Continua a faltar literacia dos oceanos em Portugal? 

Ao contrário do que se pensa, Portugal não é um país com uma cultura verdadeiramente virada para o mar. Estamos ligados ao mar pela barriga, como digo a brincar, porque gostamos de comer o peixe — temos o maior consumo per capita da UE. E é certo que estamos ligados ao mar também pela literatura, porque sempre tivemos grandes vultos a escrever sobre o mar, como Camões ou Sophia de Mello Breyner. Mas existe muito pouca náutica desportiva, muito pouca utilização do mar para fins lúdicos... É preciso corrigir isso. De nada serve o mar ser importante do ponto de vista geoestratégico para o país se os cidadãos não o compreendem e se não há uma consciência coletiva dessa importância. 

É preciso criar uma “geração azul”, como refere o nome do novo programa educativo da Fundação?

A nossa ambição é que, com uma geração azul, os portugueses sejam os cidadãos europeus mais conscientes da sustentabilidade ambiental do mar, dos problemas que o mar enfrenta, do facto de estarmos a alterar profundamente os oceanos. Portugal tem 40 vezes mais mar do que terra, e era importante que os nossos cidadãos fossem os primeiros a compreender isso, a dedicar-se a isso e a consciencializar-se disso.

De certa forma, poderíamos ser aquilo que os nórdicos foram para o ambiente, para o tema verde, a partir dos anos 70. Os nórdicos tiveram razão antes do tempo, orientaram as suas sociedades para as questões do ambiente 20 anos antes da Cimeira do Rio, de 1992. Nós já não estaremos 20 anos à frente de ninguém... Mas era importante que conseguíssemos compreender que o século XXI vai girar muito em torno do ambiente, dos oceanos, da descarbonização, e que é fundamental que os nossos cidadãos se qualifiquem para esse desígnio. É esta a ambição do programa “Oceano, Educar para uma Geração Azul”. 

Como funcionará o projeto?

O programa — neste momento a ser ensinado em Cascais, Mafra, Nazaré, Peniche, Moura e Silves — tem aspetos bastantes disruptivos. Foca-se numa janela etária muito concreta, das crianças do primeiro ciclo do ensino básico, entre os seis e os 11 anos. É um plano desenhado para ser desenvolvido pelos professores do primeiro ciclo ao longo de quatro anos, com oito disciplinas ou grandes temas. E conta com a capacidade e experiência dos formadores do Oceanário na pedagogia da literacia dos oceanos.

Que temas são tratados? 

Normalmente há a preocupação de ensinar o que são os oceanos, a biologia dos oceanos, e depois como podemos protegê-los, a preservação ambiental. Nós explicamos também como é que o ambiente marinho traz valor à economia, como é que gera biomassa, como é que permite o trânsito do tráfego marítimo, como é que permite fornecer-nos bens essenciais como o oxigénio ou a água. Criamos muito a ideia de ligação, falamos da dependência que temos dos oceanos. Além disso, também abordamos a parte da história, a importância dos oceanos nas civilizações, na geoestratégia, na política. 

Tiago Pitta e Cunha
Tiago Pitta e Cunha, Presidente da Fundacao Oceano Azul. créditos: Diana Tinoco / Poligrafo

Há uma abordagem mais holística. 

Sim. Mesmo nas questões do ambiente, não podemos dar às crianças uma ideia de omnipotência dos seres humanos. Que logo arranjaremos maneira de resolver os problemas: que, se não deitarmos os plásticos para praia, não afetamos as tartarugas, nem os peixinhos... É importante perceber que os oceanos são muito complexos e são muito maiores do que aquilo que nós somos, fazemos ou podemos fazer. Quebrar com este mito de que o engenho humano e a tecnologia resolvem todos os problemas. Está à vista, no estado em que o planeta está, que isso não é verdade. 

