Mais de 30% da população portuguesa já recebeu pelo menos a primeira dose da vacina contra a Covid-19, ao passo que quase 12% da população já foi completamente inoculada. Em Portugal, a obrigatoriedade do uso de máscara em espaços públicos nunca foi levantada desde a aplicação da primeira lei a apontar nesse sentido, publicada a 27 de outubro de 2020, no Diário da República.

A primeira renovação deste diploma fez com que os portugueses com mais de 10 anos tivessem que usar máscara facial na rua até ao final de março deste ano. Nessa altura, os casos tinham diminuído significativamente e o país tinha já 12% de vacinados com pelo menos uma dose. Ainda assim, contrariamente às expectativas, o Parlamento voltou a aprovar a renovação do uso obrigatório de máscara em espaços públicos por mais 70 dias. Este é o período em que nos encontraremos, pelo menos, até junho de 2021.

O Polígrafo contactou vários especialistas com o objetivo de obter respostas a quatro perguntas:

1. É possível começar a pensar em abandonar o seu uso, num momento em que temos cerca de 30% da população com pelo menos uma inoculação e quase ausência de mortes?

Paulo Paixão, Presidente da Sociedade Portuguesa de Virologia, afirma ao Polígrafo que só “lá para a frente” é que poderemos colocar essa hipótese em cima da mesa para toda a população. “Mas o ‘lá para a frente’ nunca vai ser antes do Verão. Nem pensar”, salienta.

Miguel Castanho, investigador do Instituto de Medicina Molecular (IMM) da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, defende que se deve considerar esta medida “apenas quando o plano de vacinação estiver terminado”, e que “é possível que essa meta se alcance no outono, altura em que saberemos se, na realidade, a vacinação está ou não a resultar como se espera".

Para o investigador, por volta do outono “já estaremos tão próximos dos 100% vacinados quanto humanamente possível", permitindo esse relaxamento. Miguel Castanho acrescenta ainda que se seguirmos essa via "não se colocam questões de equidade entre vacinados e os ainda não-vacinados e já teremos chegado ao ponto em que diremos que, na prática, não poderemos melhorar muito mais”.

Avaliação do Polígrafo: Falso.

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2. Os 70% de vacinados são um indicador fiel sobre a imunidade de grupo a partir da qual se pode deixar as máscaras?

Portugal tem, até ao momento, um terço da população vacinada com pelo menos uma dose da vacina contra a Covid-19, mas, para já, de pouco importa olhar para estes dados, afirma o virologista Paulo Paixão.

“As regras [relativas ao uso de máscara], nesse aspecto, têm que se manter. Nesta fase, e ainda durante muito tempo, vão ter que ser avaliadas do ponto de vista individual. Isto é, quem está vacinado com as duas doses, 15 dias depois da segunda dose poderá abdicar do uso de máscara”.

Assim, Paixão considera que, embora estejamos a caminhar para percentagens elevadas de população vacinada, o caminho não passa, para já, por liberar a circulação sem máscara a toda a população. Antes pelo contrário.

“Isto tem que decorrer numa base individual: quem está vacinado, na minha opinião, acho bem que comece a preparar o avanço para dar esse passo”, reitera. Mas ressalva que, num plano geral, este avanço não deverá ser feito ainda durante este Verão, uma vez que “estaríamos a misturar pessoas vacinadas com pessoas não vacinadas”.

João Gonçalves, professor da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa e diretor do Instituto de Investigação do Medicamento (IIM), reconhece, por sua vez, que "têm de continuar a ser feitos testes para avaliar taxas de infeção e analisar o aparecimento das variantes virais". Significa isto, explica o especialista, que "não podemos deixar somente as máscaras quando o número mágico dos 70% é atingido. Só quando este conjunto de fatores existir é que poderemos considerar eliminar a máscara".

Ricardo Mexia, epidemiologista e presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, acredita que, não sendo possível ter a população toda vacinada "tão rapidamente", à medida que as pessoas mais vulneráveis forem "protegidas, as medidas individuais podem ir sendo reduzidas" e, assim sendo, "independentemente de estar toda a gente protegida, do ponto de vista coletivo poderá fazer sentido haver uma redução dessas medidas individuais onde se incluem as máscaras".

Numa lógica de grupo, poderíamos considerar a imunidade como o critério crucial para que algumas restrições sejam abandonadas. Mas também esta fasquia causa divergência entre os especialistas. Paulo Paixão, por exemplo, desacredita os "70%". Segundo o virologista, este valor "sempre foi calculado segundo o pressuposto de que tudo correria bem, de que as vacinas seriam extremamente protetoras - e são - mas, nomeadamente, que permitiriam também travar a transmissão".

