Sofia Rosas tem 27 anos, Nuno Grilo tem 35. Separam-nos quase uma década, um fuso horário desalinhado e umas centenas de quilómetros, mas Sofia e Nuno têm em comum a vocação e a profissão - escolhas que os levaram, ainda jovens, a sair do país que os viu crescer. Sem família ou amigos na bagagem, enfrentaram sozinhos um território completamente novo. Sofia, a trabalhar em Londres depois de uma passagem pela Escócia, chegou a exercer durante seis meses no Serviço Nacional de Saúde (SNS), mas Nuno seguiu para a Suíça logo depois de ter terminado a licenciatura. O que leva, afinal, médicos recém-licenciados a deixar o país de origem?

A cerca de mil quilómetros de Sofia, no Hospital Universitário de Lausanne, Nuno é responsável pela unidade de Neurourologia e pela consulta de Urologia funcional e Incontinência - encargos e horários avultados, que quase o deixaram à margem desta entrevista. Deixou o país para “partir para uma aventura no estrangeiro” e pelo “desejo de lutar pela especialidade que estava certo de querer seguir (urologia)”. Em Portugal, o médico estaria “à mercê da sorte”, quer na prova da seriação, quer no mapa de vagas.

“Pareceu-me uma melhor opção na altura partir rumo à Suíça. Mesmo sem certezas de que iria fazer a especialidade desejada, estava convencido de que, lutando, iria acabar por conseguir. Ao contrário de Portugal, as candidaturas a qualquer especialidade funcionam por entrevista e as decisões são baseadas no currículo do médico e recomendações de antigos chefes, o que me pareceu mais certo do que o concurso realizado em Portugal. Para além disso, a remuneração durante o internato é claramente superior à portuguesa”, destaca Nuno.

A degradação do SNS, a falta de vagas para especialidade e a incerteza em relação ao que o futuro reserva levam, todos os anos, centenas de médicos a considerar a emigração. O descontentamento destes profissionais reflete-se nos números: só entre janeiro e agosto de 2019, chegaram à Ordem dos Médicos 386 pedidos de certificados para exercer no estrangeiro.

Sofia trabalha nos Cuidados Intensivos Neurocríticos, no Hospital Nacional de Neurologia e Neurocirurgia, mas ainda hoje recorda os meses em que trabalhou no SNS e as razões que a motivaram a emigrar. “Senti que os internos da especialidade são muitas vezes 'lançados aos lobos', com expectativas de que trabalhem mais com menos foco na formação”, confessa. “Percebi que, infelizmente, o SNS não estava a ser valorizado e a trajetória parecia ser apenas para piorar, pelo que decidi emigrar para o Reino Unido, onde o National Health Service (NHS) é muito mais acarinhado pela população e os seus profissionais mais protegidos”.

A degradação do SNS, a falta de vagas para especialidade e a incerteza em relação ao que o futuro reserva levam, todos os anos, centenas de médicos a considerar a emigração. O descontentamento destes profissionais reflete-se nos números: só entre janeiro e agosto de 2019, chegaram à Ordem dos Médicos 386 pedidos de certificados para exercer no estrangeiro. Em finais de 2019, o jornal "Expresso"informou que os pedidos destes certificados deveriam ficar perto de 400 - um número que não incluía o Norte do país -, pouco menos do que o recorde de 475 registado em 2015. Os dados não chegaram a ser atualizados.

Voltar é opção, mas só depois de uma reavaliação das condições

Sem qualquer experiência de trabalho em Portugal, Nuno não põe de parte a hipótese de voltar a território nacional, “principalmente para poder estar mais perto da família e dos amigos”. Nesse sentido, antecipa: “Talvez no futuro possa encontrar condições atrativas para poder desenvolver em Portugal um projeto na minha área de diferenciação”.

Por seu, Sofia confessa que não se imagina a regressar a Portugal para trabalhar no SNS “enquanto não houver uma verdadeira priorização na agenda política que permita um melhor financiamento e uma melhor gestão dos recursos”.

Não é fácil ser-se médico no SNS e, enquanto não houver um reconhecimento do desgaste associado à profissão, bem como uma oportunidade de progressão real na carreira que estimule os profissionais a investir na sua formação e lhes permita ter tempo dedicado e financiamento para a sua aprendizagem, não me imagino a regressar”, acrescenta a médica.