Os jovens são hoje os primeiros a dizer que “a casa está a arder”. A onda de greves e protestos contra a crise do clima e o protagonismo da adolescente Greta Thunberg têm contribuído para uma maior consciencialização?
Acho que sim. E não tenho dúvidas de que a questão do combate à crise climática é o grande desígnio da próxima geração e das gerações mais novas. Nunca se discutiu o futuro do planeta como se discute hoje. Há 20 anos, era impensável estar a discutir o futuro do planeta, era um absurdo. O planeta existia, ponto. Para [Francis] Fukuyama, o fim da Guerra Fria era o fim da História. Hoje, o fim da História é vencermos este enorme desafio de manter a humanidade a habitar o planeta. Essa geração vai ser altamente marcada por isso.

Portugal continua de costas viradas para o mar? 

Eu diria que abrimos o livro do oceano, e abrimo-lo principalmente no discurso, mas não conseguimos ainda virar a página.

E em que ponto está a UE?

É preciso lembrar que a Europa nasceu como uma potência agrícola. No Tratado de Roma, que estabelece a CEE, não existe a palavra mar. A Europa começou a virar-se para o mar sempre de uma forma reativa. Por causa das pescas, num primeiro momento. E depois, com o desastre do Erika e do Prestige, para proteção das suas zonas costeiras e regulação do transporte marítimo de substâncias perigosas.  

A Europa só se virou para o mar de uma forma geopolítica, geoestratégica, com a primeira comissão Barroso e com a construção da Política Marítima Integrada Europeia, que tem uma impressão digital portuguesa muito forte. Foi a primeira política europeia do mar, que deu origem a todo um processo que agora culmina na decisão de criar o conselho de missão da Comissão Europeia “Oceanos Saudáveis, Mares, Águas Costeiras e Interiores”, do qual faço parte. Porque sabemos que na Europa temos que começar por uma superestrutura, para depois a estrutura desenvolver programas, os programas terem fundos, e tudo se ir desenvolvendo...  Os oceanos são hoje uma das cinco prioridades da Europa e Portugal é muito responsável por isso. 

A sustentabilidade dos oceanos é a prioridade? 

Na visão da Fundação Oceano Azul, já não é possível distinguir economia e sustentabilidade, já deixaram de ser sequer dois lados da mesma moeda, são o mesmo lado da mesma moeda. A ideia de que há uma sustentabilidade económica, uma sustentabilidade social e uma sustentabilidade ambiental, tem de ser ultrapassada. Enquanto continuarmos a pensar que há três pilares independentes, ganhará sempre o económico. Nos últimos 30 anos foi sempre assim.

Quando o ambiente e a Economia se cruzam, vence sempre a economia e é fundamental compreender que o ambiente vai ser economia do futuro. Só conseguiremos vencer este desígnio se for através da economia. Não é através de ONG e de medidas de proteção ambiental, porque aquilo que tem destruído sistematicamente os recursos naturais e tem contribuído para delapidar o planeta é a economia, como nós a conhecemos. Nós temos de alterar é a economia. Se não o fizermos, não vamos conseguir vencer esta batalha.

Abandonar a ideia de crescimento constante?  

Talvez, sim. Temos de pensar. A ideia de Bretton Woods, de 1945, tem de ser revista. Se calhar, não podemos continuar a crescer ad aeternum, porque isso significa mais outputing industrial, mais produção, e mais produção significa menos recursos naturais... E não é possível. A cada ano, exploramos os recursos que tínhamos para o nosso ano e para os dois anos seguintes. Ou seja, estamos a explorar os recursos naturais das gerações vindouras e isso é defraudar as gerações vindouras. 

Temos de repensar o funcionamento da economia e essencialmente fazer uma coisa que me parece basilar que é introduzir a natureza na análise custo-benefício da economia. 

Podemos ter atividades económicas menos rentáveis, mas que trazem um benefício para o planeta que deve ser contabilizado e isso deve conferir-lhes rentabilidade aos nossos olhos. E não podemos continuar a ter atividades em que consideramos que o benefício excede o custo, porque não contamos com a destruição do planeta e do ambiente. É isto que é fundamental. Só conseguimos pensar em termos de capital manufaturado. Temos de começar a pensar em capital natural. 

Falamos de grandes decisões políticas, mudança do sistema económico. E individualmente, o que cada um de nós pode fazer?

