Que efeitos das alterações climáticas são já visíveis nos ecossistemas aquáticos?

Há mudanças importantes a acontecer já hoje, como a deslocação de populações de espécies marinhas. Estão a migrar para latitudes mais altas, em direção às zonas polares, a velocidades de 10 a 30 quilómetros por década, de forma a encontrar águas com as condições apropriadas. Nota-se em todos os organismos marinhos: peixes; invertebrados; e plantas.

Além disso, está também a haver grandes perdas de ecossistemas tropicais como recifes de coral, que estão a sofrer danos por bleaching [branqueamento], com o desaparecimento dos simbiontes dos corais*, causado pela temperatura da água, 1 grau centígrado acima do habitual. E, finalmente, o efeito das alterações climáticas é também visível nos oceanos polares, particularmente no Ártico, onde a extensão de gelo no mar diminuiu cerca de 66%. A quantidade de gelo marinho que há no final do verão é agora um terço do que era habitual — e em 2019, ao que tudo indica, vamos possivelmente ver um novo mínimo histórico. 

* A cor da maioria dos corais deve-se à presença de uma “alga” simbionte; sem ela, os seus tecidos tornam-se pálidos ou brancos.

Que consequências têm estas mudanças?

A deslocação das populações marinhas afeta mais as comunidades que dependem da pesca. As espécies que estas pessoas costumavam pescar estão a desaparecer das suas costas — como se está a verificar com a sardinha em Espanha e Portugal. Todas as espécies estão a rumar para norte e até o plâncton marinho está a mudar. 

Os pescadores estão habituados a investir em equipamentos que tencionam amortizar em 10 ou 20 anos e agora já não sabem o que devem comprar, porque o pescado está a mudar continuamente. Começam a surgir espécies que antigamente não existiam nas nossas águas, de âmbito subtropical e tropical. A Physalia physalis, ou Caravela Portuguesa, por exemplo, está a aparecer com mais frequência nas nossas praias, o que é um risco para os banhistas.

Como é que as emissões de CO2 influenciam o pH dos oceanos e que perigo representa a acidificação das águas? 

O sistema de equilíbrio entre o dióxido de carbono e outros compostos, como carbonato, íon e bicarbonato, é o maior regulador do pH do mar. Quando aumenta a concentração de CO2, esse equilíbrio altera-se e o pH da água desce. Até hoje, diminuiu já 0,1 unidades na escala logarítmica do pH. Parece pouco, mas corresponde a um aumento da carga de acidez no oceano de 26%. Além disso, as projeções apontam para uma queda de 0,3 a 0,4 unidades de pH, o que significa uma duplicação da acidez da água do mar — e isso irá afetar principalmente as espécies que têm esqueletos de carbonato, como os corais e todos os bivalves.


Quais são os ecossistemas mais vulneráveis aos efeitos das alterações climáticas em geral?

São os recifes de corais e os ecossistemas que estão associados ao gelo no Ártico, com toda a sua fauna — incluindo os ursos polares e as focas, que usam o gelo para descansar e até para reprodução. Mas não só. Em Portugal, os bosques de algas marinhas estão a ser igualmente afetados pelo aumento da temperatura das águas. Em toda a costa continental estão a desaparecer bosques de algas, em parte por causa do aquecimento da água, além do aumento do aporte de sedimentos, também prejudicial. 

A subida do nível médio das águas do mar é uma das preocupações mais prementes. De acordo com um relatório recente, a manter-se o ritmo de aceleração atual, os saltos serão de 1 centímetro por ano em 2100...
Manter o ritmo da subida já não é uma possibilidade sequer: perdemos essa oportunidade. A questão agora é se a aceleração será mais ou menos rápida. 

O que pode vir a acontecer?

As previsões para o final do século apontam para um aumento de 30 centímetros a 2 metros acima do nível pré-industrial. Tudo depende do que acontecer com o gelo no Ártico, particularmente com a plataforma de gelo da Gronelândia, que já está a derreter. Se o ritmo de perda acelerar, os níveis de subida serão mais severos. E aí, o grande problema não será para as espécies marinhas, que podem de alguma forma adaptar-se, mas, sim, para as pessoas. Além dos riscos físicos das inundações, também vão sofrer com os efeitos nas casas e nas infraestruturas que estão nas zonas costeiras.

O Banco Mundial diz que seriam precisos três planetas para conseguirmos manter até 2050 o atual estilo de vida. Em que ponto estamos, efetivamente? A humanidade está em perigo?  

Como espécie, penso que não está em risco. Mas a possibilidade de a humanidade conseguir ter uma boa qualidade de vida, sim, está em perigo. Não só pelo efeito das mudanças climáticas, mas também por causa do aumento da população, acima dos níveis sustentáveis pelo planeta. O problema de estarmos a consumir recursos duas a três vezes acima da capacidade de regeneração do planeta tem essa dupla vertente. 

Que medidas são mais urgentes?    