Em Portugal, tal como o Polígrafo já verificou, os salários de um médico de clínica geral começam nos 1.394,64 euros brutos, em regime de tempo completo (35h/semana), e podem chegar aos 2.982,98 euros brutos por mês, em caso de dedicação exclusiva (42h/semana). Noutros países, os valores podem atingir mais do que o dobro e as regalias podem incluir uma supressão de despesas para os profissionais.

O que é que outros países europeus têm para oferecer aos médicos portugueses?

O Polígrafo analisou propostas de emprego, disponíveis na Bolsa de Emprego da OM, para médicos de clínica geral em diferentes países da europa. E comparou-as com o panorama nacional. Países como a França, Suíça, Itália, Bélgica e Reino Unido são os principais destinos da emigração médica, mas as oportunidades de emprego chegam até da Arábia Saudita.

Entre as regalias oferecidas aos profissionais estão o direito a consultório próprio, a oferta de habitação permanente ou por um período determinado, férias avultadas e até refeições incluídas. Os salários para médicos de clínica geral e familiar, apenas no serviço público, podem atingir o triplo do de um profissional português do mesmo grau a exercer no SNS. Em França, por exemplo, a oferta inclui uma retribuição, em início de atividade, de 3.000 euros líquidos mensais. No Reino Unido, o Nacional Health Service oferece valores que podem começar nos 4.600 euros e atingir os 7.450 euros por mês.

Os salários para médicos de clínica geral e familiar, apenas no serviço público, podem atingir o triplo do de um profissional português do mesmo grau a exercer no SNS.

Dados da OCDE mostram que a remuneração dos médicos tem vindo a aumentar desde 2010, mas em taxas diferentes entre os países e entre clínicos gerais e especialistas. A título de exemplo, o Governo da Hungria, para reduzir a escassez e a emigração de médicos, aumentou substancialmente a sua remuneração desde 2010. O rendimento dos clínicos gerais na Hungria subiu cerca de 80% entre 2010 e 2017. Estes aumentos salariais começaram a ter um impacto mensurável na intenção dos médicos húngaros de deixarem o país: entre 2017 e 2018, o número de médicos que pedem atestados de trabalho estrangeiros diminuiu mais de 10%.

Contudo, Portugal é o único país na tabela em que o cenário não é de avanço. Entre 2010 e 2017, os médicos portugueses tiveram uma quebra da sua remuneração: são menos 1,3% na Medicina Geral e menos 0,9% nas Especialidades.

Portugal é o terceiro país da União Europeia com mais médicos por 100 mil habitantes

Apesar das ofertas, dos níveis e das estruturas de remuneração - fatores de incentivo e atração no que diz respeito à emigração -, ainda há quem tente contrariar as estatísticas. Portugal é o terceiro país da União Europeia com mais médicos por 100 mil habitantes (515, face à média europeia de 378), de acordo com o “Retrato de Portugal na Europa - 2020” publicado pela Pordata.

Filipe Cabral é médico em início de carreira. Desde 2018 que trabalha na Unidade Saúde Familiar do Marco, mas só no próximo ano obtém o grau de especialista em Medicina Geral e Familiar. Sair de Portugal não é opção, pelo menos por agora. “O amor pelo país e a valorização pessoal da proximidade familiar e do círculo de amigos falam mais alto”, confessa Filipe. Ainda assim, não esconde que existem “inúmeras razões” que o fazem ponderar a emigração.

“A carga burocrática a que os profissionais de saúde estão sujeitos é enorme. Exemplo disso é a atribuição da responsabilidade de seguir diariamente todos os doentes positivos à Covid-19 e suspeitos por parte destes mesmos profissionais, o que levou (e continua a levar) a uma sobrecarga laboral e a uma subsequente incapacidade de resposta a outras situações clínicas no âmbito dos Cuidados de Saúde Primários”, sublinha o médico Filipe Cabral.

A “enorme carga horária a que a maioria dos internos estão sujeitos” e a “falta de valorização, investimento e respeito pelos profissionais de saúde” foram as principais falhas apontadas pelo médico. “A carga burocrática a que os profissionais de saúde estão sujeitos é enorme. Exemplo disso é a atribuição da responsabilidade de seguir diariamente todos os doentes positivos à Covid-19 e suspeitos por parte destes mesmos profissionais, o que levou (e continua a levar) a uma sobrecarga laboral e a uma subsequente incapacidade de resposta a outras situações clínicas no âmbito dos Cuidados de Saúde Primários”, acrescenta.

