Em 2015, aos 69 anos, Fernando Caldeira Santos, nunca tinha feito uma colonoscopia. Nesse ano, depois de regressar de um cruzeiro na Malásia, a mulher sugeriu que marcasse o exame. Endoscopias já tinha feito muitas, até porque tinha tido uma infeção por Helicobacter pylori, uma bactéria que pode provocar cancro do estômago, que tinha sido curada com antibióticos.
O médico sugeriu que, “já que ia ser sedado”, mais valia fazer endoscopia e colonoscopia. “A colonoscopia estava perfeita”, mas durante a endoscopia, depois de o gastroenterologista ter observado “os sítios quase intransponíveis do estômago”, foi detetada “qualquer coisa grave”, disse o oficial de marinha, em declarações ao Viral e ao Polígrafo.
O mais comum é detetar-se o cancro do estômago “quando se determina que há queixas suficientes para fazer uma endoscopia alta”, adianta José Filipe Cunha, cirurgião digestivo da unidade multidisciplinar de cancro digestivo do Centro Clínico da Fundação Champalimaud.
No entanto, muitas vezes, os sintomas só surgem numa fase mais avançada da doença ou são “inespecíficos” e não é comum fazer-se exames de rastreio para detetar o cancro gástrico.
Aquilo que acontece cada vez mais – à semelhança do que se passou com Fernando Caldeira Santos – é “doentes que vão fazer a colonoscopia de rastreio fazerem também uma endoscopia alta, o que tem permitido detetar mais casos de cancro gástrico numa fase relativamente precoce da doença”, refere o especialista.
“Nunca senti nada”, recorda, nunca houve nenhum sintoma. Mas quando chegou o resultado da biópsia ficou claro que era cancro do estômago. “Quando o médico me disse que tinha um cancro, parecia que tudo tinha desabado debaixo dos meus pés, mas depois recuperei, é momentâneo, a vida é assim”.
Não haver sintomas, em caso de cancro gástrico, é comum. E mesmo quando existem “são tão inespecíficos que, para se considerar essa suspeita, tem de se ir fazendo vários exames até detetar o que está a causar os sintomas”, que podem ser simplesmente “um desconforto abdominal vago, falta de apetite, ou apenas uma anemia por o tumor sangrar lentamente”, esclarece José Filipe Cunha.
As sessões de quimioterapia começaram pouco tempo depois, essa foi a parte “mais dramática”. Não é que tenha tido dor física, mas o “mal-estar, a frustração, os enjoos” tornaram aquelas nove semanas iniciais “dolorosas mentalmente”.
Uma das preocupações foi preparar os seis netos para aquilo que ia acontecer. Era verão e disse-lhes: “O avô vai tirar a pêra e o bigode, e depois se calhar também vai rapar a cabeça porque está muito calor e o avô não aguenta”.
Esse momento “foi a preparação deles e a minha própria preparação”, contou Fernando, que tinha aquela barba desde os anos 70. Quando rapou o cabelo nem se conhecia, mas “eventualmente voltou a crescer”.
Teve de interromper a quimioterapia “uma ou dúzias vezes por causa da contagem baixa de plaquetas”, sentia-se bastante fraco. Depois das nove semanas de tratamento, parou durante dois meses, foi operado em novembro de 2015 e “no dia seguinte já estava a andar”.
Depois, ainda fez mais duas sessões de quimioterapia e “quando acabou, a sensação que tinha era de que já não aguentava mais”.
José Filipe Cunha explica que “a escolha do tratamento vai depender do estadiamento em que o tumor se encontra quando é diagnosticado”.
Se o cancro for detetado numa fase precoce, “a cirurgia é o tratamento com maior capacidade de cura”.
Por outro lado, numa fase mais avançada, mas em que o tumor continua localizado no estômago e, eventualmente, nos gânglios regionais do órgão, muitas vezes, “há necessidade de associar à cirurgia o tratamento sistémico – quimioterapia e/ou imunoterapia -, feito por administração endovenosa”.
Caso o tumor seja detetado numa fase muito mais avançada em que já há metastização distante – por exemplo, no fígado, nos pulmões ou no peritoneu -, o tratamento terá de ser feito apenas com recurso a “terapêuticas sistémicas”.
“Felizmente estou aqui”, remata. O que mais lhe custou durante todo o processo foi “querer ter forças e não as ter”, mas foi conseguindo com o apoio da família e da equipa médica, que nunca lhe faltou — isso é “fundamental”, garante.
O importante é “não desistir” e “enfrentar as situações com dignidade, essa deve ser a última coisa a perder”.
Nos últimos 10 anos, foi mudando alguns hábitos. O tabaco já não fazia parte do dia a dia há 30 anos quando foi diagnosticado, deixou de beber café e o único álcool que bebe é um copo de vinho à refeição.
Agora, de dois em dois meses tem de levar uma injeção de vitamina B12 “para compensar a ausência dos ácidos que o estômago produzia” e, “de resto, a vida faz-se normalmente”.
Na perspetiva de José Filipe Cunha, o seguimento do doente, após a conclusão do tratamento, é muito importante. Por um lado, porque alguns tratamentos podem causar “alguma limitação nas funções do doente, nomeadamente na capacidade de se alimentar”.
A continuação desse seguimento, a longo prazo, tem como principal objetivo “detetar uma possível recorrência do tumor numa fase ainda relativamente inicial e que se possa tratar”, acrescenta.
Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.
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