Quer olhemos para a questão do ponto de vista matemático, epidemiológico ou até mesmo ético - pelos limites da imposição de obrigatoriedade na toma da vacina - a cobertura vacinal de 100% da população parece uma meta impossível de atingir. Mas e se não for esse o caminho mais lógico a seguir no combate à Covid-19? Em declarações ao Polígrafo, especialistas convergem nas opiniões: proteger a população não depende de uma vacina para os 100%.

Carlos Antunes, matemático e professor na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, considera que esta questão se prende com uma abordagem probabilística, ou seja, "qual é a percentagem de população imunizada que garante a passagem de uma situação epidémica para uma situação endémica de uma doença infecto contagiosa, em que os casos de infecção que venham ocorrer são de pequenos surtos sem grandes complicações de doença grave que necessite de internamento e/ou cuidados intensivos".

À partida, essa percentagem depende da imunidade induzida pela vacinação e adquirida por infecção, defende Antunes, "uma imunidade acumulada que, neste momento, com uma estimativa grosseira, andará entre os 25% e os 35% no nosso país".

"Se a imunidade de grupo para esta doença for de 70%, como tem sido considerado, então, admitindo que pelo menos 10-13% da população portuguesa já foi infectada ou esteve em contacto com o vírus (possui anticorpos contra o vírus), para atingir os 70% bastaria vacinar 57-60% das pessoas não infectadas", explica ainda o matemático.

Contudo, com o aparecimento de novas variantes o caminho até à imunidade de grupo pode ser mais longo do que o inicialmente previsto.

Ao Polígrafo, Carlos Antunes esclarece que, uma vez que a variante do Reino Unido tem "mais de 90% de prevalência nas novas infeções", isso aumenta a imunidade de grupo em 5%, ou seja, "se assumirmos 70% de imunidade de grupo da variante anterior, esta, e outras semelhantes como a Indiana, implicarão uma imunidade de grupo de 75%".

Elisabete Ramos, presidente da Associação Portuguesa de Epidemiologia, diz mesmo que "não é necessário vacinar 100% das pessoas para proteger a população", sendo essa a "vantagem da imunidade de grupo".

"Para haver transmissão da doença é necessário que duas pessoas susceptíveis, uma doente e a outra susceptível de ficar doente, se cruzem. Quando temos um elevado número de pessoas não susceptíveis, porque foram vacinadas ou porque já tiveram a doença, mesmo não tendo todas as pessoas vacinadas, a probabilidade de duas pessoas susceptíveis se encontrarem nas condições que permitam a transmissão da doença é muitíssimo baixa", explica a epidemiologista.

Isto acontece, ressalva, se o motivo para não se ser vacinado for alergia a um dos componentes da vacina, uma vez que "as pessoas alérgicas tendem a não pertencer ao mesmo grupo", não se aplicando, no entanto, à fatia da população que escolhe não ser vacinada por questões pessoais, "uma vez que as pessoas que partilham estas características podem ter maior probabilidade de se cruzarem umas com as outras e assim aumentar a probabilidade de se cruzarem duas pessoas susceptíveis".

Por sua vez, Miguel Castanho, investigador do Instituto de Medicina Molecular (IMM) da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, esclarece que "não se pode falar em vacinar 100% da população em sentido estrito", até porque as vacinas "não foram testadas em ensaios clínicos para todos os subgrupos considerados 'especiais', como crianças e grávidas, por exemplo". Também por esta razão, explica o investigador, algumas vacinas são utilizadas em maiores de 18 anos, outras em maiores de 16 anos.

Castanho não deixa de considerar que "o ideal seria vacinar 100% da população por medida de precaução", mas há ainda pouco conhecimento acerca do "papel das crianças na transmissão do vírus".

"Em rigor, a meta do plano de vacinação é de 100% da população vacinável, não 100% da população total. Para crianças, estão a decorrer ensaios clínicos. A Food and Drug Administration (FDA) dos EUA deu recentemente luz verde à utilização da vacina Pfizer em crianças dos 12 aos 15 anos. É provável que o mesmo aconteça na Europa. É também provável que outras marcas testem as suas vacinas para faixas etárias mais novas. Portanto, não sabemos qual o efeito de deixar, para já, fora da vacinação crianças com menos de 10 anos", salienta.

Também Elisabete Ramos deixa em aberto quaisquer soluções para os grupos acima mencionados, uma vez que "tudo depende dos resultados que forem saindo para cada um destes grupos e da informação que se for sendo conhecida relativamente às características da doença, como por exemplo a severidade e consequências, em cada um destes grupos". Esta informação é necessária para poder fazer uma "avaliação dos riscos e benefícios relativamente às medidas a tomar", nomeadamente no que respeita a vacinar ou não vacinar fatias da população, explica a epidemiologista.

Já quanto às pessoas com alergia ou alguma contraindicação relativamente à toma da vacina contra a Covid-19, Ramos aponta para "um número pequeno" que acabará por "beneficiar da imunidade de grupo".

Também Miguel Castanho refere, desta feita em relação às crianças, que "numa população envelhecida como a europeia, em particular, como a população portuguesa, o peso pode não ser grande" e que, neste sentido, "a vacinação das crianças até 10 anos pode não ter grande impacto para já".

Quanto às grávidas, serão necessários "testes específicos", sendo que até lá, e por precaução, "as vacinas não devem ser administradas nesta subpopulação". Ainda assim, e atendendo ao facto de a gravidez ser uma condição temporária, a não vacinação deste grupo "não deve ter um impacto significativo nas metas do plano de vacinação", salienta o investigador.

"Se as pessoas vacinadas fossem 100% eficazes contra a infeção e a transmissão do vírus, estima-se que abaixo de 30% de pessoas não vacinadas (disponíveis para receber e multiplicar vírus) levariam a uma incapacidade do vírus se propagar o suficiente para manter a sua população (imunidade de grupo)", prevê Miguel Castanho.

Ainda assim, conclui o investigador, uma vez que as vacinas "não conferem essa proteção", o conceito não se aplica e é necessário "vacinar muitas mais para causar o mesmo efeito no vírus. Eventualmente nunca alcançaremos o ponto de extinção natural do vírus, que passará a conviver connosco, causando, nos vacinados, uma doença mais ligeira. Espera-se que o desenvolvimento de medicamentos venha ajudar a terapêutica nestes casos".

"Não há condições para vacinar 100% da população mundial", assegura Elisabete Ramos. Dessa forma, "não podemos imaginar que vamos 'acabar' com a pandemia, no sentido de eliminar completamente a transmissão de doença, uma vez que é expectável que o vírus continue a circular".

Ainda assim, Ramos diz mesmo que "o facto de haver circulação do vírus, desde que os mais susceptíveis estejam protegidos, até pode ser um aspeto positivo, uma vez que poderá contribuir para reforçar a imunidade da população".

Segundo Carlos Antunes, por forma a atingir este limiar seguro de proteção, e apesar de se estar a vacinar com uma dose as "pessoas que já foram infetadas há mais de seis meses, a percentagem de vacinação deve ser igual à imunidade de grupo menos a percentagem de pessoas já infetadas. Ou seja, com o número de infetados actual teríamos que ter 75% - 8,3% = 66,7% de pessoas vacinadas (ou seja, 2/3 da população portuguesa)".

Além disso, alerta o matemático, há que "considerar que a taxa de cobertura vacinal deve ser próxima de 100% nos grupos de risco e nas faixas etárias de maior risco, para prevenir situações de doença grave".

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