Um novo plano de desconfinamento da população, supostamente elaborado pelo Governo, circulou online no dia 25 de fevereiro. Em formato PDF, o documento apresentava as medidas que iriam permitir o regresso de várias atividades - das escolas à restauração - entre 15 de março e 3 de maio. Uma investigação do Media_Lab do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do  Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) indica que o documento falso começou a ser distribuído inicialmente através de grupos de WhatsApp - uma rede social fechada -, tendo a sua “aparição pública no Twitter através da partilha por vários jovens estudantes preocupados com o regresso às aulas”.

O alegado plano de desconfinamento foi considerado um case-study por se tratar “um assunto que apela diretamente à totalidade da população, enquanto que a desinformação tende a ser, na maioria das vezes, centrada em temáticas que se direcionam para apenas uma parte”, como sejam apoiantes de um partido, negacionistas da Covid-19, entre outros, com o objetivo de criar “conflitualidade mútua”. Além disso, explicam os elementos do MediaLab CIES_Iscte, a desinformação dirigia-se ao Governo de Portugal, um “alvo máximo” e com elevado poder de resposta para desmentir a notícia. O documento contrariava ainda toda a informação que tinha sido noticiada pelos meios de comunicação, o que criaria um “forte envolvimento jornalístico na análise e possível desmentido”. O conhecimento dos destinatários do documento originou também que estes partissem para “a busca individual e institucional da confirmação ou desmentido do documento”. 

O alegado plano de desconfinamento foi considerado um case-study por se tratar “um assunto que apela diretamente à totalidade da população, enquanto que a desinformação tende a ser, na maioria das vezes, centrada em temáticas que se direcionam para apenas uma parte”, como sejam apoiantes de um partido, negacionistas da Covid-19, entre outros, com o objetivo de criar “conflitualidade mútua”.

Com o objetivo de analisar a propagação do documento falso pelas redes sociais, os investigadores recolheram todas as publicações sobre o tema durante um período de 24 horas, entre as 11h00 de dia 25 e as 11h00 de dia 26 de fevereiro, nas redes sociais públicas: Twitter, Facebook e Instagram. O WhatsApp foi deixado de fora por ser uma rede fechada que não permite aceder a esses dados. Foi igualmente realizado um inquérito, entre dia 25 e 28 de fevereiro, com o objetivo de aferir como cada participante tinha recebido ou visto o suposto plano de desconfinamento. 

A cronologia de um plano falso

Durante as referidas 24 horas, assegura o MediaLab CIES_Iscte, foram publicados “480 tweets originais usando essa expressão (4219, incluindo retweets), 251 publicações de páginas de Facebook e 19 publicações de Instagram”. Um número que pode ser superior uma vez que muitas publicações foram apagadas, incluindo pelo próprio Facebook, após o desmentido. “Curiosamente, esse conteúdo continua disponível no WhatsApp, o que estabelece bem a diferença entre uma rede aberta (Facebook, Instagram ou Twitter), onde a plataforma pode eliminar conteúdos suspeitos e uma rede fechada e encriptada (como o WhatsApp), onde só os utilizadores podem fazê-lo”, explicam os investigadores. 

Durante as referidas 24 horas, assegura o MediaLab CIES_Iscte, foram publicados “480 tweets originais usando essa expressão (4219, incluindo retweets), 251 publicações de páginas de Facebook e 19 publicações de Instagram”. Um número que pode ser superior uma vez que muitas publicações foram apagadas, incluindo pelo próprio Facebook, após o desmentido.

No Twitter, segundo o relatório, “o primeiro tweet sobre o plano de desconfinamento foi publicado, sem foto, às 11h15 e, dos 20 primeiros tweets publicados cronologicamente sobre o tema, entre as 11h15 e as 12h21, 13 são de crença no documento, mas 7 já são de desconfiança ou mesmo desmentido. O primeiro tweet que lança essa dúvida surge logo às 12h01, no qual uma utilizadora diz ‘parem d espalhar mentiras se eles já tivessem um plano d desconfinamento diziam oficialmente, não o espalhava em grupos de adolescentes’”.  

Nesta rede social, segundo a investigação, o primeiro “desmentido taxativo é dado a título particular por uma jornalista da SIC Notícias, às 12h09, embora sem qualquer anexo ou informação adicional. O Vost.pt, associação de voluntários digitais em situações de emergência, respondeu ao pedido de esclarecimento de alguns utilizadores e publicou o primeiro desmentido com fundamentação oficial às 12h11. O primeiro desmentido de um órgão de comunicação social surge apenas às 12h35, pelo Diário do Distrito, enquanto que o primeiro tweet oficial, da conta do Governo, surge às 13h01. “O último tweet com o plano falso é publicado às 12h45, poucos minutos depois de o desmentido ter começado a circular. A partir daí, não encontramos mais nenhum tweet que se tenha deixado enganar pela imagem forjada”, revela a equipa de investigação.

No Facebook, e tendo em conta que alguns posts podem ter sido apagados, a investigação indica que “as primeiras publicações com a informação falsa de um plano de desconfinamento apareceram às 12h05” de 25 de fevereiro. “As primeiras páginas a partilhar a informação falsa no Facebook foram páginas ligadas ao mundo local, incluindo algumas câmaras municipais: a página do jornal O Caminhense foi a primeira a divulgar, mas nos partilhadores iniciais estava também a página da Câmara Municipal de Castelo de Vide. O Notícias ao Minuto e o Diário do Distrito foram os dois primeiros a dar o desmentido nas suas páginas de Facebook, seguidos do Público, NiT e Renascença”, lê-se no documento. 

