Evolução do desemprego em ano de pandemia

De acordo com o mais recente boletim de Informação Mensal do Mercado de Emprego do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), referente a janeiro de 2021, o desemprego em Portugal aumentou 5,5% face ao mês anterior (dezembro de 2020) e 32,4% face ao mês homólogo (janeiro de 2020). No final do mês de janeiro de 2021 estavam registados 424.359 indivíduos desempregados.

"Para o aumento do desemprego registado, face ao mês homólogo de 2020, variação absoluta, contribuíram todos os grupos do ficheiro de desempregados, com destaque para as mulheres, adultos com idade igual ou superior a 25 anos, os inscritos há menos de um ano, os que procuravam novo emprego e os que possuem como habilitação escolar o secundário", informa-se no documento.

Colocando o enfoque na assimetria de género, o número de mulheres desempregadas saltou de 179.670 em janeiro de 2020 para 223.248 em dezembro de 2020 e para 236.311 em janeiro de 2021, mais 56.641 no total. Ou seja, uma variação de mais 5,9% face ao mês anterior e mais 31,5% face ao mês homólogo.

No que respeita aos homens desempregados, também se registou um aumento significativo: de 140.888 em janeiro de 2020 para 179.006 em dezembro de 2020 e para 188.048 em janeiro de 2021, mais 47.160 no total. Ou seja, uma variação de mais 5,1% face ao mês anterior e mais 33,5% face ao mês homólogo.

Outro ângulo de análise dos números que torna a assimetria mais nítida: 59,1% dos novos desempregados face ao mês anterior e 54,6% dos novos desempregados face ao mês homólogo são mulheres.

Ao nível percentual e relativo, as diferenças entre géneros após um ano de pandemia são mínimas (i.e., as percentagens de mulheres e homens no total de indivíduos desempregados são quase iguais, permanecendo a discrepância já existente de 11 a 12 pontos percentuais).

Em números absolutos, porém, a assimetria tornou-se mais acentuada: em janeiro de 2020 registaram-se mais 38.782 desempregadas do que desempregados; em janeiro de 2021 registaram-se mais 48.263 desempregadas do que desempregados.

Por outro lado, na comparação com o mês anterior verifica-se que o desemprego das mulheres está a aumentar com um ritmo superior (mais 5,9%) ao dos homens (mais 5,1%). A confirmar-se, nos próximos meses, resultará num aprofundamento da desigualdade de género no acesso ao emprego.

Outro ângulo de análise dos números que torna a assimetria mais nítida: 59,1% dos novos desempregados face ao mês anterior e 54,6% dos novos desempregados face ao mês homólogo são mulheres.

No boletim de Estatísticas Mensais do Mercado de Emprego do IEFP, referente a janeiro de 2021, encontramos dados mais específicos sobre a evolução do desemprego por grupo etário: o maior aumento registou-se na faixa entre 25 e 34 anos de idade, passando de 60.631 em janeiro de 2020 para 90.980 em janeiro de 2021, mais 30.349 no total.

Além das mulheres e jovens na faixa entre 25 e 34 anos, o impacto do desemprego em ano de pandemia tem sido mais elevado nos trabalhadores dos serviços de alojamento e restauração.

Retornando ao primeiro boletim verificamos que "o desemprego aumentou nos três setores de atividade económica face ao mês homólogo de 2020. Este aumento registou maior expressão no setor 'serviços' (+37,6%). A desagregação deste setor de atividade económica permite observar que as subidas percentuais mais acentuadas, por ordem decrescente, se verificaram nas atividades de: 'alojamento, restauração e similares' (+59,9%), "atividades imobiliárias, administrativas e dos serviços de apoio' (+47,4%) e 'transportes e armazenagem' (+46,5%). No setor 'secundário', destaca-se a subida nos ramos da 'indústria do couro e dos produtos do couro' (+53,5%), da 'fabricação de veículos automóveis, componentes e outros equipamentos de transporte' (+38,4%)".