Ora, este facto "não foi comprovado", ainda que "haja dados recentes relativamente à vacina da Pfizer que mostram que, além de proteger de infeção grave, que todas protegem, também protege substancialmente de infeção ligeira e da transmissão". Mas este panorama não abrange todas as outras vacinas, pelo que, defende Paixão, "os 70% podem não ser 70%. Isto para não falar na questão das variantes".

Também Ricardo Mexia esclarece um "equívoco" em relação a este valor: "Os 70% não são a imunidade de grupo, a imunidade de grupo atinge-se ou atingir-se-á com um determinado nível de cobertura vacinal, que nós ainda não conhecemos exatamente qual é".

Avaliação do Polígrafo: Falso.

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3. Os países com processos de vacinação mais avançados estão a largar as máscaras?

Em Israel, onde mais de metade da população está completamente vacinada, a obrigatoriedade do uso de máscara na rua caiu ainda em abril, mantendo-se a exigência em espaços fechados, como de resto acontece em vários outros países.

No Reino Unido, onde a vacinação vai avançada, as regras de distanciamento físico podem ser abandonadas já no final do mês de junho. Segundo declarações de Boris Johnson à Reuters, há uma “boa hipótese de se poder dispensar [a distância de] um metro ou mais”.

Esta descompressão é feita a meio gás também nos Estados Unidos da América (EUA), motivada pelas orientações do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC). No caso específico dos EUA, as pessoas vacinadas vão poder abdicar de máscaras faciais inclusivamente em alguns espaços fechados.

Em Portugal, o ritmo de vacinação tem permitido pensar em algumas hipóteses relativamente ao relaxamento na utilização de máscaras. Ao Governo foram entregues propostas com novas regras a serem aplicadas à medida que os cidadãos com mais de 60 anos são vacinados. Os autores, que elaboraram também o plano de desconfinamento, propõe cenários semelhantes aos adotados noutros países, privilegiando a população vacinada e pondo de lado o critério estatístico que envolve a imunidade de grupo.

Ao jornal Público, Raquel Duarte, uma das especialistas ouvidas pelo Governo, confirmou que a máscara e o distanciamento vão continuar a fazer parte da rotina dos portugueses, mas podem existir cenários diferentes para os já vacinados contra a Covid-19. Para isso, é necessário que se mantenha o ritmo de vacinação, a testagem em massa e as restantes medidas de proteção individuais.

Ao Polígrafo, Miguel Castanho refere que, "com o plano de vacinação completo e caso não exista um aumento significativo de novos casos problemáticos no outono, poderemos avançar para abdicar das máscaras". Neste momento, o especialista afirma que poderia até pensar-se em "flexibilizar o uso de máscaras ao ar livre, quando existe distanciamento, mas não em espaços fechados, sobretudo em eventos coletivos".

Avaliação do Polígrafo: Verdadeiro, mas...

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4. A utilização de máscara pode prolongar-se durante os próximos anos?

"Não. Isso não. Não estou nada à espera. Primeiro, as vacinas continuam a proteger, nas diversas variantes, de infeções graves. Aquilo que nós antevemos - e que é mais provável acontecer - é que, se verificarmos que a eficácia vacinal começa a diminuir, teremos que ser vacinados outra vez. Isso é o mais lógico", defende Paulo Paixão.

Ricardo Mexia vê a questão de outra forma, abrindo exceções para contextos em que "faz sentido que as pessoas utilizem máscara" durante algum tempo. Desde logo se estiverem sintomáticas, indica Mexia, "e portanto para evitar transmitir a doença a outros".

"O que me parece é que se nós olharmos para o que aconteceu, por exemplo, em relação à gripe, constatamos que, utilizando determinado tipo de medidas, conseguimos evitar a disseminação da gripe e, por isso, tivemos valores praticamente residuais este ano", explica o epidemiologista.

Apontando ainda para o uso de máscara na fatia da população mais vulnerável, Mexia prevê que haja "algumas circunstâncias em que as máscaras possam permanecer mesmo depois do fim da pandemia, mas para evitar outras doenças, como as respiratórias, onde se inclui a gripe. Portanto [a máscara] é eventualmente algo que pode vir a permanecer no nosso quotidiano. Obviamente não de forma universal, mas talvez nestes contextos que referi".

Avaliação do Polígrafo: Impreciso.

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