O Quarto Estado

Nada há nada mais difícil do que viver com um segredo que não pode ser dito. Mentir a estranhos a respeito de uma identidade de cobertura ou ocultar o facto de o nosso escritório se situar por baixo da mais secreta plantação de ananases do mundo pode parecer que anda lá perto, mas pelo menos somos parte de uma equipa: ainda que o nosso trabalho seja um segredo, é um segredo partilhado, e logo um fardo partilhado. Há sofrimento, mas também há riso.

Mas quando se tem um verdadeiro segredo, um segredo que não se pode partilhar com ninguém, até o riso é uma mentira. Podia falar sobre as minhas preocupações, mas nunca de para onde elas estavam a levar-me. Enquanto for vivo, hei-de lembrar-me de tentar explicar aos meus colegas como o nosso trabalho estava a ser usado para violar os juramentos que tínhamos feito e do encolher de ombros verbal com que me respondiam: «E que podes tu fazer quanto a isso?» Detestava esta pergunta, a sua ideia de resignação, a sua ideia de derrota, mas mesmo assim sentia-a suficientemente válida para me perguntar: Então, o quê?

Quando a resposta surgiu, resolvi soprar o apito. No entanto, dizer a Lindsay, o amor da minha vida, uma palavra que fosse a respeito da minha decisão seria sujeitar a nossa relação a um teste ainda mais cruel do que não dizer nada. Não querendo causar-lhe mais mal do que já me tinha resignado a causar, guardei silêncio, e no meu silêncio estava sozinho.

Snowden
créditos: EPA/KIMIMASA MAYAMA

Pensei que essa solidão e esse isolamento seriam fáceis para mim, ou pelo menos mais fáceis do que tinham sido para os meus predecessores no mundo dos que «sopravam o apito». Não tinha cada passo da minha vida servido como uma espécie de preparação? Não me habituara a estar sozinho depois de todos aqueles anos passados num fascinado silêncio à frente de um ecrã? Tinha sido o hacker solitário, o mestre do porto do turno da noite, o guardião das chaves num escritório vazio. Mas também era humano, e a falta de companhia custava-me. Todos os meus dias eram de luta, enquanto tentava e não conseguia conciliar o moral e o legal, os meus deveres e os meus desejos. Tinha tudo o que sempre quisera – amor, família e êxito muito para lá do que alguma vez merecera – e vivia no Éden no meio de abundantes árvores, das quais só uma me era proibida. O mais fácil para mim teria sido obedecer às regras.

Mas quando se tem um verdadeiro segredo, um segredo que não se pode partilhar com ninguém, até o riso é uma mentira. Podia falar sobre as minhas preocupações, mas nunca de para onde elas estavam a levar-me. Enquanto for vivo, hei-de lembrar-me de tentar explicar aos meus colegas como o nosso trabalho estava a ser usado para violar os juramentos que tínhamos feito e do encolher de ombros verbal com que me respondiam: «E que podes tu fazer quanto a isso?»

E apesar de já estar reconciliado com os perigos da minha decisão, não estava ainda ajustado ao papel. Ao fim e ao cabo, quem era eu para pôr esta informação diante do povo americano? Quem me elegera presidente dos segredos?

A informação que tencionava revelar a respeito do regime secreto de vigilância massiva do meu país era tão explosiva, e ao mesmo tempo tão técnica, que tinha tanto medo de que duvidassem de mim como de ser mal compreendido. Foi por isso que a minha primeira decisão depois de ter resolvido revelar tudo foi fazê-lo com ­documentação. A maneira de denunciar um programa podia ser apenas denunciar a sua existência, mas a forma de denunciar um secretismo programático tinha de ser descrever o seu funcionamento. Isto exigia documentos, os ficheiros da agência – tantos quantos fossem necessários para expor a magnitude do abuso, embora eu soubesse que revelar um só PDF que fosse seria o suficiente para me mandar para a prisão.

