Posts que revelam milagres das "medicinas alternativas", técnicas simples para eliminar dores crónicas ou alimentos com super-poderes são fenómenos cada vez mais virais do que algumas das doenças que se propõem eliminar. Na internet, a saúde é um mercado, milionário, que se alimenta de muitos mitos e especulações susceptíveis de provocar danos graves à saúde de quem neles acredita.

O reconhecimento de que a partilha em massa deste tipo conteúdos é uma ameaça à saúde pública já fez com que a Google, o Facebook e o Pinterest agissem. Uma das principais razões foi o movimento anti-vacinas. Em Fevereiro passado, a Google, detentora do YouTube, retirou os anúncios de todos os vídeos que promovessem ideias anti-vacinação. Ou seja, atualmente, quem quiser fazer tráfego - e, com ele, negócio - com a difusão deste tipo de informação altamente partilhável, já não tem a garantia de que a ele corresponderá um ganho financeiro.

Também o Pinterest, uma plataforma onde os utilizadores podem partilhar conteúdos e ligações, limitou a pesquisa dos utilizadores pelos termos “vaccines” e “cancer cure” (traduzidos como “vacinas” e “cura do cancro”). Quando são pesquisados estes termos, a plataforma não exibe qualquer conteúdo, aparecendo apenas a mensagem: “Não foi possível encontrar pins para esta pesquisa”. Porém, a medida, como denunciou a Agência Lupa – uma plataforma de fact-checking brasileira –, só está disponível para a língua inglesa e quando os termos são pesquisados em português ou espanhol, o Pinterest já disponibiliza os conteúdos, incluindo os que contêm informações falsas.

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As informações anti-vacinas são um dos problemas mais graves a combater nas redes sociais

O Facebook não quis ficar atrás na luta contra as fake news e anunciou à CNN que também iria implementar medidas para retirar destaque às informações erradas que são partilhadas na plataforma e que frequentemente se tornam virais.

Um exemplo paradigmático é a informação que desde 2003 tem vindo a ser partilhada e repartilhada sobre a importância de picar os dedos e as orelhas de uma pessoa que demonstre sintomas de estar a ter um acidente vascular cerebral (AVC). Trata-se de uma falsidade já desmentida por várias plataformas de fact-checking mas continua a ser partilhada por milhões de utilizadores, tornando-se uma “alegação zombie” - uma informação que mesmo desmentida volta a ganhar vida vezes sem conta.

O problema não é ocidental, mas global. Também no sudeste asiático a aplicação de conversação Line é palco de partilha de informações que induzem os utilizadores em erro. Uma dessas partilhas afirmava que a água salgada cura o vírus Ébola. No entanto, em países como a Nigéria estas informação são veiculadas através de palestras nas universidades – como cita a plataforma –, por líderes religiosos e até por jornalistas. A plataforma Africa-Check identificou e desmistificou informações partilhadas durante uma palestra na Universidade de Ibadan em que o orador afirmou que os contracetivos provocam infertilidade, cancro e deformações nos bebés. Para Ifeanyi Nsofor, CEO de consultora de saúde EpiAfric, a pobreza, a religião e a existência de um fraco sistema de saúde são as principais causas da proliferação de mitos nestes países.

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A medicina alternativa é vista como uma ameaça em franca expansão no ciberespaço

A maior dificuldade da luta contra a desinformação é que enquanto a publicação falsa é partilhada milhares de vezes, os desmentidos efetuados não têm o mesmo alcance. O Poynters.org dá um exemplo: uma imagem que questionava a razão pela qual os cidadãos adultos norte-americanos tinham de pagar pelo serviço de saúde Medicare enquanto os imigrantes ilegais tinham acesso gratuitamente, foi denunciada no Facebook como sendo falsa pela plataforma Factcheck.org. O desmentido não chegou às oito mil interações. Quanto à informação original, chegou a mais de 500 mil gostos, partilhas e comentários.

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