É considerado o estudo mais abrangente sobre crianças infetadas com o novo coronavírus - envolveu 192 jovens até aos 22 anos - e concluiu que a carga viral nas crianças contaminadas pelo SARS-CoV-2 é maior do que a dos adultos hospitalizados nas Unidades de Cuidados Intensivos para tratamento da Covid-19, mesmo que estas permaneçam assintomáticas.

A investigação, desenvolvida por um grupo de investigadores do hospital pediátrico e do Hospital Geral de Massachusetts, nos Estados Unidos, deixa mesmo um alerta: as crianças têm de ser consideradas como um veículo significativo de transmissão da doença. 

Investigação realizada por médicos norte-americanos deixa um alerta: as crianças têm de ser consideradas como um veículo significativo de transmissão da doença. 

“Durante esta pandemia da Covid-19 examinámos principalmente pessoas sintomáticas, pelo que chegámos à conclusão errada de que a grande maioria das pessoas infetadas são adultos. No entanto, os nossos resultados mostram que as crianças não estão protegidas contra este vírus. Não devemos descurar as crianças como potenciais propagadores do vírus”, advertiu Alessio Fasano, um dos autores do estudo.

O que significa carga viral? Qual a sua importância? O Polígrafo responde-lhe a três perguntas fundamentais para compreender o tema. 

1. O que é a carga viral e qual o impacto que tem na propagação da Covid-19?

“A definição de carga viral remete para a quantidade de vírus que existe numa amostra”, explica ao Polígrafo Nuno Saraiva, professor de virologia na Universidade Lusófona. “Quando falamos de carga viral geralmente tendemos a falar de cargas virais de vírus infeciosos. No entanto, muitas vezes [este conceito] é de difícil determinação e, portanto, acaba-se a falar de algo que permite quantificar a carga viral possível”, acrescenta.

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créditos: Pixabay/ Gerd Altmann

Um indivíduo que tenha uma elevada carga viral pode tornar-se mais propício a contaminar outras pessoas, uma vez que existe um maior número de vírus nas gotículas que emite durante a respiração, fala, tosse ou espirros. Um fator que, “provavelmente, vai aumentar o risco de infeção”, esclarece o virologista, que usa o ato de tentar derrubar uma muralha com pedras como exemplo: “Não vai ser à primeira ou à segunda pedra, vai ser preciso atirar várias. Se calhar não vai ser a primeira partícula viral ou a segunda, é uma questão de probabilidade.” Ou seja, como explica Nuno Saraiva, “quanto maior o número de vírus e quanto mais tempo o indivíduo estiver exposto aos mesmos, maior a probabilidade de ficar infetado. E, claro, isso estará relacionado com a carga viral do indivíduo que produz os vírus”.

O tempo de contacto necessário, a quantidade de vírus precisa ou a distância física exacta para que um indivíduo seja contaminado ainda não são conhecidos com precisão científica. A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda, desde o início da pandemia provocada pelo novo coronavírus, que se mantenha um afastamento de pelo menos um metro da outra pessoa, mas, recentemente, também admitiu a possibilidade de o vírus se transmitir por aerossóis – que, por serem mais leves, podem chegar mais longe. Esta última possibilidade, no entanto, requer mais investigações. 

2. O uso de máscara reduz a carga viral e provoca mais infeções assintomáticas?

A utilização da máscara tem sido promovida pelas autoridades de saúde como uma forma de proteger a comunidade da propagação do vírus. As gotículas emitidas durante a respiração, fala, tosse ou espirros são a principal forma de contágio identificada pela OMS de propagar o SARS-CoV-2.  Com a máscara, um indivíduo contaminado não está a propagar o novo coronavírus e, consequentemente, uma pessoa saudável também fica menos exposta ao contágio. É preciso ter em conta, ainda assim, que há máscaras com diferente capacidade de filtração e que esta não é garantida a 100%. 

