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Aspartame e o risco de desenvolver cancro. Deve deixar de consumir o seu refrigerante “light” diário?

Há décadas que o consumo de aspartame, um adoçante artificial, está a ser investigado. Até agora tem sido considerado seguro, mas poderá ser listado como "possivelmente cancerígeno" em breve. Será que é hora de deixarmos os produtos "zero açúcares" de fora da dieta?

aspartame – um adoçante artificial utilizado, por exemplo, em refrigerantes, bolachas e pastilhas elásticas “light” e “zero açúcares” – poderá vir a ser listado, ainda esta semana, como “possivelmente cancerígeno para humanos“, pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Cancro (IARC), que pertence à Organização Mundial de Saúde (OMS).

A informação foi avançada no final de junho pela Reuters e, segundo a agência noticiosa, a decisão deve ser anunciada esta sexta-feira, dia 14 de julho.

Mas o que significa esta classificação? Consumir produtos com aspartame aumenta o risco de cancro? Deve deixar de consumir todos os produtos que contenham este adoçante? Em declarações ao Polígrafo, Paula Ravasco e António Pedro Mendes partilham as suas perspetivas sobre o tema e esclarecem algumas dúvidas.

O que é o aspartame?

O aspartame, também designado de E951, é um dos adoçantes artificiais mais comuns (e um dos mais antigos) da indústria alimentar e é utilizado, sobretudo, em produtos “diet”, “light” e “zero”, que vão desde os refrigerantes às bolachas.

Quem o confirma é a médica, nutricionista e investigadora Paula Ravasco que, em declarações ao Polígrafo, explica que este edulcorante é “utilizado para adoçar produtos que se pretenda que não tenham carga calórica”.

Aspartame e cancro: o que sabe a ciência?

A possível associação entre o consumo de produtos com adoçantes artificiais e o aumento do risco de desenvolver cancro tem sido alvo de muitos estudos. Um dos mais recentes foi publicado em 2022 e contou com uma amostra de mais de 100.000 pessoas.

Segundo os investigadores, neste trabalho “os adoçantes artificiais (especialmente o aspartame e o acessulfame-K) foram associados a um maior risco global de cancro”.

No mesmo plano, afirmam os autores da investigação, os resultados do estudo “sugerem que os adoçantes artificiais, utilizados em muitas marcas de alimentos e bebidas em todo o mundo, podem representar um fator de risco modificável para a prevenção do cancro”.

Ainda assim, refere Paula Ravasco, até ao momento, não se sabe se o consumo de aspartame potencia o desenvolvimento do cancro.

“Dos inúmeros estudos que foram feitos em termos de segurança alimentar nunca ficou demonstrado um perigo ou alguma causa-efeito entre o consumo desta substância e o desenvolvimento de algum tipo de doença”, sustenta a especialista em imunohemoterapia e em nutrição clínica e oncológica.

Ravasco considera que “a questão que se coloca é sempre a quantidade que as pessoas estão a consumir” e sublinha que, apesar desta monitorização constante dos potenciais perigos da substância, também “nunca se verificou um consumo tão grande de adoçantes como atualmente”.

Nesse sentido, sobre a possibilidade de o aspartame poder vir a ser listado como “possivelmente cancerígeno”, Ravasco entende que o que está em causa é, essencialmente, a quantidade consumida.

“A questão que se associa ao suposto perigo tem muito a ver com a quantidade que as pessoas ingerem. O que vemos cada vez mais, através de inquéritos sobre a alimentação populacional, é o aumento do consumo de alimentos ultraprocessados. Quanto maior é o consumo [deste tipo de produtos], maior é a exposição das pessoas a este tipo de substâncias, porque são frequentemente adicionadas [aos ultraprocessados]”, afirma.

A médica ouvida pelo Polígrafo revela que não aconselha, por regra, produtos que tenham adoçantes artificiais aos seus pacientes e afirma que “tudo o que sejam substâncias sintéticas podem ter, em teoria, algum tipo de efeito que a longo prazo se venha a verificar que possa estar associado a essa ingestão”.

Até porque, segundo a investigadora, edulcorantes como o aspartame não fazem parte da “lista de alimentos com os quais o ser humano está habituado a lidar” por serem substâncias artificiais criadas “para suprir um estímulo do paladar”.

Posto isto, a médica defende que não deve ser recomendada a ingestão desta substância de forma regular. “Apenas pontualmente, se a pessoa tiver necessidade de comer alguma coisa doce e tiver uma restrição em termos de ingestão de açúcar”, indica.

António Pedro Mendes, nutricionista e coordenador do Departamento de Nutrição do Sporting Clube de Portugal, refere que, dentro do sistema de classificação do IARC, o aspartame está no terceiro grupo, entre os produtos cuja evidência não é absolutamente clara relativamente à sua inocuidade.

“Mas daí a termos todos de estar muito preocupados com o seu consumo vai um longo caminho. Significa apenas que precisamos de um corpo de evidência científicas mais sólido, para nos permitir tirar conclusões mais fundamentadas”, considera.

O nutricionista assinala, por exemplo, que, nos dois primeiros grupos (os mais preocupantes) da escala do IARC, “se encontram referidos fatores como a ingestão de bebidas alcoólicas, ingestão de carnes vermelhas, ingestão de acrilamida (muito presente em torradas e tostas), viver em cidades com níveis de poluição elevados, trabalhar por turnos, trabalhar como cabeleireiro ou bombeiro, ou até mesmo trabalhar por turnos”.

“Vejo muito pouca gente preocupada com a ingestão ocasional de um copo de vinho, de uma cerveja ou de um bife de vitela. E a ingestão de bebidas alcoólicas até está no grupo de maior certezas enquanto prática carcinogénica”, exemplifica.

O que pode acontecer aos produtos com aspartame se o adoçante for considerado “possivelmente cancerígeno”?

Segundo Paula Ravasco, uma decisão sobre como atuar em relação a produtos que contenham substâncias potencialmente perigosas tem de passar pelas entidades reguladoras nacionais.

“A OMS emite pareceres e os painéis de peritos emitem recomendações que podem ser mais ou menos mandatórias, mas que não têm força de lei. Quem lhes dá força de lei são as entidades reguladoras de um determinado país”, explica.

Assim, a especialista entende que, se esta recomendação vier a sair da OMS, “os Estados-membros vão verificar qual é que é a validade da recomendação e de que forma a podem adotar na sua realidade, populacional, económica e cultural”.

Ravasco admite que é provável que exista, também, uma atenção maior dos consumidores. “Pessoas mais atentas e que possam ficar mais alerta relativamente a este tipo de avisos podem deixar de consumir esses alimentos por saberem que existe um risco associado, mesmo que a recomendação de não consumo nunca aconteça”, indica.

Já António Pedro Mendes diz não acreditar que, “legalmente, haja grandes mudanças por causa da inclusão neste grupo classificativo”. No entanto, acredita, haverá “um ajuste da indústria para ‘lavar a cara’ e usar como estratégia de venda a rotulagem com ‘isento de aspartame’”.

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Nota Editorial: Artigo atualizado às 20:25 com a substituição da expressão “substância cancerígena” por “substância possivelmente cancerígena” e correção da expressão “prova” em relação a estudos que apenas “sugerem” a possibilidade de uma associação entre o consumo adoçantes artificiais e um aumento do risco de cancro.

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