Dylan D'Haeze tem 16 anos e um plano ambicioso para 2020, ano de eleições nos Estados Unidos da América. A crescer em regime de ensino doméstico, o autor da premiada série documental “Kids Can Save The Planet” (“As crianças podem salvar o Planeta”) [www.kidscansavetheplanet.com], está a preparar uma roadtrip de seis meses, juntamente com a mãe, também realizadora. A ideia é viajarem pelo país até à capital, Washington, para filmar projetos ecológicos e fazer entrevistas a jovens ativistas ambientais, contou o jovem ao The Guardian, em junho. Pelo caminho, Dylan vai também apresentar os seus filmes em escolas e universidades e tenciona pedir aos estudantes que se comprometam, para a câmara, a fazer a mudança pela positiva. 

O jovem americano é um dos exemplos da chamada “geração Greta”, na expressão escolhida pelo jornal inglês, uma geração que não parece estar disposta a esperar pela idade adulta para agir e advogar a proteção do planeta. Tal como a ativista sueca, que impulsionou o movimento de greves estudantis pelo clima “Fridays for Future” [https://www.fridaysforfuture.org] e foi considerada pela revista Time uma das mais influentes personalidades de 2019, também Dylan tem feito ouvir a sua voz. O ator e ambientalista Ed Begley Junior, o músico Moby e Kip Andersen, autor do documentário Cowspiracy, já prometeram encontrar-se com ele durante a viagem. 

Ao The Guardian, Dylan contou ter despertado para a gravidade da crise ambiental que assola o planeta aos 13 anos, durante uma viagem à Flórida. “A quantidade de resíduos plásticos que víamos nas praias assustou-me seriamente. E foi aí que a minha mãe me sugeriu que, em vez de ficar com medo, tentasse fazer algo para mudar a situação”, explicou. Mas disse mais. “É frustrante ter à frente do Governo um negacionista do clima, alguém que está dois passos atrás de onde precisaríamos de estar agora”, afirmou, num comentário à presidência de Donald Trump. 

Manifestação

Os adolescentes parecem ter interiorizado o lema de Greta Thunberg: “Nunca se é pequeno demais para fazer a diferença.” Os protestos estudantis espalharam-se por 3804 cidades de 161 países. A greve de 15 de Março teve a mais alta participação, com 1,6 milhões de estudantes — e a paralisação anunciada para 27 de setembro ameaça ser maior. O apelo é para os mais velhos, “os adultos” decisores, mas quando os mais novos gritam em uníssono “Não há planeta B” estão também mostrar o que pensam os próximos consumidores e também os futuros eleitores. Querem mudar o mundo — e já estão a fazê-lo.

“Os jovens estão a liderar o caminho para as mudanças climáticas e as empresas têm de lhes dar atenção”, alertava recentemente na Harvard Business Review Magazine o consultor de estratégia empresarial Andrew Wiston. Para o especialista, coautor do best-seller “Do Verde ao Ouro”, é difícil prever se os movimentos do clima terão um papel tão significativo como tiveram os movimentos antiguerra, pelos direitos civis e direitos dos gays (igualmente liderados por jovens). “Mas é já bem evidente que estamos no meio de um grande realinhamento de valores à volta das questões do clima”. Hoje, “é já inaceitável para estes jovens ativistas, e para os milhões de pessoas que inspiram, defender o negacionismo ou jogar a cartada do ‘vamos devagar’”, sublinhou, lembrando que uma sondagem recente indicava que 76% dos americanos defendia uma tomada de posição das empresas, independentemente da controvérsia política.  

Manifestação estudantes

Passar a palavra, partilhar informação e unir esforços, é para as gerações nascidas na era do digital uma ambição global. O medo de crescer num planeta sem futuro — a que a revista Vice chamou “eco ansiedade” — impele-os para a ação. As mudanças no regime alimentar acontecem já, muitas vezes, porque os filhos influenciam os pais e os projetos mimetizam-se à distância de vários continentes. Ella e Amy Meek, as duas irmãs de 13 e 15 anos responsáveis pelo projeto Kids Against Plastic [kidsagainstplastic.co.uk], contaram ao The Guardian ter-se inspirado na ideia Bye Bye Plastic Bags [www.byebyeplasticbags.org], iniciada por duas meninas da mesma idade, na Indonésia. 

“Esta geração já nasce com um prazo de validade, mas não fica indiferente”, diz o surfista de ondas gigantes Hugo Vau, professor e fundador da associação Atlantic Giants, que quer combater um dos flagelos com que se debatem os oceanos, a poluição associada às pescas. “A minha geração já tinha os documentários do [Jacques] Cousteau, mas os miúdos agora têm muito mais informação, e também praticam mais desportos no mar, crescem apaixonados pela vida marinha. Na faixa etária até aos 20 anos, nota-se ainda mais a preocupação com o ambiente e vejo que acabam por influenciar os pais.”

Em poucos anos, esta mesma geração chegará às urnas, aumentando ainda mais o poder de pressão que os millennials e em breve a geração Z já mostram ter sobre os políticos. A tendência é já claramente percetível, e sobretudo na Europa, onde os partidos e as causas ecologistas têm vindo a ganhar expressão. Os dinamarqueses elegeram em maio a mais nova deputada de sempre: Kira Peter-Hansen tem 21 anos e o ambiente está no topo das suas prioridades, como explicou ao Deutsche Welle. Mas dos Estados Unidos sopram também ventos de mudança. 

De acordo com um relatório recente do Programa de Comunicação de Mudanças Climáticas de Yale, que analisou cinco sondagens realizadas entre 2017 e 2019, os jovens estão significativamente mais preocupados com as mudanças climáticas do que os mais velhos. E a tendência, transversal ao quadrante político, é ainda mais notória na ala direita. Entre os baby boomers republicanos (nascidos entre 1946-1964), só 30% acredita que as alterações climáticas são causadas pela ação do homem, mas quando os inquiridos são millennials (1980 até por volta de 2000, com variações consoante os autores), o número aumenta para 42%. 

O dossier O Futuro do Planeta é uma parceria entre o Polígrafo e a Fundação Francisco Manuel dos Santos

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