"Uma dimensão de crença que é até semelhante à crença religiosa", é desta forma que David Marçal, bioquímico e autor de vários livros sobre divulgação de ciência, descreve as convicções anti-vacinas e negacionistas, quer da Covid-19, quer da ciência em geral.

O bioquímico ressalva, antes de tudo, que "não existem muitas pessoas negacionistas e anti-vacinas em Portugal, uma vez que temos uma das taxas de vacinação mais elevadas do mundo". Considera então ser "necessário ter azar para ter um negacionista anti-vacinas na família".

"Em geral, os negacionistas não são sensíveis aos factos nem à razão. Por isso, o diálogo depende muito da dinâmica da família e das relações. Diria que está aqui em causa uma negociação, numa tentativa de acomodar as necessidades de todos", afirma Marçal que sugere como linha de argumentação possível "a lógica do pior cenário na hipótese de estarmos certos ou errados sobre a pandemia".

"O pior cenário de ter estes cuidados é algum incómodo, o estar de máscara, fazer um teste PCR ou antigénio sujeitando-nos a um desconforto com uma zaragatoa. O pior cenário, no caso de estarmos certos sobre a pandemia e de serem de facto necessárias medidas para a conter, é que existam consequências negativas para o SNS e para algumas pessoas mais frágeis que poderão ter complicações da doença", explica.

Contactado pelo Polígrafo, Fernando Magalhães, psicólogo clínico especialista em terapia cognitivo-comportamental, esclarece que, na hipótese de existirem familiares com visões diferentes sobre vacinas e outros aspetos da gestão da pandemia, é necessário ter em conta "que todos temos algum viés", quer estejamos a favor ou contra determinado assunto, sendo certo que "alguns podem ser confirmados pelas evidências e outros não".

O psicólogo garante que "quando as pessoas já tomaram certas posições, quando já decidiram e já opinam de uma forma muito definida, não será muito provável que mudem de perspetiva apenas porque outros os tentam convencer".

A certeza dos especialistas: "A mudança de opinião não vai acontecer porque é Natal"

Fernando Magalhães entende que não será este o momento ou a época que vai, por milagre, favorecer a alteração de comportamentos ou opiniões sobre a pandemia de Covid-19, a quem a nega ou lhe subtrai gravidade.

"As pessoas vão estar abertas à mudança em alturas que nós não controlamos. Portanto, é claramente preferível separar esta altura e deixar viver o Natal, evitando confrontos ou discussões ao tentar convencer alguém a ter outra perspetiva. Se criarmos estas hipóteses de discussão o mais provável é criar mais animosidades e até associar o Natal a um sentimento negativo", afirma o especialista em psicologia.

Na mesma linha de pensamento, Alexandra Alvarez, terapeuta familiar, é perentória ao afirmar que "a mudança de opinião não vai acontecer porque é Natal".

"Este não será um período em que se devam elevar expectativas de mudança, devemos então acolher as diferentes opiniões e respeitá-las. Todas as famílias sabem que quando há diferenças de opinião em dado tema o melhor é não aborda-lo. Penso na política e no futebol como dois temas fraturantes. A opção de aderir às recomendações de saúde passa a ser outro", garante.

No entanto, a terapeuta alerta para os impedimentos que podem surgir desta divergência, nomeadamente na "afetividade e proximidade aos outros" o que poderá gerar "incompreensões diferentes, mais na linha da desvalorização, de sentir que o outro não nos respeita, ou não nos ama o suficiente para fazer esse 'sacrifício' por nós"

E se chegar a esse ponto. Como deve ser gerido um conflito ou discussão sobre o tema?

Para Fernando Magalhães, nos casos em que já esteja a decorrer uma discussão é essencial ter em conta dois aspetos: "não personalizar o conflito e manter a cabeça fria".

"A tendência que temos é a de ver uma opinião diferente da nossa como um ataque pessoal e não há aqui nada para ser personalizado, as opiniões são isso mesmo, são perspetivas e não devem ser encaradas como uma ofensa ou ataque pessoal deliberados", explica o psicólogo que admite que possam ser apresentados factos ou evidências, mas apenas com o intuito de os colocar em cima da mesa, "sem nunca tentar convencer ou vender muito o nosso ponto de vista, uma vez que isso gera, normalmente, mais resistência do outro lado".

A terapeuta Alexandra Alvarez destaca a importância da empatia e do exercício de nos colocarmos no lugar do outro. "A flexibilidade, o carinho, o cuidado e o respeito são fundamentais, claro que com a salvaguarda dos limites de cada um", explica.

"Temos que pensar que isto não é sobre nós, é sobre esse outro, é sobre o que ele sente sobre este assunto, é sobre as suas dúvidas. O convite é que consigamos escutar o seu ponto de vista e encontrar soluções e consensos que não comprometam os limites que cada um impõe", sugere ainda a especialista.

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