estava preparado para o pior mas a violência acabou por não surgir. Em vez disso, os descontentes optaram por promover momentos simbólicos - o maior deles terá acontecido quando os manifestantes entoaram o hino nacional de costas voltadas para o edifício do Parlamento, onde chegaram depois de uma marcha em passo lento que começou, debaixo de um céu negro, na Praça Marquês de Pombal. O Polígrafo esteve lá e, no intervalo de uma ou outra palavra de ordem mais vigorosa, procurou saber coisas simples: Quem são estas pessoas? O que as move? Que histórias têm para contar? Fiquem com as suas respostas - e com as caras que as ilustram.

Fotografia: António Pedro Santos

Edgar, Corpo Intervenção da PSP, aposentado, 62 anos

"Tem de se gostar e saber fazer"

"A minha história como polícia começou como uma brincadeira de crianças e acabei por gostar. A entrada na instituição foi uma oportunidade de arranjar um emprego melhor. Os meus estudos eram poucos, vim de uma família pobre. Foi uma forma de ter um emprego seguro, para além de gostar. Tem de se gostar e saber fazer."

Guido
Fotografia: António Pedro Santos

Guido, Agente principal da PSP, 46 anos

"Sempre tive a paixão pelo crime, pelo combate às injustiças"

"Estive em Lisboa durante um ano, na altura de 1999/2000 na esquadra da Praça da Alegria. Fiz sempre patrulha desde que estou em funções, desde há 20 anos. Estive cá em Lisboa, depois em Faro e agora estou em Tavira. Sempre tive a paixão pelo crime, pelo combate às injustiças, mas depois de chegar à polícia acabamos por ver que muitas das vezes as coisas não são assim. Há compadrios, entre outras coisas, que nos fazem deixar de gostar daquilo que nos trouxe aqui. Neste momento, sinto que isto não é profissão. Não acho que possamos ter alguma progressão na carreira e possibilidades de futuro. Os nossos ordenados não saem do mesmo valor há alguns anos. Temos de trabalhar noites, fins de semana, muitas vezes temos de estar ausentes da família. Têm de olhar para nós de outra forma. Somos o garante da segurança dos cidadãos."

"Há compadrios, entre outras coisas, que nos fazem deixar de gostar daquilo que nos trouxe aqui. Neste momento, sinto que isto não é profissão."

 

Fotografia: António Pedro Santos

Patrícia, Agente da PSP, 29 anos

"Fazemos a diferença"

"Tenho muito orgulho na farda que fiz e na profissão que tenho. Fazemos a diferença na sociedade. Uma sociedade sem regras e sem leis não funciona."

Fotografia: António Pedro Santos

Carlos, Cabo da GNR, 44 anos

"Um militar da GNR é como um médico de clínica geral"

"Não me arrependo de nada que tenha feito. Como certos colegas dizem e estou de acordo, um militar da GNR é como um médico de clínica geral - tem que perceber de tudo. E às vezes há coisas em que o “sabe tudo” ainda está para nascer, portanto é normal que haja coisas que passem ao lado. Mas conscientemente sempre tentei cumprir a missão geral da guarda que é servir o cidadão da melhor forma."

Fotografia: António Pedro Santos

José, Agente principal da PSP pré-aposentado, 60 anos

“Ó Gonçalves, olha que ele te vai limpar o pescoço!”

"Estava de serviço da uma às sete da manhã. Um cabo-verdiano chegou ao Cais do Sodré, estava com uma prostituta e convidou-a para ir para casa, só que não tinha dinheiro para pagar o táxi.  Disse que morava ali perto numa barraca e que tinha o dinheiro debaixo do colchão. Acompanhei-o. O meu colega ficou à entrada da porta. Por acaso aquilo não tinha luz. E o meu colega Ferreira é que me disse: “Ó Gonçalves, olha que ele te vai limpar o pescoço!” O homem tinha uma catana. Agarrei na pistola, não disparei, mas consegui dominá-lo."

"O homem tinha uma catana. Agarrei na pistola, não disparei, mas consegui dominá-lo"
Fotografia: António Pedro Santos

Paula, Agente principal da PSP, 49 anos

"Fomos apedrejados, nós e os carros"

"Na altura pertencia às brigadas anticrime de combate à droga. Fomos para o Bairro de São João de Deus no Porto e fizemos lá umas buscas. Detivemos alguns indivíduos de etnia cigana e quando estávamos a conduzi-los para a viatura, sempre a recuar, de costas para o carro, os ciganos tentaram tirar-nos um dos jovens das mãos e tive de sacar da arma e dar um tiro para o ar para os afastar. Fomos apedrejados, nós e os carros. Foi uma situação que me marcou, mas acabou tudo bem."