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A ameaça das represálias do governo contra qualquer entidade ou plataforma a que fizesse a revelação levou-me a considerar, por um breve instante, a possibilidade da autopublicação. Seria o método mais conveniente e seguro: coligir os documentos que melhor transmitissem as minhas preocupações e publicá-los online, tal como eram, e fazer circular um link. No fim, uma das razões que me levaram a não seguir esta linha teve que ver com autenticação. Todos os dias montes de pessoas publicam na internet «segredos classificados» – muitos deles a respeito de tecnologias para viajar no tempo e extraterrestres. Não queria que as minhas revelações, que já eram por si sós bastante incríveis, se misturassem com o estapafúrdio e se perdessem no meio da loucura. Sempre tinha sido claro para mim, desde as primeiras fases do processo, que eu exigia, e o público merecia, alguma pessoa ou instituição que avalizasse a veracidade dos documentos. Também queria um parceiro que analisasse os potenciais riscos de revelar informação classificada, e ajudasse a explicar essa informação enquadrando-a num contexto tecnológico e legal. Confiava em mim para expor os problemas que a vigilância acarretava, e até para analisá-los, mas tinha de confiar noutras pessoas para os resolver.

Quando a resposta surgiu, resolvi soprar o apito. No entanto, dizer a Lindsay, o amor da minha vida, uma palavra que fosse a respeito da minha decisão seria sujeitar a nossa relação a um teste ainda mais cruel do que não dizer nada. Não querendo causar-lhe mais mal do que já me tinha resignado a causar, guardei silêncio, e no meu silêncio estava sozinho.

Independentemente de quanto pudesse recear as instituições neste ponto, receava ainda mais agir como uma delas. Cooperar com uma qualquer organização de comunicação social defender-me-ia contra acusações de fraude e corrigiria quaisquer preconceitos que tivesse, fossem eles conscientes ou inconscientes, pessoais ou profissionais. Não queria que qualquer opinião política minha prejudicasse fosse o que fosse no respeitante à apresentação, ou à recepção, das revelações. Ao fim e ao cabo, num país onde toda a gente estava a ser vigiada, nenhuma questão podia ser mais apartidária do que a vigilância. Em retrospectiva, tenho de atribuir pelo menos algum crédito pela minha decisão de encontrar filtros ideológicos à influência benéfica de Lindsay, que passara pacientes anos a instilar em mim a lição de que os meus interesses e preocupações nem sempre eram os dela, e de certeza nem sempre eram os do mundo, e que o simples facto de eu partilhar o meu conhecimento não significava que toda a gente tivesse de partilhar a minha opinião. Nem todos os que se opunham à invasão da sua privacidade estariam dispostos a adoptar padrões de encriptação de 256-bits ou abandonar de todo a internet. Um acto ilegal que uma pessoa podia considerar uma violação da Constituição podia parecer a outra uma violação da sua privacidade, ou da do cônjuge ou filhos. Lindsay era a minha chave para abrir esta verdade: que motivos e abordagens diversos só podem contribuir para melhorar as probabilidades de atingir objectivos comuns. Sem o saber, ela deu-me confiança para vencer as minhas dúvidas e tentar chegar a outras pessoas.

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Mas que pessoas? Quem? Pode ser difícil de lembrar, ou imaginar, mas na altura em que comecei a considerar a possibilidade de avançar, o fórum preferido de quem tinha alguma coisa para denunciar era a WikiLeaks, que então trabalhava sob muitos aspectos como uma editora tradicional, ainda que muito céptica em relação ao poder do Estado. A WikiLeaks tinha reuniões regulares com as principais publicações internacionais como o Guardian, o New York Times, o Der Spiegel, o Le Monde e o El País para publicar os documentos fornecidos pelas suas fontes. O trabalho que estes jornais levaram a cabo em 2010 e 2011 deu-me a ideia de que a WikiLeaks era sobretudo valiosa como intermediária que ligava as fontes aos jornalistas, e como uma firewall que protegia o anonimato das fontes.

