A NASA anunciou em junho a missão Dragonfly, que tem como objetivo procurar indícios de vida em Titã, a maior lua gelada de Saturno. A agência vai enviar em 2026 uma espécie de aeronave com quatro motores, que deverá chegar em 2034 — e com este drone gigante, movido a energia nuclear, os cientistas esperam poder recolher o máximo de informações sobre a química do local. A presença de líquido subterrâneo, reservatórios de água, dunas e material orgânico, apontam várias semelhanças entre Titã e o planeta Terra — e a atmosfera baseada em nitrogénio permite sonhar ainda mais alto. 

A procura de vida extraterrestre será “a etapa mais interessante na ciência do século XXI", afirmou o físico Stephen Hawking, pouco antes de morrer, em março de 2018. E o ritmo acelerado a que surgem as descobertas parece dar-lhe razão. Nem todos os cientistas arriscam tanto como o diretor da Divisão de Ciência Planetária da NASA, Jim Green – que acredita que a revelação de vida em Marte irá acontecer nos próximos dois anos –, mas o entusiasmo é geral. “Não há razão nenhuma do ponto de vista científico para que a vida não possa ter surgido noutros locais do nosso sistema solar“, garante a astrobióloga Zita Martins, investigadora envolvida em várias missões espaciais e professora no Instituto Superior Técnico. 

Vidas extremas 

A cientista não duvida de que o próximo grande avanço nesta área “seja mesmo descoberta de vida extraterrestre”, apesar de não gostar de fazer previsões. “Acho que ainda vai demorar. No entanto, as várias agências espaciais estão neste momento a realizar, ou a preparar para o futuro, várias missões espaciais de deteção de vida extraterrestre, e isso é bom. Talvez daqui a 10 ou 20 anos possa surgir o anúncio da descoberta de vida”, arrisca. 

A ficção científica remete-nos para o imaginário fantástico de criaturinhas verdes com antenas, mas a vida que os cientistas acreditam poder vir detetar num curto prazo – seja em Marte numa das luas geladas de Júpiter ou Saturno – está muito, muito longe dessa realidade. “Estamos sobretudo à procura de micro-organismos. E, provavelmente, daquilo a que chamamos extremófilos, que vivem em condições extremas”, explica a astrobióloga. Formas de vida muito simples, capazes de sobreviver a ambientes inóspitos, extraordinariamente quentes, ou ácidos, ou sem luz, letais para a maioria dos seres vivos. Organismos microscópicos semelhantes aos primeiros seres vivos que terão existido na Terra e hoje podem ser encontrados em locais como o Grande Lago Salgado, no estado do Utah, nos Estados Unidos, ou, nas águas ácidas do Rio Tinto em Espanha.

CSI no espaço

Zita Martins recorre a uma metáfora para explicar como é que os cientistas procuram confirmar a existência de vida extraterrestre. “Fazemo-lo de forma indireta. É um pouquinho como um detetive que tenta procurar o criminoso no local do crime, através de cabelos ou impressões digitais. Só que neste caso são impressões digitais químicas, ou seja, moléculas que nos dão as bioassinaturas que nos podem vir a permitir ter um dia a certeza absoluta de que ali existia uma forma de vida”, descreve. 

De onde virá a tão ansiada notícia, ainda não se sabe. “Fazer ciência é juntar peças e, neste momento, ainda nos faltam muitas peças para ver todo o puzzle”, diz Zita Martins. Segundo a especialista, “Marte continua a ser um fortíssimo candidato de procura de vida” – o que explica a aposta das agências espaciais. A NASA lança para o ano o rover Mars 2020 e o Rosalind Franklin, o rover europeu da missão ExoMars da ESA, chega em 2021 para explorar o subsolo a dois metros de profundidade.   

“Sabemos que onde há água, há condições para a vida surgir, desenvolver-se, etc.”, diz Zita Martins, lembrando que em Marte já existiram oceanos. Além disso, há um mistério que permanece por resolver: de onde vem metano, que parece estar a ser libertado episodicamente na atmosfera do planeta, tendo sido identificado em 2013 pelo rover Curiosity da NASA e pela sonda Mars Express, da ESA, mas já não detetado pela orbiter Exomars em 2016? “O metano pode ter origem em microrganismos metanogénicos, o que seria uma ótima indicação de vida microscópica em Marte. Ou resultar de um processo geológico, que se chama serpentinização, em que uma rocha quando em contacto com água liberta metano, o que já não seria excitante de todo. Não sabemos”, explica a investigadora. 

Luas de gelo

Além de Titã, a lua Europa, que orbita o planeta Júpiter, onde se sabe existir água, energia e carbono, também está na corrida para a descoberta de vida. A NASA prepara-se para fazer uma aproximação a esta lua com a sonda Europa Clipper, que pretende recolher amostras das plumas de água avistadas pelo telescópio Hubble em 2012 – e a ESA lança em 2022 a sonda Juice, com o mesmo destino. 

“De cada vez que temos uma missão espacial aprendemos mais um bocadinho sobre esse local do nosso sistema solar”, diz Zita Martins. A realidade está, por isso, em constante mutação. O crescente interesse na lua de Encelado, um satélite de Saturno que também tem um oceano debaixo da crista, é disso um bom exemplo. A análise das informações recolhidas pela sonda Cassini, cuja missão terminou em 2017, continua a trazer novidades. Depois de já se saber que as plumas de Encelado continham hidrogénio proveniente de fontes hidrotermais oceânicas – ambientes que na Terra se revelam ecossistemas de vida extrema – em 2018 os cientistas identificaram, pela primeira vez, moléculas orgânicas complexas num oceano fora da Terra. “Definitivamente, há que apostar recursos e conhecimento nessas luas geladas, porque são sítios maravilhosos, fantásticos, sobre os quais conhecemos muito pouco e que podem estar cheios de organismos vivos”. 

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