O dia 8 de novembro foi especialmente agitado no Twitter por causa da libertação do ex-presidente Lula, após decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) contra a prisão depois de condenação em segunda instância. Apoiantes e opositores do presidente não falavam de outra coisa nas redes.

Opositores agitavam as tags #STFVergonhaNacional, #STFEscritorioDoCrime, #LulaPreso, #PrisaoEm2InstanciaSim, chamavam para uma manifestação no dia seguinte – #Dia9NasRuas – e pediam a aprovação da PEC 410 para revogar a decisão da corte – #PEC410ja. Já os apoiantes do ex-presidente postavam as tags #LulaLivre, #LulaInocente, #JustiçaParaLula.

Os dois lados disputavam as posições mais altas nos Trending Topics, assuntos mais comentados do dia no Twitter, com a intenção de pautar o debate público.

O perfil @Sah_avelar participou ferrenhamente nesse embate no lado contrário ao de Lula. A conta fez 870 publicações no dia 8. Uma média de 36 publicações por hora, uma a cada minuto e meio. De todas essas publicações, 824 (95%) estavam acompanhadas de alguma hashtag crítica à decisão do STF e à libertação de Lula, ajudando a levar a temática para os Trending Topics.

Durante as queimadas na Amazônia em meados de agosto, @Sah_avelar foi uma das mais ativas na defesa do ministro Ricardo Salles e contra organizações não governamentais. Como mostrou uma reportagem da Agência Pública, o perfil fez 417 publicações entre os dias 21 e 22 de agosto com a hashtag #AmazoniaSemONGs e 157 com a #SomosTodosRicardoSalles. Todas as postagens eram acompanhadas de um texto, muitas vezes sem vínculo com as tags, e o horário da publicação – 3 horas adiantado em relação ao fuso de Brasília.

A atividade do perfil – alta frequência das publicações, sem pausas, texto padronizado acompanhado de hashtags e links – encaixa-se nos critérios para identificação de perfis automatizados, descritos por Márcio Moretto Ribeiro, coordenador do Monitor do Debate Político no Meio Digital. “Produz muito, com hashtags não estão necessariamente conectadas com o conteúdo produzido.”

Dessa forma, ainda em agosto, a reportagem da Pública identificou o perfil como um robô destinado a levantar pautas a favor do governo e denunciou a conta ao Twitter, que afirmou que tomaria as providências. Apesar disso, @Sah_Avelar continuava ativa até o início de dezembro, quando foi suspensa pela plataforma.

Máquina de tuitar

O perfil @Sah_Avelar foi criado em setembro de 2009, segue 4,2 mil contas e tem 2,7 mil seguidores. A foto de perfil era de uma jovem vestindo uma camisa verde e amarela. A descrição resumia-se a uma fileira de emojis de coração com as cores da bandeira.

A foto de capa era a imagem de uma multidão com um filtro esverdeado e o título “Conservative Core”, ou “Núcleo Conservador”, em tradução livre. Na descrição, um link direciona para um canal de YouTube com o mesmo nome.

Nos últimos dez meses, @Sah_Avelar fez 65 mil Tweets. Toda a atividade anterior a isso foi excluída. A primeira publicação disponível é do dia 19 de fevereiro, mas até meados de março não há registos de hashtags publicadas pela conta ou de atividade atípica, sendo que a média de publicações não passava de cinco por dia.

Foi só em 19 de março que a conta publicou a sua primeira tag: #BolsonaroOrgulhaOBrasil. Uma única publicação. Na época, o perfil estava focado em responder a tweets de políticos e famosos demonstrando a sua opinião: elogios aos alinhados com a direita e rejeição aos de esquerda. A partir de 7 de junho, porém, a atividade mudou drasticamente. @Sah_Avelar continuava a apoiar pautas pró-Bolsonaro e de direita, mas numa escala muito maior. Com publicações a cada 5 minutos, o perfil criou a tag #CongressoSemRecesso.

Além da alta frequência, as publicações com a tag começavam com um número que corresponde a um horário, três horas adiantado em relação ao de Brasília, e com a palavra “urgente”. Também acompanhavam um link para o canal “Conservative Core” no YouTube. Muitas vezes o próprio texto das postagens era idêntico. Sah Avelar publicou 172 vezes o texto “urgente – joice faz cena e chorando envia recado a bolsonaro”, direcionando para o vídeo com o mesmo título no “Conservative Core”. Outros 30 textos foram tuitados mais de 100 vezes, com diferentes hashtags, representando 36% do total de publicações feitas pelo perfil nesse período.

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Esse passou a ser, então, o padrão de publicação do perfil @Sah_Avelar. Do dia 5 de novembro ao dia 1 de dezembro de 2019, período monitorizado pela reportagem, a conta publicou 9.949 tweet. Uma média de 368 publicações por dia. Quinze tweet por hora. Um a cada 4 minutos.

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Robô-sobe-tag

Além de evidenciar automatização, o padrão das publicações de @Sah_Avelar indica a intenção do perfil: subir hashtags ligadas às pautas de direita. De todas as postagens feitas em novembro, 9.445 (95%) tinha alguma tag. Quase todas elas eram ligadas à pautas da direita.

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O professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Carlos d’Andréa acredita que, por serem manipuláveis, os Trending Topics não deveriam ser considerados medidores do debate. “Afirmar que um tema chegou aos Trending Topics hoje é dizer que um conjunto de bots foi direcionado para alavancar aquilo. Não é termômetro nenhum de uma opinião pública em relação àquele tema. É absolutamente artificial e manipulável.”

