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Como manter a saúde física e psicológica das crianças durante o confinamento?

Este artigo tem mais de um ano
As escolas fecharam devido a novas medidas de restrição de circulação para combater a pandemia de Covid-19 e, desde 22 de janeiro, milhares de crianças estão confinadas em casa. A alteração de rotinas, a redução da atividade física, a ansiedade e o stress são alguns dos fatores que podem afetar a saúde física e mental das crianças e adolescentes. O Polígrafo ouviu psicólogos e nutricionistas e apresenta-lhe os principais conselhos para garantir o bem-estar dos mais novos durante este período.

O cenário não é novo: em março de 2020, um primeiro confinamento generalizado foi adotado pelo Governo como medida de contenção da pandemia de Covid-19. Milhares de famílias ficaram confinadas às suas casas que se transformaram em espaços comuns de teletrabalho, aulas online e de ocupação de tempos livres.

Ainda assim, e apesar de já não se tratar de uma novidade, a obrigatoriedade de permanecer nas habitações continua a representar um grande desafio para pais e educadores. Como podem ser atenuadas as consequências do isolamento que afetam as crianças e adolescentes? O Polígrafo falou com especialistas em saúde infantil para responder à questão.

A saúde física das crianças entre quatro paredes

Para Alexandra Luz, pediatra, apesar de já ter havido um primeiro confinamento, “não se preparou a sociedade para este novo esforço e para a consciencialização das famílias”.

Segundo a especialista, o impacto do isolamento em casa faz-se sentir em diferentes aspetos. “Ao nível físico, muitas crianças deixam de ter o acesso às atividades extracurriculares, aumentando o tempo de ecrã e o sedentarismo”, sublinha. Por outro lado, também a “alimentação saudável, pilar de um desenvolvimento físico e cognitivo adequados, passa a estar em causa quer por incapacidade financeira, quer por ausência de conhecimento sobre as reais necessidades nutricionais da criança”.

“É necessário estimular a criatividade própria da mente infantil, desenvolvida muitas vezes à custa de estruturas educacionais e do contacto social, que passam a estar indisponíveis durante o período de isolamento em casa”, explica.

A médica defende que é essencial estabelecer como regra base “a importância de hábitos adequados para pais, crianças e adolescentes, respeitando o ritmo das necessidades básicas de sono e alimentação”.

“Promover a atividade física das crianças, ainda que no interior e sem acesso ao exterior”, é outra das recomendações da pediatra, que sugere a realização de “jogos tradicionais como a ´macaca` ou o jogo do lenço que têm a vantagem de estimular a criatividade”.

A médica defende que é essencial estabelecer como regra base “a importância de hábitos adequados, para pais, crianças e adolescentes, respeitando o ritmo das necessidades básicas de sono e alimentação”.

Alexandra Luz alerta ainda para a necessidade da vacinação e das consultas de rotina de saúde infantil e juvenil, que não deverão ser adiadas pelos pais e educadores. Como nota final, reitera que é essencial, mais do que nunca, a aposta na “literacia em saúde infantil” e recomenda que se pratique o distanciamento de “sensacionalismos”. Assim, sugere aos pais e educadores que “sigam as recomendações das associações pediátricas em relação ao tempo de ecrã, atividade física e necessidades alimentares das crianças”.

Como garantir uma alimentação saudável, barata e equilibrada?

Crianças

Ao Polígrafo, Inês Tomada, nutricionista clínica, especializada em nutrição pediátrica, apontou os principais erros alimentares que estão a ser cometidos durante o isolamento e quais as estratégias que os pais devem seguir para não os perpetuar.

A nutricionista alerta que, numa situação de confinamento, com teletrabalho e aulas online à mistura, “acabam muitas vezes por ser as crianças a ditar as escolhas alimentares da família e que os pais, por uma questão de praticidade, acabam por responder afirmativamente aos pedidos dos mais novos, que nem sempre são as melhores escolhas”.

“Com o estado de ansiedade, a angústia, as dificuldades económicas potenciadas pela pandemia, muitos pais são mais permissivos nas escolhas alimentares que apresentam aos filhos, compensando-os de forma errada, com alimentos doces, fritos ou salgados”, acrescenta ainda.