Segundo as informações técnicas publicadas pelo Infarmed e pela Direção-Geral da Saúde (DGS), as máscaras para “contactos pouco frequentes” – feitas com tecido – têm de ter um desempenho mínimo de filtragem de 70%, enquanto as máscaras para “contactos frequentes com o público” devem ter uma filtração mínima de 90%.

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créditos: Pixabay

“O que a máscara faz é criar uma barreira”, explica o professor universitário. “A carga viral das partículas que são produzidas não muda devido ao uso da máscara”, mas com este mecanismo de proteção estas também não são projetadas. 

Um estudo publicado a 31 de julho na Springer coloca a hipótese de a utilização de máscara diminuir o desenvolvimento de formas mais gravosas da doença devido à diminuição da carga viral. Uma situação que, segundo defendem os autores, aumenta o número de assintomáticos. 

No artigo, explica-se inclusivamente que a teoria que defende que a exposição a uma menor dose de qualquer vírus, seja respiratório, gastrointestinal ou sexualmente transmitido, pode tornar a doença menos severa "foi proposta há algum tempo”.

No entanto, os estudos utilizados para suportar essa teoria “têm limitações, uma vez que as experiências para examinar a dose de vírus para atingir a sua LD50 [ndr: a dose letal mediana, ou seja a quantidade de uma substância que é necessária para matar 50% da amostra] tem necessariamente de não ser conduzida em humanos”.

3. Maior carga viral implica uma doença mais grave?

A relação não é linear, mas é consensual entre os investigadores que existe uma diferença entre os assintomáticos e os sintomáticos: “Os pacientes que são assintomáticos têm cargas virais geralmente mais baixas”, avança Nuno Saraiva, que garante, ainda assim, que não se “pode ser taxativo” ao estabeleceram-se estas relações. 

Além disso, defende o professor universitário, a carga viral não determina o nível de sintomatologia do paciente, nem significa que se vá “ter um prognóstico muito mau”.

A carga viral não determina o nível de sintomatologia do paciente, nem significa que se vá “ter um prognóstico muito mau”, garante o professor universitário Nuno Saraiva.

Uma revisão de estudos desenvolvida pelo Centro para a Medicina Baseada na Evidência, da Universidade de Oxford, concluiu que uma maior carga viral de SARS-CoV-2 poderá significar “resultados piores” e que “a quantidade de exposição ao vírus no início da infeção – a dose infeciosa – pode aumentar a severidade da doença”. No entanto, os autores deixam um alerta: “A evidência de uma relação é limitada pela pobre qualidade de muitos dos estudos, a retrospetiva da natureza dos estudos, as amostras de pequeno tamanho e o potencial problema de seleção tendenciosa”.

Saraiva refere, citando um estudo sobre imunidade publicado na revista Science Daily em maio, que a intensidade da Covid-19 está “mais relacionada com o tipo de resposta do hospedeiro e menos com a carga viral”.

“Aquilo que se percebeu até agora é que as progressões menos favoráveis – as pessoas que ficam mais doentes – estão geralmente relacionadas não com o número de vírus em circulação, mas com a resposta imunitária do paciente. Ou seja, é o próprio sistema imunitário do paciente que acaba por causar os sintomas, a patologia e os próprios danos no sistema”, sublinha Saraiva.

Quando o organismo é atacado por um vírus ou uma bactéria desperta uma resposta do sistema imunitário que tem como objetivo defender o paciente. Porém, em certas situações, o ataque é feito às células infetadas com o vírus, causando lesões no tecido celular dos órgãos.  Quando esta reação do organismo a uma infeção é exacerbada atribui-se o nome de “tempestade de citocinas”. Esta resposta desregulada do sistema imunitário pode causar uma hiperinflamação ou, em muitos casos, a morte.

É também preciso ter em conta que doenças prévias como a diabetes foram identificadas como fatores para que a Covid-19 seja mais agressiva em alguns pacientes.

 

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