No dia 23 de abril de 2018, o príncipe William, duque de Cambridge e membro da família real britânica, visitou o Hospital de St. Mary, em Londres, onde a sua esposa Kate Middleton, duquesa de Cambridge, tinha acabado de dar à luz o terceiro filho do casal. Ao sair de um automóvel, o príncipe William fez um gesto com os dedos da mão direita na direção de um conjunto de fotógrafos que registava a efeméride.

A partir de um determinado ângulo, parecia ser um gesto obsceno, com o dedo do meio levantado. Essa imagem propagou-se velozmente nas redes sociais, disseminando o rumor de que estaria a insultar os fotógrafos concentrados à porta do Hospital de St. Mary. No entanto, mediante outras imagens captadas a partir de ângulos mais frontais verificou-se que o príncipe William - em segundo lugar na linha de sucessão ao trono britânico - tinha afinal erguido três dedos, sinalizando o terceiro filho que nascera nesse dia. Pura ilusão de óptica, ou um efeito de traição das imagens.

Salto temporal até ao dia 20 de outubro de 2019, em Portugal, com o primeiro-ministro, António Costa, e a ministra da Cultura, Graça Fonseca, a deslocarem-se até à vila de Vidago para participarem na cerimónia de inauguração da Casa-Museu João Vieira. Após uma visita guiada por Manuel João Vieira, músico, pintor e curador da exposição da obra de João Vieira (pintor e artista plástico falecido em 2009, pai de Manuel João Vieira), os dois governantes e também o presidente da Câmara Municipal de Chaves, Nuno Vaz, retiraram uma bandeira da República Portuguesa que cobria uma placa que assinala a inauguração da Casa-Museu.

Logo nos dias seguintes propagou-se nas redes sociais um vídeo captado durante a referida cerimónia de inauguração, no qual a ministra da Cultura parece deixar cair a bandeira no chão, de forma a poder bater palmas. No vídeo em causa, a partir do ângulo lateral em que foi filmado, parece que a bandeira é atirada para o chão. Trata-se, porém, de mais um efeito de traição das imagens, exponenciado pelos comentários que acompanham as publicações.

Visualizando um outro vídeo (transmitido via Sinal TV) que entretanto também está a circular nas redes sociais, com um ângulo de filmagem diferente, mais frontal, verifica-se que a ministra da Cultura larga a bandeira (tal como o primeiro-ministro, o autarca de Chaves e Manuel João Vieira, importa salientar) e a mesma acaba por ser segurada por um quinto elemento. Ou seja, a bandeira não caiu no chão.

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"Num dos livros de Vsevolod Illareonovitch Pudovkin sobre a arte da montagem, ele descreve uma certa experiência desenvolvida pelo seu professor, Lev Kuleshov. Vê-se um grande plano do ator russo, Ivan Mosjukhin. Este é imediatamente seguido do plano de um bebé morto. Voltamos a Mosjukhin e vemos a compaixão neste seu rosto. Em seguida, retiramos o bebé morto e mostramos um prato de sopa e então, quando voltamos a Mosjukhin, ele tem um ar faminto. Contudo, nos dois casos, utilizamos o mesmo plano do ator. O seu rosto é exatamente o mesmo", explicou Alfred Hitchcock, em diálogo com François Truffaut.

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Em que consiste ou como é que funciona a traição das imagens? Marcel Duchamp pegou num urinol, assinou-o e apresentou-o como uma obra de arte ready-made e não como o produto industrial e estandardizado que aparentava ser, enquanto objecto banal do quotidiano dos homens. René Magritte, por sua vez, num sentido mais ilusório do que conceptual, representou um cachimbo com uma legenda paradoxal: "Ceci n'est pas une pipe" ("Isto não é um cachimbo"). E, seguindo a mesma linha criativa, figurou um pintor (auto-retrato) a imaginar um pássaro enquanto observava um ovo imaculado.

Eis o paradigma da traição das imagens (além da pintura de Magritte, atente-se no cinema de Michelangelo Antonioni, sobretudo em "Blow-Up" de 1966), expressão cunhada pelo próprio Magritte, na senda do ready-made de Duchamp. Para melhor compreender os tempos hodiernos, pós-modernos, há que ter em atenção estas duas concepções artísticas que, no fundo, se complementam.

Ao que acresce a técnica da montagem, fundada na arte cinematográfica. "Num dos livros de Vsevolod Illareonovitch Pudovkin sobre a arte da montagem, ele descreve uma certa experiência desenvolvida pelo seu professor, Lev Kuleshov. Vê-se um grande plano do ator russo, Ivan Mosjukhin. Este é imediatamente seguido do plano de um bebé morto. Voltamos a Mosjukhin e vemos a compaixão neste seu rosto. Em seguida, retiramos o bebé morto e mostramos um prato de sopa e então, quando voltamos a Mosjukhin, ele tem um ar faminto. Contudo, nos dois casos, utilizamos o mesmo plano do ator. O seu rosto é exatamente o mesmo", explicou Alfred Hitchcock, em diálogo com François Truffaut.

O próprio Hitchcock aplicou esta técnica de montagem em "Rear Window" de 1954. Jeff, um fotógrafo que se encontra confinado a uma cadeira de rodas por ter partido uma perna, passa o Verão a observar vizinhos pela janela das traseiras. Hitchcock capta o plano de Jeff a olhar através da sua máquina fotográfica, passa para o plano de uma jovem bailarina a dançar e depois volta ao plano de Jeff. Vemos Jeff como um velho libidinoso. Hitchcock repete a sequência, mas substitui a jovem bailarina por uma mulher mais velha e solitária. Vemos Jeff transformar-se instantaneamente num romântico.

O pensamento crítico, a auto-defesa do cepticismo, a literacia mediática e o sentido de cultura visual são ferramentas essenciais na prevenção e combate às fake news que circulam nas redes sociais e demais páginas na Internet. E serão ainda mais importantes perante a torrente de vídeos deepfake que se avizinha. "Ver para crer" é um axioma que tenderá a tornar-se obsoleto. Não poderemos acreditar em tudo o que vemos.

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