Como cidadãos, temos três grandes armas: podemos votar, podemos comprar e podemos participar através das redes sociais, ter uma voz no mundo digital. Podemos ir além dos políticos e manifestarmo-nos. Podemos fazer muitas coisas que não fazemos ainda — é inacreditável a baixa taxa de reciclagem em Portugal. Há muitas coisas que nós podemos fazer. As novas gerações, os millennials, mas principalmente os centennials, já perceberam isso. Por isso é que muitas vezes fazem profundas opções pessoais, como mudar o que comem — a indústria alimentar é uma das indústrias mais carbonizantes da Europa — em função não apenas da sua saúde, mas também do planeta. 

Agora, claro que, há muitas coisas que nós podemos fazer, mas vai ser sempre necessário haver uma resposta multidimensional, por parte dos decisores políticos. Precisamos dos programas, dos fundos, da compreensão de que quanto mais avançados estivermos na área da sustentabilidade, mais avançados vamos estar economicamente daqui a dez anos, daqui a 20. É uma questão de posicionamento, de uma sociedade, de um país, de comunidade nacional. Se formos genuinamente pró-ambiente, pró-clima, estaremos a ser genuinamente pró-economia do futuro. 

Tiago Pitta e Cunha
Tiago Pitta e Cunha, Presidente da Fundacao Oceano Azul. créditos: Diana Tinoco / Poligrafo

E em relação aos oceanos, que medidas urge tomar?

Há uma pressão demográfica enorme no planeta, que se faz hoje sentir fortemente na delapidação da biodiversidade, seja em terra, seja no mar. No mar, os recursos naturais selvagens são mais escassos que a procura e estamos numa curva descendente permanente e sem luz ao fundo do túnel. É certo que algumas espécies, principalmente dentro da UE e em países como a Noruega e a Islândia, conseguiram ser geridas de forma sustentável. E mesmo em Portugal, há um caso que eu gosto de apontar pela positiva que é o da pescada, que esteve em fortíssima quebra, mas com as regras impostas pela comissão europeia há 15 anos, se tem conseguido preservar no Sul e na zona de Sines. No entanto, é preciso agir. 

Ah... mas mil milhões de pessoas que vivem da vida marinha, como é que vão sobreviver? Temos de pensar em novas formas de aquacultura, alternativas alimentares. Os bivalves são alimentados pelo próprio mar e no processo de crescimento ainda retiram CO2 da água. E as algas têm tudo aquilo que nós precisamos — vitaminas, oligoelementos, proteína vegetal... — e ainda absorvem muito CO2 do mar, contribuindo no combate à acidificação do oceano. 

Fala-se muito hoje na aquacultura multitrófica, em que se misturam espécies que vivem mais na coluna da água com espécies de peixe que vivem no fundo com algas e com bivalves — é o circuito completo a permitir um certo equilíbrio, porque os resíduos produzidos por uns são o alimento dos outros. 

Portugal tem corrido atrás dessas novas oportunidades?

Em Portugal, os fundos estão canalizados para a pesca e para aquacultura tradicional. Os grupos económicos não estão ainda posicionados nestas áreas de nicho, os bancos não financiam estas atividades porque as consideram de grande risco, são atividades pioneiras e inovadoras, e portanto infelizmente estamos longe de virar a página naquilo que virá a ser economia do mar do futuro. Mas há algumas PME a fazer trabalhos na área das algas, por exemplo, e isso é interessante.

Está otimista em relação ao futuro?

A resiliência da espécie humana tem sido comprovada ao longo de milénios. Sempre que encontra um desígnio e se posiciona, de alguma forma consegue enfrentá-lo. Acho é que ainda não estamos no nível de compreensão, de interiorização, de que estamos a viver uma situação efetivamente de crise. Mas quero acreditar que isso vai mudar. Até porque noto que, hoje, a cada ano que passa, parece que avançamos cinco anos na agenda da sustentabilidade, apesar de tudo. Há três anos ninguém se preocupava com as questões dos plásticos...

O dossier O Futuro do Planeta é uma parceria entre o Polígrafo e a Fundação Francisco Manuel dos Santos

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