A ameaça já foi diversas vezes retratada no cinema, com maior ou menor rigor científico, e ligeiras diferenças na escala de dramatismo. Filmes como Impacto Profundo e Armageddon, ambos de 1998, são disso exemplo. Mas o risco de um asteroide gigantesco colidir com a Terra não é uma possibilidade do domínio da ficção científica do século passado. Existe e é bem real. Aconteceu há 66 milhões de anos, quando um corpo de mais de 10 quilómetros de diâmetro provocou um impacto tal que terá levado à extinção dos dinossauros, e os cientistas garantem que o desastre se irá repetir – a dúvida não é se, mas quando.

Conscientes do perigo, os cientistas investem numa monitorização dos céus cada vez mais rigorosa. Em outubro passado, a NASA tinha identificado 21 294 asteroides próximos da Terra, considerando 2023 “potencialmente perigosos”, por terem uma dimensão superior a 140 metros e se encontrarem a uma distância mínima de interseção orbital em relação ao nosso planeta de 19,5 distâncias lunares (7,5 milhões de quilómetros). “Os grandes asteroides estão essencialmente todos catalogados”, explica Teresa Seixas, professora do Departamento de Física e Astronomia da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e investigadora no Centro de Investigação da Terra e do Espaço da Universidade de Coimbra. O mapeamento está em atualização permanente e há uma observação constante das órbitas – qualquer alteração na rota far-se-á anunciar com anos de antecedência.  

Nem tudo é previsível 

A Agência Espacial Europeia (ESA) tem uma “Lista de Risco”, mas nenhum dos asteroides parece ser problemático a curto prazo, e a NASA já veio dizer que, pelo menos os próximos cem anos se anunciam calmos. O problema maior, alerta a especialista, é “a perigosidade dos asteroides não catalogados, com 20, 30 ou 50 metros”, ainda assim “capazes de destruir cidades como Lisboa, Londres ou Paris” e mais propícios a passarem despercebidos, sobretudo se vierem do lado do Sol. 

Foi o que aconteceu em 2013, em Cheliabinsk, na Rússia. “A ofuscação deste asteroide pela luz solar impediu a sua deteção antecipada”, explica a investigadora. O asteroide tinha 17 metros e viajava a 66 000 km/hora, tendo-se desintegrado à entrada na atmosfera, o que “evitou que as consequências não fossem mais sérias” (só duas pessoas terão ficado feridas com gravidade). Calcula-se que a explosão tenha libertado a energia de  500 quilotoneladas de TNT — uma enormidade, tendo em conta que a bomba nuclear lançada sobre Hiroshima libertou apenas 13 quilotoneladas

Os imprevistos acontecem, por mais precisa que seja a monitorização. Por isso, evitar a catástrofe pode vir a depender do sucesso de uma outra grande aposta, a estratégia desenvolvida pela NASA e pela ESA no contexto da missão AIDA: a primeira grande missão de defesa planetária. 

Desviar asteroides no espaço

No filme Armageddon, os astronautas fazem explodir um bomba nuclear no asteroide ameaçador, para o impedir de colidir com a Terra, num enredo marcado pela corrida contra o tempo. Fora do ecrã, a realidade é bastante diferente. A missão AIDA – que irá testar a eficácia do impacto cinético na deflexão de asteroides, em contexto real – vai desenrolar-se por fases, ao longo de vários anos. Além disso, tem como alvo um sistema de asteroides binário (em que um orbita o outro), chamado 65803 Didymos, que não representa qualquer risco para o planeta Terra.

A NASA prevê lançar em 2021 a sonda Dart (dardo em português), e o impacto deverá acontecer em 2022. Depois, em 2024, a ESA lançará uma outra sonda, chamada HERA, que durante três anos orbitará o sistema de asteroides, permitindo assim avaliar os resultados obtidos com a experiência. 

30 de junho: Dia Mundial do Asteroide 

Teresa Seixas é a coordenadora do Dia do Asteroide em Portugal, comemorado a 30 de junho, com conferências e outras iniciativas de divulgação científica. Além da defesa planetária, há outros aspetos relevantes relacionados com o tema, nomeadamente ligados à exploração e mineração. E a informação contida nos asteroides pode ajudar a responder às grandes perguntas relacionadas com a criação do universo e a origem da vida. Daí a importância de missões como a Hayabusa2, da Agência Espacial Japonesa (JAXA), da qual faz parte a astrofísica portuguesa Zita Martins. “Pela primeira vez, os cientistas vão ter acesso a amostras recolhidas diretamente do asteroide”, explica Teresa Seixas. O dia é uma ocasião para falar desse projeto. 

A data escolhida para comemorar o Dia Mundial do Asteroide assinala o dia em que, no ano de 1908, um enorme asteroide caiu em Tunguska, uma região da Sibéria, no então Império Russo, com um impacto tão potente que provocou a destruição de dois mil quilómetros quadrados de floresta. A iniciativa nasceu em 2014 pela mão de um grupo de cientistas empenhado em alertar para os perigos da colisão de um asteroide na Terra e sublinhar a importância de investir em estratégias de defesa planetária. Um dos criadores, talvez o mais famoso embaixador da causa, é um astrofísico britânico com a curiosa particularidade de ter demorado 30 anos a terminar o doutoramento – Brian May estava demasiado ocupado com a sua  carreira musical como guitarrista dos Queen. 

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