Com vários colegas médicos emigrados, Filipe afirma que “a formação portuguesa é, indiscutivelmente, uma das melhores da Europa”. Ainda assim, há falhas a apontar: “O processo de seleção de vagas para o internato de especialidade é um pouco obsoleto - embora tenha sido mudada a prova de acesso, não mudaram a metodologia. Além disso, o numerus clausus das faculdades de Medicina é manifestamente superior ao número de vagas para a especialidade, o que leva a que o número de médicos indiferenciados aumente e, portanto, a emigração seja, cada vez mais, uma opção, a par do exercício da função de forma indiferenciada (sem especialidade)”, assume.

Pico de profissionais estrangeiros a trabalhar em Portugal

A par com a subida do número de médicos nacionais emigrados está o número de profissionais estrangeiros registados em território nacional, que atingiu em 2019 o valor mais elevado da última década - 4192, mais 9,1% face a 2009, revelam dados da OM divulgados pela Agência Lusa.

Em valores globais verificou-se um ligeiro aumento do número de médicos estrangeiros em trabalho no Ministério da Saúde, entre 2017 e 2018, de 1.828 para 1.834. Dados da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) indicam que a maioria (728) trabalha em hospitais, 509 nos cuidados de saúde primários e 30 na área de Saúde Pública.

A maioria destes profissionais chegam de Espanha (1.650), do Brasil (790), da Ucrânia (213), da Itália (197), de Cuba (160) e da Alemanha (148) e representam cerca de 7% do total de médicos a exercer em Portugal, que totalizavam 56.200 em 2019.

© Agência Lusa / Mário Cruz

Implicações da pandemia na formação de médicos

O alerta para a degradação do SNS e dos seus trabalhadores aumentou durante a pandemia, com atenção redobrada para profissionais que ainda estão em formação. Em comunicado, o bastonário da OM explica que “a formação dos estudantes de Medicina é crucial e decisiva para a qualidade do sistema de Saúde no médio e longo prazo, pelo que condicionar, para lá do razoável, o contacto prático com os doentes pode ter efeitos muito nefastos para os futuros médicos e, sobretudo, para os doentes”.

“Mais, a atual situação pandémica tem levado a que a Covid-19 crie uma pressão e disrupção muito grandes no SNS, pelo que, com o devido enquadramento, a presença de estudantes de Medicina pode trazer vantagens aos hospitais. Estamos também perante uma oportunidade única de aprendizagem para futuras pandemias que assolem o mundo, que será irresponsável desperdiçar”, salienta Miguel Guimarães.

Entrevistado pelo Polígrafo, Agostinho Alves, estudante do 3º ano do Mestrado Integrado em Medicina no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, afirma que “conhecer uma realidade diferente, o fator financeiro e a valorização do trabalho” são fatores determinantes para ponderar um futuro fora do seu país. Quanto à possibilidade de formação fora de Portugal, Agostinho destaca que “o número elevado de indiferenciados, consequência do reduzido número de vagas de acesso à especialidade”, pode ser fulcral para se “aventurar por terras estrangeiras”, caso não consiga uma vaga.

Quanto à possibilidade de formação fora de Portugal, o estudante Agostinho Alves destaca que “o número elevado de indiferenciados, consequência do reduzido número de vagas de acesso à especialidade”, pode ser fulcral para se “aventurar por terras estrangeiras”, caso não consiga uma vaga.

“A valorização por parte do SNS prende-se, mais do que com poder aceder a uma especialidade, com um aumento de salários dos internos, por exemplo, com a consciencialização dos horários laborais e com termos um serviço que não depreende que o espírito jovial de um interno se reflete numa capacidade de trabalho ilimitada”, considera.

Quanto à implicação do ensino online na formação dos médicos, Agostinho diz que “durante a pandemia, todo o processo de aulas online ficou aquém do esperado. Vimos aulas reduzidas a apresentações e prática absolutamente nenhuma, o que veio impossibilitar um ensino normal”. No entanto, ressalva que nesta fase vê que “as coisas estão diferentes. Com as devidas medidas de segurança, somos capazes de ir na mesma ao hospital, contactar com os doentes e aprender, o que se tem refletido numa notória evolução do meu conhecimento médico”.

O ano de 2019 foi o que teve um menor registo de cidadãos emigrados desde 2014, ano recorde de emigração. Contudo, no caso dos médicos a situação tende a ser contrária. Não há ainda dados que possam prever de que forma é que a pandemia vai influenciar o nível de emigração de médicos nos próximos anos. Ainda assim, as mais recentes reivindicações dos profissionais alertam para um possível agravamento destes números, com mais médicos a fugir à realidade nacional.

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