Na indústria do couro e dos produtos do couro também se regista um aumento superior a 50% face a janeiro de 2020, contribuindo para o incremento verificado na região Norte, epicentro dessa indústria.

Ao nível regional, porém, "dos aumentos homólogos, o mais prolongado deu-se na região do Algarve (+61,3%), seguido de Lisboa e Vale do Tejo (+45,3%) e da região da Madeira (+30%)".

É no Algarve que os efeitos da pandemia no setor do Turismo, com especial incidência nos serviços de alojamento e restauração, estão a ter uma maior dimensão. O número de desempregados do Algarve passou de 20.815 em janeiro de 2020 para 33.571 em janeiro de 2021.

As variações homólogas do desemprego no Algarve têm sido exponenciais: em maio de 2020, por exemplo, aumentou 202,4% face ao mês homólogo de 2019; mesmo em agosto de 2020, época alta da atividade turística, aumentou 177,8% face ao mês homólogo de 2019.

Trabalhadoras e mães cuidadoras dos filhos

Além do desemprego, as mulheres também estão a ser sobrecarregadas com as responsabilidades parentais que se intensificaram com o encerramento das escolas devido à pandemia. Neste âmbito há uma estatística muito significativa, revelada pela ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Ana Mendes Godinho, a 17 de fevereiro, no final de uma reunião da Comissão Permanente de Concertação Social: "82% das situações que recorreram ao apoio à família foram de mulheres, o que revela um desequilíbrio da presença nos locais de trabalho por parte das mulheres e a falta de partilha desta responsabilidade".

O programa de apoio excepcional à família para trabalhadores por conta de outrem destina-se aos trabalhadores que exercem atividade por conta de outrem e que faltem ao trabalho por motivos de assistência a filhos ou outros menores a cargo, menores de 12 anos, ou com deficiência/doença crónica independentemente da idade, decorrente da suspensão das atividades letivas e não letivas presenciais em estabelecimento escolar ou equipamento social de apoio à primeira infância, a partir do dia 22 de janeiro de 2021.

Aplica-se também aos trabalhadores que se encontrem a exercer atividade em regime de teletrabalho que optem por interromper a sua atividade para prestar assistência à família e que se encontrem numa das seguintes situações: agregado familiar monoparental; agregado familiar que integre, pelo menos um filho ou outro dependente que frequente equipamento social de apoio à primeira infância, estabelecimento de ensino pré-escolar ou do primeiro ciclo do ensino básico; agregado familiar que integre, pelo menos, um dependente com deficiência, com incapacidade comprovada igual ou superior a 60%, independentemente da idade.

Em 2020, mais de 80% dos beneficiários deste apoio excepcional foram mulheres, demonstrando a assimetria da sobrecarga das responsabilidades parentais que depois gera evidentes repercussões ao nível profissional.

A ministra Ana Mendes Godinho informou que o Governo vai avançar com alterações no referido programa. "A principal alteração que o Governo vai aprovar prende-se com o alargamento do universo de pessoas que podem pedir este apoio, passando a incluir os pais em teletrabalho, embora a solução encontrada fique aquém das exigências dos sindicatos e dos partidos da oposição", noticiou o jornal "Público".

"Perante as dificuldades em conciliar teletrabalho com o cuidar de crianças pequenas, o apoio excepcional será alargado aos pais a trabalhar em casa e que tenham crianças a frequentar o 1.º ciclo do ensino básico (até ao 4.º ano), incluindo creche e pré-escolar, ou que tenham dependentes com deficiência e incapacidade igual ou superior a 60%. Serão também abrangidas as famílias monoparentais em teletrabalho", destaca-se no mesmo artigo.

Mais, "para promover o equilíbrio na partilha das responsabilidades, o valor do apoio será majorado, assegurando 100% da remuneração-base (em vez dos 66% previstos para as restantes situações), quando estiverem em causa famílias monoparentais ou nas situações em que pai e mãe declararem que a assistência aos filhos será partilhada pelos dois. Trata-se, adiantou a ministra, de uma 'compensação às famílias em que haja alternância na assistência aos filhos entre homens e mulheres'".

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