As práticas da WikiLeaks mudaram na esteira da sua publicação das revelações feitas pela soldado Chelsea Manning – montanhas de relatórios de campo do exército americano referentes às guerras no Iraque e no Afeganistão, informação sobre os detidos na baía de Guantánamo, além de comunicações diplomáticas dos Estados Unidos. Devido à reacção do governo e à controvérsia dos media sobre a redacção do site do material de Manning nos órgãos de comunicação social, a WikiLeaks decidiu mudar de rumo e publicar futuras fugas tal e qual as recebia: limpas e sem edição. A mudança para uma política de total transparência significava que publicar através da WikiLeaks não satisfaria as minhas necessidades. Na realidade, seria o mesmo que autopublicar, um caminho que já tinha rejeitado como insuficiente. Eu sabia que a história que os documentos da NSA contavam a respeito de um sistema de vigilância massiva montado no mais absoluto segredo era difícil de entender – uma história tão baralhada e técnica que eu estava cada vez mais convencido de que não poderia ser apresentada toda ao mesmo tempo numa «descarga de ­documentos», mas apenas através de um paciente e cuidadoso trabalho jornalístico levado a cabo, no melhor cenário que conseguia imaginar, com o apoio de múltiplas instituições de comunicação social independentes.

Mas que pessoas? Quem? Pode ser difícil de lembrar, ou imaginar, mas na altura em que comecei a considerar a possibilidade de avançar, o fórum preferido de quem tinha alguma coisa para denunciar era a WikiLeaks, que então trabalhava sob muitos aspectos como uma editora tradicional, ainda que muito céptica em relação ao poder do Estado.

Apesar de ter sentido algum alívio depois de ter resolvido fazer as minhas revelações aos jornalistas, havia ainda algumas reservas que perduravam. Muitas delas tinham a ver com os órgãos de imprensa mais prestigiados do meu país – sobretudo o jornal de referência da América, o New York Times. Sempre que pensava em contactar o New York Times, dava por mim a hesitar. Não obstante o jornal ter mostrado alguma disponibilidade para desagradar ao governo dos EUA com as reportagens da WikiLeaks, não podia impedir-me de recordar a sua conduta anterior no caso de um importante artigo sobre o programa de escutas sem mandado da administração da autoria de Eric Lichtblau e James Risen.

Estes dois jornalistas, combinando informações fornecidas por denunciadores do Departamento da Defesa e as suas investigações, tinham conseguido pôr a descoberto um aspecto de STELLAR­WIND – a receita original da iniciativa de vigilância da NSA no pós-11 de Setembro – e produzir um artigo editado e verificado sobre o assunto, pronto para ser impresso em meados de 2004. Foi neste ponto que o chefe da redacção do jornal, Bill Keller, mostrou o artigo ao governo, no âmbito de um processo de cortesia cujo objectivo típico era dar à redacção do jornal uma oportunidade de avaliar os argumentos do governo sobre as razões por que a publicação de determinada informação podia pôr em perigo a segurança nacional. Neste caso, como na maior parte dos outros, o governo recusou apresentar uma razão específica, mas deixou implícito que havia uma e que também ela era classificada. A administração Bush disse a Keller e ao editor do jornal, Arthur Sulzberger, sem oferecer qualquer prova, que o Times estaria a encorajar os inimigos da América e a fomentar o terrorismo se tornasse pública a informação de que o governo escutava as comunicações de cidadãos americanos sem mandado. Infelizmente, o jornal deixou-se convencer e cortou o artigo. A reportagem de Lichtblau e Risen acabou por aparecer, mais de um ano depois, em Dezembro de 2005, e só depois de Risen ter pressionado o jornal anunciando que o material faria parte de um livro seu a ser publicado em breve. Se o artigo tivesse sido publicado na altura em que foi escrito, talvez tivesse mudado o curso das eleições de 2004.

Se o Times, ou qualquer outro jornal, me fizesse uma coisa semelhante – se pegasse nas minhas revelações, escrevesse um artigo, submetesse o artigo à censura e então suprimisse a sua publicação – seria o meu fim. Tendo em conta a altíssima probabilidade de eu ser identificado como a fonte, seria o mesmo que denunciar-me antes que qualquer revelação fosse trazida a público.

Apesar de ter sentido algum alívio depois de ter resolvido fazer as minhas revelações aos jornalistas, havia ainda algumas reservas que perduravam. Muitas delas tinham a ver com os órgãos de imprensa mais prestigiados do meu país – sobretudo o jornal de referência da América, o New York Times. Sempre que pensava em contactar o New York Times, dava por mim a hesitar.