Inês Tomada garante que este tipo de compensações, “aliadas à alta taxa de sedentarismo”, que as circunstâncias de um confinamento proporcionam, criam um  “cocktail perfeito para agravar ou potenciar casos de obesidade infantil, bem como de distúrbios, como a compulsão alimentar ou a anorexia, que surgem em ambientes de stress elevado”.

“Com o estado de ansiedade, a angústia, as dificuldades económicas potenciadas pela pandemia, muitos pais são mais permissivos nas escolhas alimentares que apresentam aos filhos, compensando-os frequentemente de forma errada, com alimentos doces, fritos ou salgados”, acrescenta a nutricionista Inês Tomada.

Têm de ser os pais a criar rotinas em relação à alimentação, pois as crianças no período de aulas têm uma rotina alimentar definida com as refeições na escola. Agora, cabe aos pais, tanto quanto lhes for possível, manter estas rotinas e optar pelas melhores escolhas alimentares”, indica Inês Tomada.

A especialista alerta para a “falsa ideia” de que a alimentação saudável é necessariamente mais dispendiosa e aconselha os pais a planear as refeições e a simplificarem na hora de fazer a lista de compras: “deve apostar-se nos bens essenciais, tais como, o leite, iogurte, pão, fruta da época, legumes para fazer uma sopa ou uma salada crua”. Para garantir o equilíbrio, é possível e recomendável “apresentar à criança, por exemplo, um doce, uma ou duas vezes por semana”.

Além da prática de boas escolhas alimentares, os pais também devem impor regras para a hora da refeição. “Muitas crianças comem em frente à televisão, ao tablet ou telemóvel e é desaconselhável já que pode proporcionar uma ingestão excessiva de alimentos, principalmente de doces. A imagem nos ecrãs distrai as crianças e o seu ponto de saciedade altera-se”, garante.

Inês Tomada realça igualmente a “importância de não se descurar as consultas de rotina das crianças”, bem como do acompanhamento, se necessário, nas áreas da nutrição e da psicologia, que dispõe até de opções online, “já que as crianças e os adolescentes se encontram numa fase em que estão ainda mais vulneráveis a várias doenças”.

Saúde mental: manter rotinas, respeitar o tempo livre e limitar a exposição às notícias

Criança

Sílvia Adão, psicóloga clínica, esclarece que é “muito importante que a família e, por conseguinte a criança entendam que esta situação de confinamento é transitória e relativamente controlável. Os pais e educadores devem evitar passar a ideia de que a situação está descontrolada, o que cria sentimentos de ansiedade desnecessários nas crianças”.

A psicóloga deixa alguns conselhos para que as crianças e jovens se mantenham ativos: “Manter as rotinas ao máximo possível, flexibilizando o necessário, uma vez que agora estão todos em casa e é necessário conjugar o trabalho dos pais, as aulas dos filhos, as refeições, entre outras atividades. É importante não se alterar os horários de acordar, de deitar, de comer, da higiene e de assistir às aulas”.

A especialista refere que, apesar de tudo isso, é também necessário respeitar o tempo livre, “dando à criança e adolescente tempo para fazerem atividades do seu agrado e diversificadas, estar no tablet ou no telemóvel, ver televisão, fazer trabalhos manuais, como realizar uma remodelação no quarto criando novas peças através da reciclagem”.

A psicóloga deixa alguns conselhos para que as crianças e jovens se mantenham ativos: “Manter as rotinas ao máximo possível, flexibilizando o necessário, uma vez que agora estão todos em casa e é necessário conjugar o trabalho dos pais, as aulas dos filhos, as refeições, entre outras atividades. É importante não se alterar as horas de acordar, de deitar, de comer, da higiene e de assistir às aulas”.

“Os mais pequenos vão querer a atenção dos pais, que devem reservar um pouco do seu tempo para brincar com eles”, explica Sílvia Adão, para quem também é muito importante “dar tempo à criança para brincar livremente, momento que a vai ajudar a lidar com as suas próprias ansiedades e emoções”.

A psicóloga aconselha ainda a “limitação da exposição das crianças às notícias sobre a pandemia, evitando a criação de um clima de medo exagerado, que depois lhes perturba o sono e o seu dia a dia”.

A indicação final da especialista para os pais e educadores é a de “aceitarem e validarem os sentimentos de medo da criança, passando também uma mensagem de esperança de que às vezes acontecem situações difíceis mas que as mesmas não duram para sempre”.

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