Portugal é o país da Europa Ocidental com maior incidência de cancro do estômago — os dados mais recentes do Global Cancer Observatory (Globocan), referentes a 2022, mostram que foram registados 3668 novos casos.
Não há um rastreio instalado e os exames de deteção são invasivos. Catarina Lopes, jovem investigadora do Instituto Português de Oncologia (IPO) do Porto, vai desenvolver um projeto que pretende fazer a deteção precoce de cancro gástrico através de saliva.
Em entrevista ao Viral e ao Polígrafo, a bioquímica e investigadora, uma das vencedoras do Prémio Maria de Sousa 2025, atribuído pela Ordem dos Médicos e pela Bial a cinco projetos na área da saúde propostos por jovens investigadores até 35 anos, explica como vai funcionar o projeto, e de que forma pode abrir caminhos para métodos de rastreio mais simples e menos invasivos.
É uma das vencedoras do Prémio Maria de Sousa. Em que consiste o projeto que a fez receber este reconhecimento?
O projeto chama-se SNIFF. É basicamente um pequeno estudo de prova de conceito em que nós tentamos procurar pequenas moléculas em saliva que nos permitam detectar cancro gástrico.
E o prémio é um grande incentivo, uma vez que acabei de terminar o doutoramento há duas semanas. Isto vai ser um incentivo para continuar e para fazer a transição de aluna de doutoramento para o pós-doutoramento. Vai ser o primeiro projeto que vou realmente coordenar.
E de que forma é que isso funciona na prática?
Nós vamos utilizar a saliva como uma amostra líquida e procurar moléculas nessa fase líquida e, depois, vamos também utilizar moléculas que são libertadas pela saliva, ou seja, para o ar.
São os compostos orgânicos voláteis, daí este projeto chamar-se SNIFF — são moléculas que, em teoria, podem ser cheiradas, estão no ar.
E, para isso, vamos utilizar um equipamento, ou seja, um sensor que é capaz de detetar estas moléculas, que é uma espécie de mini balança.
Ou seja, é um exame bastante simples de deteção de cancro. Que vantagens é que isto tem em relação a outros métodos? O que é que o distingue?
Neste momento, na Europa, e em Portugal em específico, não existe rastreio de cancro gástrico. Portanto, o objetivo seria mesmo arranjar ou avançar naquilo que é uma opção de rastreio, através de uma amostra completamente não invasiva, como é o caso da saliva.
Existem outros biomarcadores que podem ser, por exemplo, detetados no sangue, mas implica que as pessoas tenham de se deslocar a uma clínica, a um hospital, para fazer esta colheita.
Aqui, o objetivo, utilizando a saliva, é otimizar este processo e fazer com que seja a própria pessoa a ser capaz de fazer a sua própria colheita. Isto também seria não só muito menos invasivo para as pessoas, como também bastante mais barato.
E porque é que está a estudar este método especificamente para o cancro gástrico?
Temos vindo a estudar o cancro gástrico nos últimos anos. O nosso grupo tem uma forte componente de gastroenterologistas. E, em Portugal, especificamente, este cancro tem uma incidência muito elevada, comparado, por exemplo, com o resto da Europa.
Se compararmos com Espanha, Portugal tem o dobro da incidência. Este facto ainda não é completamente explicado, mas faz com que seja muito importante. Nós fazemos deteção precoce e desenvolvemos novas técnicas para isso.
Quando é que o projeto vai avançar? Quanto tempo se espera que dure?
Vai começar em janeiro. O projeto é de dois anos, sendo que 11 meses serão desenvolvidos na Polónia, a partir de outubro do próximo ano.
Já trabalhamos com saliva com outros tipos de marcadores. Temos uma colaboração com o Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia, em Braga, falámos com eles sobre possíveis colaborações e sugeriram um grupo de Gdánsk, que já trabalhava com compostos orgânicos. Assim, juntámos o interesse em trabalhar com saliva com esta colaboração e formámos este projeto.
Esta é uma fase super inicial. Primeiro, como estudo de prova de conceito, vamos usar amostras de doentes já com cancro avançado, diagnosticado, para percebermos se estas moléculas podem ajudar a identificá-los.
Se tudo correr bem, mais tarde, a ideia é utilizar amostras de doentes com cancro ainda inicial, porque são esses que queremos detetar.
E que desafios podem existir ou prevê que surjam?
Vai ser a primeira vez que o nosso grupo vai trabalhar com este tipo de marcadores, os compostos orgânicos voláteis. Para trabalharmos com eles, vamos fazer uma parceria com um grupo na Polónia.
A dificuldade pode estar mesmo na otimização do processamento da amostra para fazer este tipo de análise. Mas é uma coisa que vamos ter de experimentar e ver como funciona.
Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.
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