Denominado como "Papéis e dinâmicas de género em tempos de COVID-19: Mudanças e continuidades nos acordos de partilha de tarefas domésticas e de prestação de cuidados", o estudo relativo a 2020, assinado por Maria Helena Santos, Miriam Rosa, Rita Correia e Eduardo Xavier, todos investigadores, pretende contribuir para compreender os efeitos da pandemia de Covid-19 na partilha do trabalho não pago entre homens e mulheres a viver em casal, "percebendo se esta situação [confinamento] contribui para uma equidade das dinâmicas familiares, especialmente em situação de teletrabalho".

O Polígrafo contactou a psicóloga social e investigadora do Centro de Investigação e Intervenção Social do ISCTE, Maria Helena Santos, que enumera, além das principais conclusões, o processo de motivação que levou à realização do estudo, agora publicado na revista "Psicologia".

Incentivados por vários estudos nesse âmbito, que confirmavam a persistência de assimetrias na partilha das responsabilidades domésticas e na prestação de cuidados à família, embora esbatidas em casais mais jovens e qualificados, os quatro investigadores elaboraram um questionário, divulgado online, tendo recolhido dados de uma amostra de 128 portugueses heterossexuais, homens e mulheres.

O ponto de partida, esclarece Maria Helena Santos, foi perceber se, durante a pandemia de Covid-19, a situação acima descrita se teria agravado, "em particular, se considerarmos que durante o confinamento o recurso a ajudas externas foi limitado, sobrecarregando as famílias".

"Foi por essa razão que, em 2020, aproveitámos o primeiro confinamento para analisar essas novas dinâmicas familiares", conta ao Polígrafo Maria Helena Santos, uma das autoras do estudo.

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A análise incluiu, explica a investigadora, as "horas gastas por homens e mulheres nas tarefas domésticas e nos cuidados com a família, as perceções de justiça sobre a partilha destas tarefas e o impacto da Covid-19 no volume de horas percebidas", bem como uma abordagem sobre "quais foram as atividades mais difíceis de gerir durante o confinamento físico, devido à Covid-19".

Segundo o estudo, os dados foram analisados ​​considerando covariáveis ​​sociodemográficas, como a idade e as habilitações literárias, sendo que nenhuma delas revelou ter um impacto significativo nas variáveis analisadas.

O gráfico relativo às horas semanais gastas pelo parceiro em tarefas domésticas revela que os homens estimam que as suas parceiras dedicaram em média cerca de 12 horas semanais ao trabalho doméstico e à prestação de cuidados à família. Em sentido contrário vão as estimativas das mulheres, que atribuem aos parceiros menos horas de trabalho doméstico e prestação de cuidados (cerca de nove horas).

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Já do ponto de vista parental, é de notar que os participantes com filhos menores dedicaram consideravelmente mais horas à prestação de cuidados à família do que os participantes sem filhos. Há ainda uma discrepância no que respeita às horas que os participantes consideram que os parceiros dedicaram a essa função: pais de filhos menores estimam que os seus parceiros tenham gasto muito mais horas do que aqueles que não são pais, uma diferença de quase 10 horas.

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De um modo mais subjetivo, desta vez olhando à perceção de justiça na divisão de encargos domésticos, as mulheres admitiram realizar mais trabalho não pago do que seria justo, quer em tarefas domésticas, quer em prestação de cuidados à família. Já no que respeita aos participantes com crianças menores a seu cargo, estes referiram um aumento, relativamente ao período anterior à pandemia, nas tarefas de cuidados, em comparação com os participantes sem filhos, independentemente de serem homens ou mulheres.

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Relativamente a estes resultados, a investigadora refere que "corresponderam às expectativas": "A tendência de redução das assimetrias de género, que existia anteriormente, parece ter-se invertido com a Covid-19. A pandemia teve um impacto negativo nas dinâmicas de género, aumentando as desigualdades no trabalho não pago, o que é prejudicial para a sociedade e em particular para as mulheres", afirma ao Polígrafo Maria Helena Santos.

No que toca ao futuro, a investigadora confessa que as perspetivas "não são muito animadoras", principalmente se considerarmos a evolução registada neste tópico ao longo dos últimos anos e se a colocarmos frente a frente com a evolução verificada no mundo laboral, "que foi muito mais positiva".

"A tendência de redução das assimetrias de género, que existia anteriormente, parece ter-se invertido com a Covid-19. A pandemia teve um impacto negativo nas dinâmicas de género, aumentando as desigualdades no trabalho não pago, o que é prejudicial para a sociedade e em particular para as mulheres".

Ainda assim, Santos refere que o avanço ao nível do cuidado das crianças "está a ser mais positivo do que ao nível das tarefas domésticas", sendo que, "se é verdade que este problema deve ser resolvido no casal", é também "imperativo que o Governo e as empresas intervenham, dando visibilidade ao problema".

Esta visibilidade, defende a investigadora, passa por uma aposta na "consciencialização da sociedade e na elaboração de políticas públicas promotoras da igualdade", de forma a que "as mulheres não continuem a ser prejudicadas".

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