A última publicação que propaga o engano é publicada igualmente às 12h45 - todas as que se seguem desmentem o conteúdo do plano. Às 13h02, o Governo lançou o desmentido na página oficial no Facebook. 

No Instagram, avança a investigação, “as publicações que terão eventualmente propagado o plano falso foram apagadas - pelos utilizadores ou pelo próprio Facebook [ndr: enquanto empresa que detém o Instagram] - antes que fosse possível realizar a recolha. Entre as que ficaram publicadas, o destaque vai também para a publicação oficial do Governo, que surgiu às 13h02 e registou 17457 likes e 257 comentários, muito longe de qualquer outra publicação sobre o tema neste período de 24 horas”. 

O assunto ficou encerrado quando, às 17h40 de 26 de fevereiro, o primeiro-ministro, António Costa, anunciou que o verdadeiro plano de desconfinamento seria apresentado a 11 de março. 

A origem da desinformação 

O inquérito lançado pelo MediaLab CEIS_ISCTE recebeu 3350 resposta: 2913 (87%) confirmaram ter tido contacto com o documento falso. A recolha de informação permitiu concluir também que “o WhatsApp foi a plataforma cujo maior número de participantes indicou ter sido aquela através da qual receberam/ viram o conteúdo desinformativo pela primeira vez”. Foram 1968 (68,10%) os participantes que se cruzaram com o rumor através desta aplicação de conversação, sendo que mais de metade (52,3%) o receberam através de um grupo. 

O recurso ao WhatsApp como meio através do qual circula conteúdo desinformativo tem vindo a ganhar destaque. Tal deve-se ao número crescente de utilizadores e ao número de países onde está presente, à sua adoção como meio preferencial para comunicar, ao facto de as mensagens serem encriptadas (não sendo possível a sinalização e/ ou retirar conteúdo passível de ser desinformativo), a à ação mais ativa de outras plataformas, como Facebook e Twitter, no combate ao conteúdo desinformativo. O WhatsApp apresenta-se, assim, como meio alternativo para a circulação de desinformação”, alertam os investigadores.  

“O recurso ao WhatsApp como meio através do qual circula conteúdo desinformativo tem vindo a ganhar destaque. Tal deve-se ao número crescente de utilizadores e ao número de países onde está presente, à sua adoção como meio preferencial para comunicar, ao facto de as mensagem serem encriptadas (não sendo possível a sinalização e/ ou retirar conteúdo passível de ser desinformativo), a à ação mais ativa de outras plataformas, como Facebook e Twitter, no combate ao conteúdo desinformativo. O WhatsApp apresenta-se, assim, como meio alternativo para a circulação de desinformação”, alertam os investigadores.  

Neste ranking de propagação da informação falsa, seguiu-se o Facebook (15%), o Instagram (10,7%) e o Twitter (2,4%). 

Igualmente analisado foi o número de vezes que os participantes no inquérito viram o falso documento. “Quanto à frequência com que os respondentes contactaram com o conteúdo, 42,4% (1237) indicou que apenas o recebeu/ viu uma vez, 27,1% (788) 2 vezes, 14,6% (425) 3 vezes, e 15,9% (463) mais de 3 vezes. Os investigadores salientam que “estes dados não só apontam a circulação e distribuição do conteúdo, mas também o seu potencial viral (indicado pelos múltiplos contactos), o que é confirmado por mais de 57% terem recebido o conteúdo múltiplas vezes”.

Igualmente de destacar que, “entre os 2913 participantes que indicaram que tinham recebido/ visto o conteúdo desinformativo, 95,7% (2787) respondeu afirmativamente a ter também recebido/ visto o desmentido”. Ou seja, apenas 4,3% (126) dos participantes “acabaria por, até ao momento em que respondeu ao questionário, não ter sido impactado pelo desmentido”. 

Também neste caso o “WhatsApp foi de novo apontado como a plataforma mais comum (51,5%) através do qual os participantes receberam/ viram o desmentido, seguindo-se o Facebook (33,4%) e o Instagram (26,5%)“. De acordo com a investigação, “no contexto do desmentido, variados órgãos de Comunicação Social são diretamente indicados” por quem respondeu ao inquérito. 

Os dados recolhidos permitem concluir que 29,9% dos participantes tiveram conhecimento do desmentido  “até dez minutos” depois de terem visto o documento falso. Para os investigadores, “é particularmente relevante que quase um terço dos respondentes acedeu ao desmentido menos de 10 minutos após receber a desinformação, o que denota preocupação em confirmar a informação recebida. E, no espaço de 30 minutos, já se aproximava dos 60% os que tinham confirmado a informação falsa, sendo que ao fim de uma hora essa percentagem subiu para 74,2%”. 

Para o MediaLab CIES_ISCTE, “a importância de identificação de conteúdo desinformativo, a sua sinalização e/ ou eliminação é fundamental para desacelerar a sua propagação. Neste contexto o fact-checker Polígrafo viria, após verificar a informação, a classificar o conteúdo como falso horas depois de este ter começado a circular”. Uma verificação de factos que pode ler aqui. 

“Foi esta combinação de intervenientes que permitiu balizar, para referência futura, cerca de uma hora como o intervalo de tempo disponível para desmentir, criar uma contranarrativa e parar a propagação de uma mensagem falsa. Será esse o tempo necessário para que os processos de viralidade da contranarrativa se imponham, dado que a maioria das pessoas (60%) referiu terem decorrido entre 10 e 30 minutos entre a visualização da desinformação e o seu desmentido”, concluíram os investigadores. 

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