Rede núcleo conservador

Quase todas as publicações da @Sah_Avelar tinham hiperlinks, presentes em 9.520 dos 9.949 tweet (95%). Todos levavam a vídeos de YouTube do canal “Conservative Core”ou a outros canais de direita. O “Conservative Core”tem 17,3 mil inscritos, mais de 580 mil visualizações e declara-se um portal de notícias “para quem não quer perder tempo com besteira, e precisa saber o que é importante”. Ele publica de 8 a 20 vídeos por dia – segundo sua própria descrição. Nenhum dos seus vídeos do último mês teve mais de mil visualizações.

Os esforços do perfil @Sah_Avelar para divulgar o Conservative Core também se expressam nos textos dos tweets. Em quase 600 publicações o perfil pediu inscrições no canal. “Colabore com o seu RT [retuíte] e sua inscrição no canal, nos ajuda MUITO com a relevância e alcance!”

Além de @Sah_Avelar, o canal contava com pelo menos outros quatro perfis de Twitter dedicados a divulgar os seus vídeos na rede social. @CanalCNews – antes nomeado @sasa_news –, @MyaMyers, @tmr_kyle e @noMatte34020924 têm fotos de perfil e de capa idênticas associadas ao canal. O nome dos perfis também é igual, só muda a numeração: Sasa – Conservative Core 2, 3 e 4.

A dinâmica é conhecida como “botnet”, ou rede de robôs, quando perfis atuam de maneira sincronizada, com mesma atuação – um posta e outros retuitam, ou respondem, ou publicam em seguida algo parecido. “Essa estratégia é muito profissional e rende muito dinheiro em contratos de publicidade”, diz D’Andréa.

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Um entre milhares

O @Sah_Avelar era apenas um entre milhares de outros perfis automatizados no Twitter. A plataforma afirma que contas falsas ou de spam representam menos de 5% dos utilizadores ativos mensais – cerca de 16 milhões de contas. Investigadores, no entanto, estimam que a proporção seja muito maior.

Muitas dessas contas estão em conformidade com os termos de uso do Twitter, que admite a existência de robôs desde que sigam a sua política de automação. As regras gerais da plataforma resumem: “Não é permitido usar os serviços do Twitter com o intuito de amplificar ou suprimir informações artificialmente ou envolver-se em comportamento que manipule ou prejudique a experiência das pessoas no Twitter”.

Segundo a rede social, as contas que violarem essas regras podem ser punidas com diminuição de visualização, sendo removidas da ferramenta de busca do Twitter e até banidas. As publicações identificadas como automatizadas também podem ser excluídas do cálculo dos Trending Topics. “Desde junho de 2017, conseguimos detectar uma média diária de 130.000 contas que tentaram manipular os Trending Topics – e tomamos medidas para evitar essa influência”, afirmam em nota oficial.

Em resposta a esta reportagem, o Twitter disse esforçar-se proativamente e através de denúncias para checar e identificar contas suspeitas de automação indevida. “De janeiro a junho de 2019, mais de 97 milhões de contas foram desafiadas em todo o mundo por apresentarem comportamento suspeito de spam”. A plataforma não respondeu sobre medidas tomadas especificamente em relação ao perfil @Sah_Avelar. Mas sublinhou que as providências contra contas automatizadas “variam caso a caso. “

Três dias depois da reportagem entrar em contato com a plataforma – pela segunda vez – o perfil @Sah_Avelar e o @CanalCCore foram suspensos. Imediatamente após a exclusão, foram criadas contas alternativas. O @CanalCCore virou @CoreCanal e @Sah_Avelar virou @AvelarSah. Os perfis denunciaram as suspensões, reclamando terem perdido seguidores.

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O novo @CoreCanal apresenta-se na descrição com a frase “I’m back”, ou “estou de volta” em tradução livre. Com um dia de atividade o perfil já tinha feito 284 publicações e acumulava 855 seguidores. A Pública entrou em contato com o responsável pelos perfis, que também administra o canal “Conservative Core”. Identificado como Caio Giovanetti, ele admitiu fazer uso de automação nas contas. “As hashtags são automáticas utilizando a mais utilizada entre os utilizadores que eu sigo”, disse. Giovanetti, no entanto, afirma que a “a automação usada é lícita”, apesar de ter tido contas suspensas.

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Para D’Andréa, as medidas impostas pelo Twitter são insuficientes. “Até que esse processo de denúncia aconteça e que o Twitter verifique se uma conta é artificial, o estrago já foi feito.”

Mas, segundo o coordenador do Monitor do Debate Político no Meio Digital, a exclusão de contas de Twitter é mais complexa do que parece. Isso porque em muitos casos há administradores reais por trás dos perfis automatizados. “Existem contas híbridas, que estão automatizadas, mas que têm alguém a acompanhar, que às vezes publica um conteúdo não programado”, explica Moretto.

Assim, quando a conta é testada pela plataforma ou questionada por uma reportagem, ela pode mudar o seu comportamento. “É como se a chave entre ser um robô e ser um perfil orgânico pudesse ser mudada. Então, alguém dizer que aquele perfil não é um robô não garante nada”, completa D’Andréa.

Além disso, a polarização nas redes faz com que utilizadores reais se comportem de uma maneira que parece automatizada. “Qual a diferença entre um bot e um militante que partilha todas as mensagens que recebe no seu WhatsApp sem ler?”, questiona D’Andréa. “O estrago pode ser maior ou menor, mas o padrão de comportamento é muito parecido.”

Nota:

Este texto foi originalmente publicado pela Agência Pública, órgão brasileiro de comunicação social que se dedica ao jornalismo de investigação, com quem o Polígrafo tem um acordo de republicação. O texto pode ser lido no site da Pública aqui.

Infografia: Bruno Fonseca

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