O advento das novas vacinas contra a Covid-19 foi visto como uma esperança para superar a pandemia que já causou mais de dois milhões de mortos ao nível global. Mas não por todos, pois há quem pense que as vacinas não são seguras e recusa tomá-las. Os movimentos anti-vacinas têm vindo a ganhar uma maior expressão ao longo dos últimos anos, utilizando as redes sociais para chegarem a mais pessoas.

As autoridades de Saúde internacionais consideram que o aumento do número de pessoas a recusar tomar vacinas é preocupante e está na base do reaparecimento de doenças já erradicadas. Um exemplo disso é o surto de sarampo, em 2019, que levou à morte de mais de 60 pessoas nos Estados Unidos da América (EUA). O surto também chegou à Europa, não tendo grande incidência em Portugal, onde a doença foi eliminada desde 2015 e os surtos de sarampo são pontuais. Um ano antes deste surto foi registado em Portugal um pico de 171 casos confirmados de sarampo.

A exposição a conteúdos de desinformação é um factor que aumenta a desconfiança em relação às vacinas. Os fact-checkers, as universidades e as organizações de Saúde assumiram um papel importante na prevenção de propagação de conteúdos falsos associados ao movimento anti-vacinas. As conclusões são apresentadas num estudo realizado pela Universidade da Califórnia em 2018, publicado recentemente no jornal Preventive Medicine, no qual se destaca que a classificação de "falso" atribuída a essas publicações nas redes sociais contribui de forma positiva para uma maior aceitação das vacinas.

Partindo do pressuposto, já identificado em estudos anteriores, de que "a exposição a desinformação é entendida como sendo uma ameaça iminente que pode influenciar negativamente a decisão sobre a vacinação", os investigadores criaram uma experiência para analisar se os alertas de fact-checks aplicados a informações falsa contrariam esta tendência.

Para participar neste estudo foram selecionados 3.282 utilizadores norte-americanos da base de dados Dynata, sendo excluídos os que manifestaram ser favoráveis à vacinação, uma vez que o objetivo desta experiência consistia em analisar o comportamento dos utilizadores mais cépticos. No total, 1.189 participantes, com uma média de idades a rondar os 41 anos, concluíram os inquéritos do estudo.

A equipa de investigadores criou uma plataforma semelhante ao Twitter e selecionou cinco mensagens com informações falsas sobre os efeitos negativos associados à toma das vacinas contra a gripe, o HPV, o Zika, e outras doenças. A essas informações foram associados 13 alertas de desinformação. Os rótulos de "falso" tinham associados logótipos que permitiam ao utilizador identificar a fonte do fact-check, organizados em cinco categorias: algoritmos, instituições de Saúde, meios de comunicação noticiosos, plataformas de fact-checking e universidades de investigação.

Dos 1.198 participantes, 130 foram considerados como grupo de controlo e, por isso, expostos apenas aos cinco conteúdos falsos. Os restantes tiveram contacto com um conjunto aleatório composto por 65 publicações rotuladas segundo as diferentes categorias estabelecidas e os cinco conteúdos falsos (sem qualquer classificação).

"Encontrámos um efeito significativo das classificações de fact-checking, de tal forma que aqueles que foram expostos a estas classificações tiveram uma atitude mais positiva perante as vacinas do que o grupo de controlo", concluíram os investigadores. Este efeito "foi similar para participantes com elevado ou baixo nível de cepticismo de base", incluindo em participantes com elevados níveis de ideologia de conspiração. Os participantes consideraram as classificações das instituições de Saúde e das universidades de investigação como sendo as mais especializadas para verificar a informação, o que levou a uma maior confiança na vacinação.

Segundo os investigadores, "este projeto mostra que ver uma classificação de fact-checking imediatamente abaixo da publicação com desinformação pode tornar os utilizadores mais favoráveis às vacinas". Consideram também que esta prática pode ser "uma forma económica de lidar com a desinformação nas redes sociais".

O estudo não analisa, contudo, se esta alteração perante as vacinas se mantém a longo prazo. Os investigadores sugerem que seja realizada uma investigação longitudinal para averiguar essa questão. A equipa da Universidade da Califórnia identifica ainda outras limitações ao estudo: a primeira diz respeito à amostra utilizada que não representa o público norte-americano no seu todo e poderá incluir pessoas que passam mais tempo online do que a média; a segunda tem a ver com a plataforma criada especificamente para este estudo que apenas expõe os utilizadores aos conteúdos de desinformação, não representando uma utilização natural das redes sociais, nem tendo em conta a publicação de conteúdos falsos por familiares e amigos.

Apesar dos movimentos anti-vacinas, a taxa de cobertura em Portugal continua a ser bastante elevada, chegando 97% da população em 2019. No que respeita às novas vacinas contra o coronavírus, ainda não há dados sobre os níveis de aceitação, mas está em curso um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto sobre essa temática.

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