"Tive de sacar da arma e dar um tiro para o ar para os afastar [um grupo de ciganos]"
Fotografia: António Pedro Santos

Carlos, Agente principal de Investigação Criminal PSP, 44 anos

"Vi-me muito apertado"

Na execução de um mandado de detenção de um evadido da cadeia condenado por homicídio, descobrimos onde estava escondido. Entrei dentro da casa para o tentar capturar, só que fecharam a porta. Estava lá mais gente, fiquei sozinho. Estavam três pessoas: o evadido, o pai e um irmão. Tentaram tirar-me a arma e agrediram-me com uma foice, daquelas grandes. Tive que o deixar fugir. Vi-me muito apertado. Fiquei afónico.

"Tentaram tirar-me a arma e agrediram-me com uma foice, daquelas grandes."
Fotografia: António Pedro Santos

Manuel, Agente principal de Investigação Criminal, 51 anos

"Foi algo que me marcou para sempre"

"Participei na retirada de um menor de três anos de idade dos braços do pai. Encarei aquilo como uma injustiça social enorme. O miúdo estava a ser muito bem tratado pelo pai, havia amor e carinho de ambas as partes. Por questões de burocracias sociais, fui retirar o miúdo dos braços do pai para o trazer para uma instituição. Foi algo que me marcou para sempre."

Fotografia: António Pedro Santos

José, Agente Principal da PSP, 58 anos

"Se eu pudesse ir embora neste momento, ia"

"O meu sonho sempre foi ser polícia, ninguém da minha família é desta profissão. Quis ser polícia para melhorar e contribuir na segurança da sociedade. No entanto, atendendo às mentiras e à falta de competência dos nossos governantes, estou muito desiludido. Se eu pudesse ir embora neste momento, ia."

Fotografia: António Pedro Santos

José, Recursos Humanos da PSP, 51 anos

"Não somos tratados com dignidade"

"Se soubesse o que sei hoje, deveria certamente ter avaliado melhor as condições que existiam na altura e a evolução que isto poderia ter. Porque muitas das expectativas que tínhamos inicialmente acabaram por ficar frustradas. E todos nós abraçámos esta profissão e esta causa com o intuito de dar o melhor de nós em prol da sociedade. Hoje sentimos que não somos tratados com a dignidade e o respeito que merecemos. A nossa profissão é uma instituição com uma relevância social enorme e não está a ser tratada como tal. E eu reconheço que se calhar isso acontece porque apesar de não termos os meios e os recursos que seriam necessários, conseguimos com muita “carolice” atingir e superar os objetivos delineados. Mas apesar de tudo, voltaria a escolher esta profissão."

"A nossa profissão é uma instituição com uma relevância social enorme e não está a ser tratada como tal"
Fotografia: António Pedro Santos

Artur, Agente principal da PSP, 42 anos

"Não sinto a parte de cima da cabeça ainda hoje"

"Em 2014 sofri uma tentativa de homicídio e os indivíduos foram condenados a pena suspensa. Indemnizações nem vê-las. Atribuíram-me 26 mil euros mas não recebi um único cêntimo até agora. A própria polícia ainda me está a dever mais de 800 euros em contas de medicamentos, entre outras coisas. Não nos sentimos seguros nesta profissão. Não sinto a parte de cima da cabeça ainda hoje. Há pouco tempo fui sujeito a uma intervenção cirúrgica na qual foi preciso dar uma epidural nas costas e tiveram de alterar o modo de anestesia a aplicar, porque pura e simplesmente não sentia a agulha a entrar. Há zonas do corpo que ainda não sinto."

"Em 2014 sofri uma tentativa de homicídio e os indivíduos foram condenados a pena suspensa. Indemnizações nem vê-las. Atribuíram-me 26 mil euros mas não recebi um único cêntimo até agora."
Fotografia: António Pedro Santos

Joaquim, Pré-Reserva da GNR, 55 anos

"Temos salários de terceiro mundo"

"As nossas reivindicações são legítimas. Temos salários de terceiro mundo, as nossas expectativas são reduzidas todos os anos, os políticos não nos ligam, a tutela também não. Estamos aqui por nós, pelos nossos filhos e por todos os portugueses. Um dos pilares da democracia e da sociedade é a segurança. Se não houver segurança, o país pode descambar a qualquer momento. Procuramos salários dignos e condições de trabalho. Há falta de meios humanos e materiais e queremos que a tutela resolva de imediato."

"Se não houver segurança, o país pode descambar."
Fotografia: António Pedro Santos

Carlos, Agente principal da PSP, 45 anos

"Ser polícia é uma coisa que se cola à pele"

"O pior é sentirmos que estamos a trabalhar em prol da sociedade, e a própria sociedade - os tribunais e os políticos - não terem em consideração a nossa dedicação. Muitas das vezes abdicamos da nossa vida privada e de estar com a família para vestir a camisola porque isto de ser polícia é uma coisa que se cola à pele. Ser polícia é ser polícia - não é um emprego qualquer."

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