Se não podia confiar num grande jornal, em que instituição confiaria? E para quê dar-me ao incómodo? Não me tinha inscrito para nada daquilo. Só tinha querido brincar com computadores e talvez, já agora, fazer qualquer coisa pelo meu país. Tinha uma casa e uma amada e a minha saúde estava a melhorar. Todos os sinais de STOP que encontrava no meu trajecto de ida e volta pareciam-me avisos para parar com aquela loucura voluntária. A minha cabeça e o meu coração estavam em conflito, e a única constante era a desesperada esperança de que outra pessoa qualquer, noutro sítio qualquer, percebesse o que estava a acontecer. Afinal, não era missão do jornalismo seguir a rasto de migalhas e unir os pontos? Que mais fazem os jornalistas todos os dias, além de escrever no tweet?

Eu sabia pelo menos duas coisas sobre os cidadãos do Quarto Estado: competiam pelos grandes «furos», e sabiam muito pouco sobre tecnologia. Foi esta falta de conhecimento e até de interesse pela tecnologia a principal razão que levou os jornalistas a deixar passar dois acontecimentos que me deixaram siderado durante a minha pesquisa de factos relacionados com a vigilância massiva.

Se não podia confiar num grande jornal, em que instituição confiaria? E para quê dar-me ao incómodo? Não me tinha inscrito para nada daquilo. Só tinha querido brincar com computadores e talvez, já agora, fazer qualquer coisa pelo meu país.

O primeiro foi o anúncio feito pela NSA da construção de um novo e vasto centro de dados em Bluffdale, no Utah. A agência chamou-lhe Massive Data Repository até que alguém com tendência para RP se apercebeu do que as pessoas podiam pensar que o nome (Repositório de Dados Massivos) significava se viesse a ser conhecido, de modo que o rebaptizaram: passou a chamar-se Mission Data Repository – porque, desde que não se mude o acrónimo, não é preciso mudar os diapositivos de apresentação. O MDR foi projectado para albergar quatro salas com dois mil e trezentos metros quadrados cheias de servidores. Tinha capacidade para conter uma quantidade imensa de dados, uma história em constante actualização do padrão de vida de todo o planeta, na medida em que ele pode ser compreendido através da conexão entre pagamentos a pessoas, os telefones das pessoas, telefonemas, ligações para redes e um apanhado sinóptico da actividade na internet que corre ao longo dessas linhas de rede.

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O único jornalista importante que pareceu dar conta do anúncio foi James Bamford, que escreveu a respeito dele na Wired, em Março de 2012. Apareceram alguns artigos relacionados na imprensa não tecnológica, mas nenhum deles acrescentava o que quer que fosse. Ninguém fez, pelo menos a mim, aquelas que eram as perguntas mais básicas: para que precisa uma agência governamental, ainda por cima uma agência de informação, de tanto espaço? Que dados, e quantos, tencionam na verdade armazenar lá, e durante quanto tempo? Porque não havia qualquer razão para construir uma coisa com aquelas especificações a menos que estivessem a planear armazenar absolutamente tudo, para sempre. Ali estava, a meu ver, o ­corpus delicti – uma corroboração clara como a água de um crime, num gigantesco bunker de betão cercado por arame farpado e guardado por torres de vigia, a sugar da sua rede privada electricidade suficiente para uma cidade, no meio do deserto do Utah. E ninguém prestava atenção.

O segundo acontecimento ocorreu um ano mais tarde, em Março de 2013 – uma semana depois de Clapper ter mentido ao Congresso e escapado impune. Alguns jornais tinham coberto aquele testemunho, embora depois se limitassem a regurgitar as afirmações de Clapper sobre a NSA «não» se dedicar à recolha por grosso de informação sobre cidadãos americanos. Mas nenhuma das chamadas publicações mainstream acompanhou a rara aparição pública de Ira «Gus» Hunt, o chefe do departamento tecnológico da CIA.

Ninguém fez, pelo menos a mim, aquelas que eram as perguntas mais básicas: para que precisa uma agência governamental, ainda por cima uma agência de informação, de tanto espaço? Que dados, e quantos, tencionam na verdade armazenar lá, e durante quanto tempo?