Abandonar o modelo de sociedade baseado no uso de combustíveis fósseis. O maior risco para os ecossistemas resulta das mudanças climáticas, e é urgente mudar o sistema económico para um modelo assente em energias renováveis. Depois, é preciso começar a pensar não apenas na proteção e conservação dos ecossistemas, mas também na sua recuperação. Enquanto falávamos sobre a sustentabilidade e conservação, a cada ano que passava, o mundo perdia 1% do seu capital natural. Agora, é preciso não só conservar o que há, mas igualmente recuperar o que se tem perdido.

No caso português, há alguma medida específica que considere mais premente?

As medidas são as mesmas, os mecanismos de implementação é que podem ser diferentes. Portugal tem uma potencialidade muito grande de recursos de energia marinha que ainda não estão a ser aproveitados. Pode ser este o modelo português para as energias renováveis. Também tem uma grande indústria e um enorme potencial intelectual para as biotecnologias azuis e tecnologias baseadas no oceano, que tem de desenvolver e apoiar.

O que cada um de nós pode individualmente fazer?    

Podemos ser consumidores mais conscientes, estar mais atentos aos tipos de energia que gastamos, fazer opções e com isso influenciar o desenvolvimento das energias renováveis. Isto além de outras escolhas, como procurar comprar peixe com o certificado de pesca sustentável. Mesmo em relação à poluição, cada um de nós tem a sua quota de responsabilidade. Não se trata apenas de reduzir o plástico, mas também de evitar o consumo de produtos químicos tóxicos, seja nos materiais eletrónicos ou nos alimentos.

Tartaruga

Referiu o plástico, atualmente uma das questões de que mais se fala. A existir uma hierarquia de ameaças aos oceanos, o plástico surgiria em primeiro lugar?

Não será hierarquicamente uma das maiores ameaças. Só que falar do plástico é uma oportunidade, porque utilizamos atualmente mais de 50 mil compostos químicos sintéticos, que são perigosos para o meio ambiente e para a nossa saúde, mas que na sua maioria não são visíveis. Têm nomes complicados, as pessoas não sabem o que são... O plástico é uma coisa palpável e que toda a gente sabe o que é e compreender o que está em causa. Mas se a conversa se fica pelo plástico, sem se alargar aos problemas da contaminação marinha em geral, então é uma oportunidade perdida.

O crescimento dos movimentos de ativismo ambiente juvenil permitem alimentar algum otimismo em relação ao futuro? As mentalidades estão de facto a mudar?

Os jovens têm uma opinião bem formada sobre as mudanças climáticas e isso é bom, mas não gosto do tom dos protestos. Contribui para polarizar a sociedade. Seria melhor avançar através de um discurso mais positivo. 

Ouço dizer à tal Greta Thunberg que recebe esperança, mas que não quer esperança, que está zangada e tal... É bom que os mais novos tenham essa disposição, essa energia, mas é preciso que sejam mais positivos. Os jovens estão zangados. É preciso canalizar essa energia para um diálogo mais construtivo.

Penso também que estas pessoas são um brinquedo dos meios de comunicação social e daqui a algum tempo serão deitadas fora... Preocupa-me o futuro destas pessoas tão jovens e que têm uma exposição mediática tão brutal. Se eu fosse pai da Greta Thunberg, em vez de procurar alternativas ao avião para ela viajar para Nova Iorque, estaria mais preocupado com a sua saúde mental e com a minha capacidade de a proteger da sobre-exposição aos meios de comunicação.

É muito crítico em relação ao papel dos media. 

A minha perceção geral do problema é mais positiva. Penso que os meios de comunicação tendem a propagar os problemas e as previsões mais negativas, mais alarmantes, e não fazem uma reflexão sobre as oportunidades, os progressos. Quem apenas conhece o estado destas questões através dos meios de comunicação tem uma opinião mais pessimista do que a realidade mais equilibrada permitiria conceber — e esta opinião pessimista acaba por ser negativa, porque as pessoas pensam que não há nada a fazer, que está tudo perdido... E vão ocupar-se de outras questões.

As notícias são pouco rigorosas? 

É tudo demasiado extremado. No âmbito dos oceanos, também há fake news. Fala-se de uma ilha de plástico no Pacífico Norte que não existe, que é uma ficção propagada pelos meios de comunicação, acompanhada de fotografias de um estuário numa zona da África ou da Ásia, cheio de plástico, mas que não tem nada que ver com o Pacífico... E também estou sempre a ouvir dizer que em 2050 haverá mais plástico no mar do que peixe. Isso é impossível! Simplesmente, não vai acontecer. Mas hoje qualquer documento começa com essa ideia, que não tem fundamento. 

Há problemas, certo, mas também há muitos problemas inventados e que criam uma imagem mais negativa do estado do planeta e dos oceanos e do que é possível fazer. E o risco é que, de tanto repetir estas coisas, elas se convertam em verdades, porque as pessoas perdem a vontade de fazer o que quer que seja para que estas projeções não se tornem realidade.  

O dossier O Futuro do Planeta é uma parceria entre o Polígrafo e a Fundação Francisco Manuel dos Santos

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