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Ioga, acupuntura e outras terapias podem complementar o tratamento do cancro?

Não são alternativas, mas podem ser complementares. Qual o papel da acupuntura e de outras terapias no tratamento do cancro?

As terapias a que os doentes oncológicos são sujeitos para tratar o cancro têm efeitos secundários. A quimioterapia, por exemplo, uma das mais utilizadas graças à sua eficácia, pode causar enjoos, cansaço, entre outros sintomas, e o doente fica mais propício a apanhar infeções, já que o sistema imunitário é afetado pelo tratamento. Mesmo depois de terminadas as sessões de tratamento, alguns efeitos podem demorar meses ou anos a desaparecer, e alguns podem mesmo tornar-se crónicos.

E se, “por norma, as náuseas são resolvidas com medicação”, segundo Rita Pinho, médica oncologista no Hospital de São João, há outros efeitos mais difíceis de mitigar — desde a ansiedade à dor crónica. Alguns doentes (uma pequena parte, segundo a amostra da médica) encontram terapias — acupuntura, ioga, aromaterapia — que complementam os tratamentos recomendados pelos clínicos. “Se servir para complementar, não tiver qualquer contraindicação e ajudar o doente, não há problema”, diz a oncologista.

O que são terapias complementares e quem lhes recorre?

“As terapias complementares podem ajudar a lidar melhor com os sintomas do cancro ou dos tratamentos”, segundo a Cancer Research UK. A instituição sublinha que “um bom terapeuta não irá afirmar que aquela terapia cura o cancro, mas sim encorajar a discussão com um oncologista ou médico de família”, já que não há evidência científica robusta que sustente estas terapias.

Uma revisão sistemática sobre o tema publicada na revista científica Cancers em 2023, diz que cerca de 51% dos doentes oncológicos recorrem a terapias complementares. “É um tema que tem suscitado cada vez mais interesse nos nossos doentes”, observa Rita Pinho, mas ainda assim “não é frequente questionarem muito” os médicos durante a consulta. 

“As pessoas mais jovens têm mais interesse por essa área, questionam mais”, parece ser uma tendência geracional, até porque muitas vezes quem questiona sobre estas terapias já as praticava antes de receber um diagnóstico de cancro.

“Os doentes oncológicos têm muita ansiedade da recaída” e o pilates, a meditação, o ioga ou a aromaterapia podem ser aliados nesses casos. A acupuntura surge mais em situações onde a dor crónica é o incómodo maior. Já as náuseas e os vómitos, comuns durante a quimioterapia, são atualmente bem controlados com medicação, e por isso não motivam tanto a procura de alternativas.

Qual o papel dos médicos?

Do lado dos profissionais de saúde, ainda que estas terapias não façam parte da medicina convencional, a abordagem tem vindo a tornar-se mais aberta e Rita Pinho defende que, acima de tudo, a “comunicação deve ser transparente”. “Cabe-nos a nós também perguntar, saber se os doentes fazem acupuntura, ou meditação, ou qualquer outra prática. Desmistificar e mostrar que não há tabu”, explica Rita Pinho. Isto porque alguns doentes podem evitar falar sobre o tema por medo de serem desvalorizados.

A preocupação mais comum dos médicos prende-se com os produtos naturais — suplementos, plantas, chás, cápsulas (já escrevemos muito sobre eles) — que são tomados paralelamente aos tratamentos. “Muitas vezes as pessoas acham que os produtos naturais não têm problema por serem naturais, mas isto não é verdade.” A oncologista reforça que há interações perigosas entre alguns destes produtos e tratamentos como a quimioterapia ou radioterapia. 

“Por norma peço para trazerem os produtos à consulta. Há substâncias que podem potenciar efeitos adversos ou reduzir a eficácia do tratamento.” Através de uma plataforma especializada, onde introduz o produto natural que o paciente está a usar, percebe imediatamente se há algum perigo associado à toma daquele suplemento.

Já práticas como acupuntura, ioga ou meditação não costumam apresentar riscos e são, em muitos casos, bem-vindas. “Se a acupuntura lhe tirar a dor, se a meditação o ajudar com a ansiedade, se não houver contraindicações, então ótimo.”

Há resultados?

Uma meta-análise publicada na JAMA Oncology em 2020, que reuniu dados de 17 ensaios clínicos e mais de 1100 pacientes com cancro, concluiu que a acupuntura e a acupressão são eficazes para aliviar a dor relacionada com o cancro. Em comparação com grupos de controlo, os doentes que receberam acupuntura relataram reduções estatisticamente significativas na intensidade da dor. 

Mas o estudo, como tantos outros, apresenta várias limitações metodológicas, tais como; a heterogeneidade do tipo de dor, as amostras pequenas e a possibilidade de efeito placebo.

Além disso, não há evidência robusta de que estas terapias aumentem a sobrevivência, reduzam diretamente o tumor ou substituam os tratamentos convencionais e “aquilo que resulta para um doente poderá não resultar para outro”.

A oncologista é clara: “Os tratamentos que propomos têm evidência científica. Uma coisa é ser complementar, outra é ser alternativo.” Mas lembra que a decisão final — que deve ser “informada” — é sempre do doente.


Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.

A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.

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