Tinha conhecido Gus de passagem no âmbito dos meus contactos com a CIA por conta da Dell. Era um dos nossos melhores clientes, e todos os vendedores adoravam a sua aparente incapacidade de ser discreto: dizia sempre mais do que devia dizer. Para a rapaziada das vendas, era como um saco de dinheiro com uma boca. Agora ia aparecer como orador especial convidado num evento tecnológico civil em Nova Iorque chamado a GigaOM Structure Data Conference. Qualquer pessoa que tivesse 40 dólares podia entrar. As principais intervenções, como a de Gus, eram transmitidas online, de borla.

O motivo que me levou a certificar de que não perdia a sua exposição foi ter acabado de ler, através dos canais internos da NSA, que a CIA tinha enfim chegado a uma decisão sobre o seu contrato de nuvem. Recusara a minha antiga equipa na Dell, e também a HP, para assinar um contrato de 600 milhões de dólares válido por dez anos para o desenvolvimento e manutenção de uma nuvem com a Amazon. Por mim, não tinha sentimentos negativos a este respeito – na realidade, dadas as circunstâncias, até fiquei satisfeito por o meu trabalho não ir ser usado pela agência. Estava só curioso, de uma perspectiva profissional, por ver se Gus ia abordar de uma maneira oblíqua este anúncio e dar alguma ideia da razão por que tinham escolhido a Amazon, uma vez que corriam rumores sobre o processo de apresentação de propostas ter sido viciado a favor dessa empresa.

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Gus deu até várias ideias, só que de um género que eu não esperava. Tive oportunidade de ver o mais alto funcionário técnico da CIA de pé num palco com um fato amarrotado a informar uma multidão de pessoas sem autorização de segurança – e, através da internet, um mundo sem autorização se segurança – sobre as ambições e capacidades da agência. À medida que a apresentação decorria e ele alternava piadas de um gosto duvidoso com um conhecimento ainda mais duvidoso do PowerPoint, mais crescia a minha incredulidade.

– Na CIA – disse ele –, tentamos fundamentalmente apanhar tudo e conservar tudo para sempre. – Como se isto não fosse claro o suficiente, continuou: – Está quase ao nosso alcance computar toda a informação de origem humana.

O sublinhado é dele. Estava a ler do seu slide deck, palavras feias numa fonte feia ilustrada com os desenhos a quatro cores que são a assinatura do governo.

Ao que parece, havia alguns jornalistas na sala, mas foi como se quase todos fossem de publicações técnicas governamentais como o Federal Computer Week. Foi revelador o facto de Gus ter ficado para uma sessão de P&R no fim da sua apresentação. Mas não foi bem uma sessão de P&R, foi mais uma apresentação complementar, oferecida em directo aos jornalistas. Devia estar a tentar tirar qualquer coisa de cima do peito, e não era só a gravata de palhaço.

Gus disse aos jornalistas que a agência podia seguir-lhes o rasto dos telemóveis mesmo que os mantivessem desligados, que podia vigiar todas as suas comunicações. Lembrem-se, tratava-se de um grupo de jornalistas domésticos. Jornalistas americanos. E a maneira como Gus disse «podia» soou como «pôde», «pode» e «poderá». Perorou de uma maneira perturbada, e perturbadora, pelo menos para um sumo sacerdote da CIA: «A tecnologia está a avançar a uma velocidade que o governo e a lei não conseguem acompanhar. Está a avançar a uma velocidade que vocês não conseguem acompanhar: deviam estar a perguntar-se quais são os vossos direitos e quem controla os vossos dados.» Fiquei fulminado. Qualquer pessoa mais abaixo na hierarquia que fizesse uma apresentação daquelas estaria a usar um macacão cor de laranja antes de o dia chegar ao fim.

Só o Huffington Post publicou a confissão de Gus. Mas a exibição em si sobreviveu no YouTube, onde ainda permanece, pelo menos na altura em que escrevo isto, passados seis anos. Da última vez que verifiquei, havia 313 visitas, uma dúzia das quais minhas.

