A mensagem foi partilhada durante um direto no Facebook feito por um naturopata de Porto de Mós que garante ter solução para a pandemia de Covid-19: “Quem sofrer desta epidemia, quem tiver um problema destes, tem aqui a solução. É eficaz, está mais do que comprovada. As pessoas começam o tratamento, todos os dias estão a fazê-lo, após três ou quatro dias não se passa nada”.

No vídeo, que já foi visto mais de 13 mil vezes, Jorge Fidalgo não apresenta grandes detalhes sobre a composição do suposto fármaco, que vende através da Internet. Diz que o objetivo do vídeo é falar “do frasquinho e do conta-gotas” e assegura que os sintomas desaparecem após dois ou três dias de toma. “Após algum tempo, o teste [para a Covid-19] dá negativo”, garante, aproveitando o momento para deixar um apelo: “Estou aqui mais uma vez a pedir que partilhem, porque isto tem de ser partilhado, mesmo muito”.

covid

Ao Polígrafo, o profissional de naturopatia explica apenas que o tratamento é “à base de umas gotas manipuladas”, e que, até agora, “mais de 500 pessoas infetadas fizeram o tratamento, todas recuperaram a 100%, sem mazelas”. “Muitas delas diminuíram a sintomatologia em apenas alguns dias, mesmo sintomas mais graves”, garante. Jorge Fidalgo diz ainda que o alegado medicamento não foi descoberto recentemente, mas é “um tratamento pulmonar já antigo, que foi testado para se ver até que ponto reagia à Covid-19”.

Jorge Fidalgo assegura que o alegado medicamento não foi descoberto recentemente, mas é “um tratamento pulmonar já antigo, que foi testado para se ver até que ponto reagia à Covid-19”.

Nas declarações ao Polígrafo, e ao contrário daquilo que dá a entender no vídeo que partilhou no Facebook, o terapeuta ressalva que “nunca se falou em cura, mas sim num tratamento que se tem mostrado muito positivo no combate do quadro de sintomas causados pelo vírus”.

Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, defende que “como não se sabe de que substância se trata, é difícil avaliar se tem algum efeito ou não”. Além disso, continua, “a ciência funciona com evidência, tem de haver um estudo” que demonstre que qualquer intervenção melhora o estado do paciente, “ou porque reduz o tempo de internamento, ou porque reduz a duração dos sintomas ou porque cura, no limite, a doença”. Neste caso, “não temos evidência de nada disso”, concluiu.

Confrontado com a falta de estudos que evidenciem a eficácia da solução líquida em causa, Jorge Fidalgo assegura que contactou “todos os responsáveis de saúde em Portugal para apresentar o produto”, tendo sido “completamente ignorado”. A Autoridade Nacional do Medicamento desmente esta versão e, ao Polígrafo, garantiu que o naturopata “não realizou contacto com o Infarmed”.

A Autoridade Nacional do Medicamento garante ao Polígrafo que o naturopata “não realizou contacto com o Infarmed”.

O organismo alerta, ainda, que “para tratamento de uma infeção viral como a Covid-19, os doentes devem ser acompanhados por equipas clínicas que asseguram o tratamento, se necessário, com medicamentos que provaram a sua qualidade, segurança e eficácia”. “Não devem ser utilizados como medicamentos produtos que não o sejam, pelo risco que podem colocar à saúde pública”, explica o Infarmed.

covid
No seu site, Jorge Fidalgo apresenta terapias para uma vasta gama de doenças

Jorge Fidalgo afiança que “mais de 500 pessoas infetadas fizeram o tratamento e todas recuperaram a 100%, sem mazelas”. Mas o presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, Ricardo Mexia, aponta um caminho que explica o aparente sucesso, embora enganador, do fármaco: “No caso da Covid-19, 90% dos casos evoluem de forma benigna, faça-se o que se fizer. Tome-se ou não medicação, a doença é auto-limitada”. O médico de saúde pública acrescenta ainda que “o problema são os outros 10%, com quadros mais graves e que podem culminar na morte” do paciente.

“Espero que as autoridades monitorizem a situação e a levem até às últimas consequências, porque é inaceitável que se explore a fragilidade das pessoas para as burlar. Atendendo aos dados que temos, não me parece que possa ser outra situação”, conclui Ricardo Mexia.

A Inspeção Geral das Atividades em Saúde (IGAS) confirmou ao Polígrafo que Jorge Fidalgo já foi alvo de duas queixas, durante este mês de julho, visto que os tratamentos que vende podem não só constituir uma burla, como representarem uma ameaça para a saúde daqueles que se submetem às terapias. A IGAS informa que “considerando o teor das denúncias, foi determinada a abertura de ação inspetiva de fiscalização” e que as queixas foram “remetidas ao Ministério Público”.

“Espero que as autoridades monitorizem a situação e a levem até às últimas consequências, porque é inaceitável que se explore a fragilidade das pessoas para as burlar. Atendendo aos dados que temos, não me parece que possa ser outra situação”, diz Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública.

A primeira queixa apresentada, a 17 de julho, denuncia que Jorge Fidalgo administrou um tratamento a um doente oncológico que deixou o paciente em “pleno estado de agonia, completamente vegetal e em completo estado de intoxicação”. A segunda denúncia, datada de 21 de julho, está relacionada com o facto de o naturopata promover curas enganosas para o cancro e para a Covid-19, aparentemente de uma forma impune, nas redes sociais.

Notificações

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.
International Fact-Checking Network