Donald Trump garante que inventou a expressão fake news, a verdade é que apenas a massificou. De acordo com o documentário “Operation Infektion”, produzido pelo New York Times (NYT) e composto por três partes, a origem das notícias falsas tem décadas e vem da União Soviética.

Primeira parte: Donald Trump being Donald Trump

O primeiro episódio do documentário “Operation Infektion”, abre com uma entrevista ao presidente dos EUA. Trump faz uma apologia de si mesmo e chama a si a autoria da expressão “fake news”. “Foi uma das minhas melhores saídas”, diz. Na verdade não é bem assim. Se é certo que foi ele que a popularizou através dos seus tweets profusos (e frequentemente inventivos), também é verdadeiro que a expressão já é usada há décadas pelos serviços secretos russos.

Na sua acepção original soviética, fake news é uma espécie de vírus criado para contaminar e intoxicar a opinião pública, disseminando-se lentamente à medida que difunde informações erradas. O objectivo é fácil de adivinhar:  enfraquecer o “inimigo”, expondo a população a desinformação pura.

fake news russia

O título da investigação do NYT está diretamente relacionado com o contexto em que foi criada a primeira fake news à escala global: que o vírus da Sida tinha sido criado nos Estados Unidos Estávamos em Julho de 1983. A "notícia", de autor anónimo, foi cirurgicamente plantada no jornal "The Patriot" e dizia, logo a abrir: “A SIDA, a fatal e misteriosa doença que tem destroçado os EUA, pode ser o resultado de experiências do Pentágono para desenvolver novas e perigosas armas biológicas”. Mais:" alguns especialistas americanos pensam que o Paquistão pode tornar-se no próximo campo de testes para estas experiências”. A finalidade era óbvia: causar alarme social. Dois anos depois, esta falsa notícia começou a ser espalhada por todo o continente africano. Para validarem esta invenção, os serviços russos até encontraram dois "cientistas", que diziam ter provas de que o vírus fora uma criação laboratorial da CIA, a secreta americana. Porém, foi só em 1987 a Sida ganhou projeção global, através da voz do conhecido pivot Dan Rather, que deu a cara pela notícia nos ecrãs da cadeia de televisão CBS.

No documentário, a forma como funciona o mecanismo de criação e difusão das fake news é descrita pelos próprios ex-agentes russos que integraram um dos departamentos mais importantes e com mais recursos financeiros de toda a estrutura do KGB, os serviços secretos russos: o departamento de desinformação. Mas o que distinguia este departamento do de propaganda? O narrador do documentário explica: enquanto esta última visa “apenas” levar as pessoas a acreditar em determinada coisa, a desinformação faz o contrário: mente. É um agente do KGB que o reconhece: “no código de espionagem russo, a desinformação é uma informação deliberadamente distorcida, que é largada secretamente no circuito da comunicação com o objectivo de enganar.” Adam B. Ellick, jornalista do NYT e co-autor do documentário, dá exemplos de outras fake news que correram o mundo:

  • Que a CIA foi a responsável pelo assassinato de JFK
  • Que também foi a secreta norte-americana que tentou matar o Papa João Paulo II
  • Que norte-americanos ricos mandavam raptar crianças pobres, na América Latina, para lhes retirar os órgãos para transplantes.

Todos estes casos foram divulgados na imprensa internacional. E todos seguiram (e ainda seguem, como se explica mais à frente) uma estratégia calculada previamente pelos serviços soviéticos. Como num manual de instruções.

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 Segunda parte: os sete mandamentos

Se antes da internet e das redes sociais a contaminação da opinião pública já era eficaz, depois torna-se mais potente e rápida. Os acontecimentos são cozinhados pelos mesmos estrategas e com as mesmas técnicas de meados do séc. XX. No segundo vídeo deste documentário, dá-se como exemplo um acontecimento relativamente recente:  uma dupla manifestação em Houston, a 21 de Maio de 2016, frente a uma mesquita. As imagens mostram de uma comunidade local dividida: uns gritam contra a “Muçulmanização do Texas”, outros defendem a integração, numa manifestação chamada “Muçulmanos do Texas Unidos”. Porém, as frentes em oposição não chegam sequer a dar-se conta de que ambas as convocatórias (com os nomes acima referidos), feitas via Facebook, foram engendradas a milhares de quilómetros dali: em São Petersburgo, na Investigation Research Agency.  O que esta agência de informação russa pretendeu (e conseguiu) foi provocar discórdia e tensão social, cumprindo assim o objectivo descrito no primeiro dos Sete Mandamentos das Fake News, que por aqueles tempos faziam escola no KGB:

1 – Procurar as divisões sociais onde elas possam existir.

2 - Inventar uma grande mentira.

3 – Dar-lhe um elemento de verdade, de forma a que a história se torne verosímil.

4 – Limpar as mãos do assunto.

5 - Usar a figura do idiota útil.

6 – Negar sempre.

7 – Jogar no longo prazo.

O advento da internet e das redes sociais contribuiu para amplificar o impacto de uma informação falsa. No documentário são dados exemplos de casos recentes em que isso sucedeu:

  • A existência de uma petição para devolver o Alasca à Rússia.
  • O alerta da Rainha Isabel II para o início da terceira guerra mundial em 2017.
  • A notícia segundo a qual os vírus Zika e Ébola foram criados pela CIA.
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Terceira parte: a guerra mundial contra a verdade

De um lado, a desinformação russa. Do outro, as acusações de “fake news” de Donald Trump. Neste lamaçal informativo, onde fica a verdade e a quem devemos pedir responsabilidades? “É difícil contrariar a desinformação. Especialmente se não for levada a sério”, defende-se no documentário do “The New York Times”, numa clara referência a Donald Trump. O presidente Ronald Reagan acreditava que a verdade era a solução para enfrentar o “inimigo”. Para isso chegou a criar os “esquadrões da verdade”. Mas o tempo provou que a melhor defesa não era essa. Porque há mentiras que sobrevivem anos sem fim, por efeito da repetição. É o princípio do 7º mandamento: jogar a longo prazo. As fake news transformam-se lentamente verdades, entrando em letras de música pop ou em discursos mais ou menos bem intencionados.

No final do documentário aparece, inesperadamente, o repórter que o co-assina: Adam B. Ellick, que faz uma apologia do combate à desinformação. Ellick sabe do que fala, uma vez ele mesmo já foi vítima de fake news enquanto repórter em território de guerra. Entre outras coisas, foi acusado de ser agente do CIA, foi dado como morto no Paquistão (há imagens manipuladas do próprio totalmente ensanguentado), onde também foi suspeito de ser um bombista-suicida. Mas ele é apenas uma peça num jornal que luta contra as fake news, num combate em que, defende-se no documentário, há muito por fazer, sob pena de o negócio da desinformação, com a ajuda das novas novas tecnologias, poder acabar com a democracia tal qual a conhecemos.

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