A lição que tirei disto foi que, para que as minhas revelações ­fossem eficazes, tinha de fazer mais do que distribuir alguns documentos por alguns jornalistas – mais, até, do que ajudá-los a compreender esses documentos. Tinha de tornar-me parceiro deles, providenciar o treino técnico e as ferramentas para os ajudar a relatar com exactidão e em segurança. Optar por este caminho seria entregar-me sem remédio a um dos crimes capitais no meu ramo de actividade: ao passo que outros espiões podiam ser acusados de espionagem, sedição e traição, eu seria cúmplice e promotor de um acto de jornalismo. O facto perverso é que, em termos legais, os dois crimes são considerados quase idênticos. A lei americana não faz distinção entre fornecer informação classificada à imprensa no interesse público e fornecê-la, ou até vendê-la, ao inimigo. A única opinião contrária que alguma vez ouvi veio do meu primeiro dia de doutrinação na CI, onde me foi dito que na verdade era um pouco melhor vender segredos ao inimigo do que oferecê-los de borla a um jornalista. O jornalista tornaria tudo público, enquanto era pouco provável que o inimigo partilhasse o prémio mesmo com os seus aliados.

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Tendo em conta os riscos que ia correr, precisava de identificar pessoas em que pudesse confiar e que tivessem também a confiança do público. Precisava de jornalistas que fossem diligentes mas discretos, independentes mas fiáveis. Tinham de ser fortes para me questionarem sobre as diferenças entre aquilo que eu suspeitava e aquilo que as provas evidenciavam, e para desafiar o governo quando ele os acusasse de estarem a pôr vidas em perigo com o seu trabalho. Acima de tudo, tinha de ter a certeza de que aqueles que escolhesse não acabariam por se render ao poder quando sujeitos a pressões que não teriam de certeza nada a ver com qualquer coisa que eles, ou eu, tivéssemos alguma vez experimentado.

Tendo em conta os riscos que ia correr, precisava de identificar pessoas em que pudesse confiar e que tivessem também a confiança do público. Precisava de jornalistas que fossem diligentes mas discretos, independentes mas fiáveis. Tinham de ser fortes para me questionarem sobre as diferenças entre aquilo que eu suspeitava e aquilo que as provas evidenciavam, e para desafiar o governo quando ele os acusasse de estarem a pôr vidas em perigo com o seu trabalho.

Não lancei a minha rede tão longe que pusesse em perigo a missão, mas o suficiente para evitar ficar reduzido a uma única alternativa que podia falhar – o problema do New York Times. Um jornalista, uma publicação, mesmo um único país de publicação não seria o suficiente, porque o governo dos Estados Unidos já tinha demonstrado a sua disponibilidade para abafar uma tal reportagem. Idealmente, daria a cada jornalista o seu conjunto de documentos, ao mesmo tempo, sem conservar nenhum. Isto transferiria para eles o foco do escrutínio e garantiria que mesmo que fosse preso a verdade continuaria a vir à tona.

Enquanto estreitava a minha lista de potenciais parceiros, apercebi-me de que tinha abordado tudo aquilo da maneira errada, ou pelo menos com desperdício. Em vez de tentar escolher os jornalistas sozinho, o que devia fazer era deixar que o sistema que queria denunciar os escolhesse por mim. Os meus melhores parceiros, decidi, seriam os jornalistas que o aparelho de segurança do Estado já tivesse debaixo de mira.

Conhecia Laura Poitras como documentarista, sobretudo preocupada com a política externa dos Estados Unidos pós-11 de Setembro. O seu documentário My Country, My Country era um relato das eleições nacionais no Iraque em 2005, conduzidas sob, e frustradas por, a ocupação dos americanos. Também tinha feito The Program, sobre o criptoanalista da NSA William Binney – que levantara objecções, através dos canais apropriados, ao TRAILBLAZER, o antecessor de STELLARWIND, só para ser acusado de fuga de informação classificada, sujeito a perseguições repetidas e preso em sua casa por agentes armados, ainda que nunca acusado. Laura tinha sido muitas vezes assediada pelo governo devido ao seu trabalho, repetidamente detida e interrogada pela polícia das fronteiras sempre que saía ou entrava no país.

