1594. É este o número de casos de violência contra pessoas idosas registado pela Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) em 2021. Isto significa que houve, em média, quatro vítimas por dia, e 31 por semana. No entanto, a organização acredita que os dados não representam totalmente a realidade, visto que “a violência contra idosos é invisível e tem uma dimensão mais alargada do que a que conhecemos”.

Quem o diz é Marta Carmo, jurista e representante da APAV, que, em entrevista ao Polígrafo a propósito do Dia Mundial da Consciencialização da Violência contra a Pessoa Idosa, sublinha que, no caso de Portugal, os números conhecidos permitem ver apenas “uma pequena parte do fenómeno”.

“A violência contra idosos é invisível e tem uma dimensão mais alargada do que a que conhecemos”.

Segundo a técnica da APAV, há várias razões que explicam o desconhecimento de grande parte dos casos e a principal prende-se com o perfil dos agressores: “As pessoas têm vergonha de admitir que são vítimas, por exemplo, dos seus filhos. Além disso, têm medo de represálias por parte dos agressores que, muitas vezes, são pessoas próximas, nomeadamente cuidadores ou familiares.”

Nesse sentido, um relatório elaborado pela associação sobre as pessoas idosas vítimas de crime e de violência entre 2013 e 2018 mostra que em 36,9% dos casos a vítima era pai ou mãe do agressor e que em 27,5% era cônjuge. Além disso, o mesmo documento mostra que 68,11% dos agressores eram homens, enquanto 78,95% das vítimas eram mulheres, e que a maior parte dos crimes (53%) aconteceu dentro da residência em que vítima e agressor coabitavam.

O que é necessário fazer para travar este tipo de violência?

Marta Carmo não deixa margem para dúvidas: “Falta criar uma intolerância por parte da sociedade em geral relativamente a este tipo de violência”. Segundo a representante da APAV, “tal como aconteceu com a violência contra as crianças e tal como tem vindo a acontecer com a violência contra as mulheres, é preciso alertar a sociedade para a gravidade deste problema”.

“As pessoas têm vergonha de admitir que são vítimas, por exemplo, dos seus filhos. Além disso, têm medo de represálias por parte dos agressores que, muitas vezes, são pessoas próximas, nomeadamente cuidadores ou familiares".

Para a técnica responsável pelo projeto “Portugal Mais Velho”, é necessário “não só repensar algumas das políticas públicas e dos apoios sociais e a forma como funcionam os cuidados de saúde, mas, acima de tudo, rever coletivamente a importância e o papel que atribuímos às pessoas idosas”.

No mesmo plano, a Organização Mundial de Saúde (OMS) lembra que “têm sido tentadas várias estratégias para prevenir e responder aos abusos dos idosos, mas as provas da eficácia da maioria destas intervenções são atualmente limitadas”.

No entanto, a OMS explica no seu site oficial que “as estratégias consideradas mais promissoras incluem intervenções de cuidadores, que fornecem serviços para aliviar o fardo da prestação de cuidados; programas de gestão financeira para adultos idosos vulneráveis à exploração financeira; linhas de ajuda e abrigos de emergência; e equipas multidisciplinares, uma vez que as respostas necessárias atravessam frequentemente muitos sistemas, incluindo justiça criminal, cuidados de saúde, cuidados de saúde mental, serviços de proteção de adultos e cuidados a longo prazo”.

É necessário “não só repensar algumas das políticas públicas e dos apoios sociais e a forma como funcionam os cuidados de saúde, mas, acima de tudo, rever coletivamente a importância e o papel que atribuímos às pessoas idosas”.

Apesar de admitir que “se sabe muito pouco sobre o abuso de idosos e sobre como evitá-lo”, a OMS e os seus parceiros publicaram um documento com cinco prioridades para o combate à violência contra idosos que passam por “combater o idadismo” (atitude preconceituosa e discriminatória com base na idade, sobretudo em relação a pessoas idosas), “gerar mais e melhores dados para aumentar a sensibilização para o problema”, “desenvolver e ampliar soluções rentáveis para acabar com os maus tratos a pessoas idosas, “fazer um caso de investimento centrado na forma como a resolução do problema é dinheiro bem gasto” e “angariar fundos à medida que são necessários mais recursos para enfrentar o problema”.

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