A história comovente de Matilde, a bebé que tinha apenas um mês quando lhe foi diagnosticada Atrofia Muscular Espinhal de tipo I, comoveu os portugueses, que se mobilizaram em junho passado para a ajudar com uma campanha de donativos. Mas se a sua narrativa comoveu muitos, também inspirou outros, embora com motivações menos nobres: esta semana propagou-se nas redes sociais um suposto pedido de ajuda oficial por parte do Hospital de São José para uma criança que foi diagnosticada com uma doença neurológica rara.

"Laura Inácio é portadora de uma doença rara, chamada Síndrome de West, e depende agora de ajuda para voltar para casa" pode ler-se no início do texto que acompanha um post ilustrado com uma imagem da bebé. A justificação apresentada: "Isto porque a família precisa adquirir equipamentos de uma espécie de UTI domiciliar para que ela tenha alta hospitalar e possa desfrutar do convívio familiar".

Bebé Matilde
A página falsa do Hospital de São José no Facebook

Na publicação, pede-se ajuda para arrecadar mais de 19 mil euros: "Jantares, rifas e outros eventos são organizados pela comunidade para tentar arrecadar 19.730,69 EUR, investimento necessário para a compra de equipamentos."

O Polígrafo contactou o Hospital de São José e concluiu que se trata de uma fraude por vários motivos.

"Dos 0 aos 18 anos, não aparece nenhuma criança chamada Laura Inácio nos registos do hospital", garantiu ao Polígrafo fonte oficial do Hospital de São José.

Em primeiro lugar, não existe nenhuma página oficial do Hospital de São José no Facebook, mas sim uma página do Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central que engloba vários hospitais:

  • Hospital de São José
  • Hospital de Curry Cabral
  • Maternidade Dr. Alfredo da Costa
  • Hospital de Santo António dos Capuchos
  • Hospital de Santa Marta
  • Hospital D. Estefânia

Fonte oficial do Gabinete de Comunicação e Imagem do Hospital de São José garantiu ainda ao Polígrafo que os peditórios não são uma prática comum no hospital. Um terceiro indício: "Dos 0 aos 18 anos, não aparece nenhuma criança chamada Laura Inácio nos registos do hospital." Outro ainda: nestes casos especialmente graves as crianças nunca são internadas no Hospital de São José, mas sim no Hospital de Dona Estefânia, que é uma unidade vocacionada para a área da pediatria.

A expressão "UTI" que é utilizada no texto também tem de ser considerada. Trata-se de uma expressão vulgarmente utilizada no Brasil para designar o que em Portugal chamamos de Unidade de Cuidados Intensivos. A sua utilização indicia que os criadores da página possam ser de nacionalidade brasileira.

Na imagem, pode ver-se uma notícia num jornal brasileiro em que é utilizada a mesma fotografia que surge no esquema fraudulento que está a ser partilhado no Facebook

O Polígrafo investigou a imagem divulgada na publicação e chegou à conclusão de que "Laura Inácio" é, afinal, Valentina Pinto Chimionato, uma criança brasileira com atrofia muscular e Síndrome de West cujos pais lançaram uma petição no site de crowdfunding Vakinha com o objetivo de adquirir um aparelho respiratório para que a menina pudesse ficar em casa: " (...) respiro 100% do tempo com ajuda de um aparelho respiratório, o BiPap mas ele não está dando suporte suficiente para que eu possa continuar vivendo em casa com meus pais e minhas irmãs. Por isso peço que me ajudem a conseguir o Trilogy 100 e o concentrador de oxigênio portátil, os dois únicos aparelhos que me permitem continuar vivendo ao lado da minha família" pode ler-se na página de crowdfunding da menina.

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