Enquanto estreitava a minha lista de potenciais parceiros, apercebi-me de que tinha abordado tudo aquilo da maneira errada, ou pelo menos com desperdício. Em vez de tentar escolher os jornalistas sozinho, o que devia fazer era deixar que o sistema que queria denunciar os escolhesse por mim.

Quanto a Glenn Greenwald, conhecia-o como um advogado dos direitos civis tornado colunista, primeiro para o Salon – onde foi um dos poucos que escreveram sobre a versão não classificada do relatório dos IG da NSA em 2009 – e mais tarde para a edição americana do The Guardian. Gostava dele porque era céptico e argumentativo, o género de homem que lutaria com o diabo, e, se o diabo não estivesse à mão, lutaria consigo mesmo. Embora Ewen MacAskill, da edição britânica do The Guardian, e Bart Gellman, do Washington Post, tenham mais tarde vindo a revelar-se parceiros firmes (e pacientes guias na selva do jornalismo), as minhas primeiras afinidades foram com Laura e Glenn, talvez por eles não estarem só interessados em escrever sobre a CI mas terem também motivos pessoais para compreender a instituição.

O único problema era entrar em contacto.

Impossibilitado de revelar o meu verdadeiro nome, contactava os jornalistas sob uma variedade de identidades, máscaras descartáveis usadas durante algum tempo e postas de lado. A primeira destas identidades foi «Cincinnatus», inspirada na figura do lendário agricultor que se tornou cônsul de Roma e renunciou de livre vontade ao poder. A este seguiu-se «Citizenfour», que alguns jornalistas julgavam reflectir o facto de eu me considerar o quarto dissidente da história recente da NSA, depois de Binney e dos seus dois colegas que questionaram o TRAILBLAZER, J. Kirk Wiebe e Ed ­Loomis – embora o triunvirato que eu tinha em mente consistisse de Thomas Drake, que revelou aos jornalistas a existência do TRAILBLAZER, e Daniel Ellsberg e Anthony Russo, cujas revelações em The Pentagon Papers ajudaram a desmascarar as mentiras da guerra do Vietname e a pôr-lhe fim. O último nome que escolhi para a minha correspondência foi Verax, em latim «o que diz a verdade», na esperança de propor um modelo alternativo para o hacker chamado «Mendax» («o que diz mentiras») – o pseudónimo do jovem que viria a tornar-se Julian Assange, da WikiLeaks.

A arte do anonimato da espionagem pré-internet é famosa, sobretudo através de séries de televisão e filmes: a morada de uma casa segura codificada nos graffiti de uma casa de banho, por exemplo, ou misturada nas abreviaturas de um anúncio classificado. Ou pense-se nas «entregas cegas» da Guerra Fria, as marcas a giz numa caixa de correio a indicar que um embrulho secreto está escondido no buraco de uma árvore num parque.

Ninguém pode fazer uma verdadeira ideia de como é difícil alguém manter-se anónimo online enquanto não tentar operar como se a sua vida dependesse disso. Muitos dos sistemas de comunicações montados na CI têm um único objectivo básico: o observador de uma comunicação tem de não poder discernir as identidades dos envolvidos ou de alguma maneira atribuí-las a uma agência. É por isso que a CI chama a estas chamadas «não atribuíveis». A arte do anonimato da espionagem pré-internet é famosa, sobretudo através de séries de televisão e filmes: a morada de uma casa segura codificada nos graffiti de uma casa de banho, por exemplo, ou misturada nas abreviaturas de um anúncio classificado. Ou pense-se nas «entregas cegas» da Guerra Fria, as marcas a giz numa caixa de correio a indicar que um embrulho secreto está escondido no buraco de uma árvore num parque. A versão moderna pode ser perfis falsos a trocar conversas falsas num site de encontros ou, mais comum, uma app na aparência inócua que deixa mensagens na aparência inócuas num servidor na aparência inócuo da Amazon controlado em segredo pela CIA. O que eu queria, no entanto, era ainda melhor do que isso – qualquer coisa que não exigisse aquela exposição, e aquele orçamento.

Por isso não fui a um McDonald’s nem a um Starbucks – fui andar de carro. Para ser mais específico, fui fazer wardriving, que é quando transformamos o nosso carro num sensor de Wi-Fi móvel.

Decidi usar as conexões internet de outras pessoas. Quem me dera que fosse tão fácil como ir a um McDonald’s ou a um Starbucks e alugar o Wi-Fi deles. Mas esses lugares têm câmaras de vigilância, e recibos, e outras pessoas – memórias com pernas. Além disso, todos os aparelhos sem fios, de um telemóvel a um portátil, têm um identificador global chamado MAC (Machine Adress Code), que deixa um registo em qualquer ponto de acesso a que seja ligado – um marcador forense dos movimentos do utilizador.

Por isso não fui a um McDonald’s nem a um Starbucks – fui andar de carro. Para ser mais específico, fui fazer wardriving, que é quando transformamos o nosso carro num sensor de Wi-Fi móvel. Para isto é preciso um portátil, uma antena de grande potência e um sensor GPS com íman, que pode ser posto no tejadilho do carro. A energia é fornecida pelo carro ou por uma bateria portátil, ou pelo portátil. Tudo o que é preciso cabe numa mochila.

Levei um portátil barato que corria o TAILS, que é um sistema operativo «amnésico» baseado no Linux. «Amnésico» significa que esquece tudo quando o desligamos e recomeça a partir do zero quando voltamos a ligá-lo, sem registos ou vestígios de memória do que fizemos antes. O TAILS permitia-me «disfarçar» sem problemas o MAC do computador: sempre que se ligava a uma rede deixava o registo de outra máquina qualquer, de modo nenhum associável à minha. Muito útil, o TAILS também tinha incorporado um suporte de ligação à rede anónima Tor.

No alto do parque de estacionamento de um centro comercial, seguro no conhecimento de que no momento em que fechasse a tampa do portátil o meu segredo estava a salvo, redigia manifestos em que explicava por que razão tinha decidido aparecer à luz, e então apagava-os. E depois tentava escrever emails a Lindsay, mas apagava-os também. Não conseguia encontrar as palavras.

À noite e aos fins-de-semana andava de carro pelo que me parecia ser toda a ilha de Oahu, a deixar que a minha antena captasse os impulsos das redes de Wi-Fi. O sensor GPS marcava cada ponto de acesso com a localização onde tinha sido detectado, graças a um programa de mapeamento a que eu chamava Kismet. O resultado era um mapa das redes invisíveis por que passávamos todos os dias sem as notar, uma escandalosa percentagem das quais não tinha qualquer segurança ou uma segurança que eu conseguia contornar de olhos fechados. Algumas redes exigiam um hacking mais sofisticado. Eu empastelava por momentos uma rede, o que deixava off-line os utilizadores legítimos; nas suas tentativas de reconectar, esses utilizadores transmitiam automaticamente os seus «pacotes de autenticação», que eu interceptava e decifrava em passwords que me permitiam fazer login como qualquer outro utilizador «autorizado».

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EPA/TANNEN MAURY

Com este mapa na mão, andava às voltas por Oahu como um louco, a tentar verificar o email para ver qual dos jornalistas me tinha respondido. Tendo estabelecido contacto com Laura Poitras, passava a maior parte da noite a escrever-lhe – sentado contra a roda do carro numa praia, a surripiar o Wi-Fi de um resort próximo. Alguns dos jornalistas que eu tinha escolhido tinham de ser encorajados a usar email encriptado, o que em 2012 não era fácil. Em alguns casos, tinha de mostrar-lhes como, de modo que descarregava tutoriais – sentado no meu carro num parque de estacionamento, a ­servir-me da rede de uma biblioteca. Ou de uma escola. Ou de uma estação de serviço. Ou de um banco – que tinham protecções verdadeiramente miseráveis. O essencial era não criar quaisquer padrões.

No alto do parque de estacionamento de um centro comercial, seguro no conhecimento de que no momento em que fechasse a tampa do portátil o meu segredo estava a salvo, redigia manifestos em que explicava por que razão tinha decidido aparecer à luz, e então apagava-os. E depois tentava escrever emails a Lindsay, mas apagava-os também. Não conseguia encontrar as palavras.

Título: Vigilância Massiva Registo Permanente

Editora: Planeta

397 páginas

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