Ouvir o constante som dos automóveis a passar, o barulho de obras ou até a música alta que um vizinho teima em ligar pela noite dentro pode estar a prejudicar a sua qualidade de vida. A exposição prolongada a poluição sonora é um problema que atinge cerca de 20% da população da Europa, o que corresponde mais de 100 milhões de pessoas, e traz problemas para a saúde mental e física dos cidadãos.

À semelhança de outros tipos de poluição, a poluição sonora ocorre quando existe um elemento contaminante no ambiente. Neste caso, o contaminante é um som indesejado que pode ter origem num vasto conjunto de atividades. Segundo uma publicação científica de 2018, os efeitos potenciais da poluição sonora "são numerosos, difundidos, persistentes e significativos medicinal e socialmente".

Apesar disso, os investigadores destacam que este tipo de poluição é ainda pouco reportado e que o ruído é, atualmente, "mais severo e difundido do que nunca e irá continuar a aumentar em magnitude e severidade devido ao crescimento populacional, de urbanização, e o crescimento associado ao uso de fontes de ruído cada vez mais poderosas, variadas e altamente móveis".

Também a Agência Europeia do Ambiente (EEA, na sigla inglesa) afirma que "a exposição prolongada ao ruído causa uma variedade de problemas de saúde, incluindo irritabilidade, distúrbios de sono, efeitos negativos nos sistemas cardiovascular e metabólico, assim como diminuição cognitiva em crianças".

"A exposição prolongada ao ruído causa uma variedade de problemas de saúde, incluindo irritabilidade, distúrbios de sono, efeitos negativos nos sistemas cardiovascular e metabólico, assim como diminuição cognitiva em crianças".

A organização internacional estima que a poluição sonora cause 12 mil mortes prematuras por ano e que contribua para o aparecimento de 48 mil novos casos de doença isquémica do coração. No que toca a problemas de saúde mental, a EEA calcula que existam 22 milhões de pessoas a sofrer de irritabilidade causada pela poluição sonora e que 6,5 milhões de indivíduos apresentem distúrbios de sono.

"Muitas pessoas não se apercebem que a poluição sonora é um importante problema, que impacta a saúde humana, incluindo a própria. Claro que há mais mortes prematuras associadas com a poluição do ar do que com o ruído. No entanto, o ruído parece ter um impacto maior nos indicadores relacionados com a qualidade de vida e a saúde mental", sublinha.

O ruído é um causador de stress e ansiedade. O cérebro humano está em constante monitorização dos sons, à procura sinais que possam ser considerados perigosos – mesmo quando a pessoa está a dormir. Ao estar continuamente em contacto com sons altos ou frequentes, o organismo mantém o estado de alerta. "Pessoas que vivem com poluição sonora sentem-se irritadas, nervosas, frustradas ou zangadas", alerta o site da "Medical News Today", acrescentando que, caso a pessoa sinta que não consegue controlar a quantidade de ruído à sua volta, os impactos na saúde mental intensificam-se.

Quando o ruído permanece na hora de repouso, o indivíduo pode também enfrentar dificuldade em adormecer, incapacidade de manter o sono durante o período que é suposto ou então dormir menos horas do que as necessárias. "Os sons podem reduzir a profundidade e qualidade do sono, alterando a quantidade de sono REM [um estado do sono que é caracterizado pelo movimento rápido dos olhos]. Isto pode ter impacto na disposição da pessoa e a capacidade para se concentrar", explica ainda o website dedicado à medicina.

Mas não é apenas ao nível psicológico que a poluição sonora tem impacto. Os ruídos podem também provocar problemas físicos: os investigadores que realizaram o estudo científico identificaram que uma exposição de curta duração ao ruído pode fazer subir a pressão sanguínea e aumentar a viscosidade do sangue. Se a exposição se prolongar no tempo, torna-se mais provável de desenvolver doença cardiovascular.

O ruído tem ainda impacto nas crianças, em particular na capacidade de aprendizagem. Um estudo, publicado em 2014, identificou que uma exposição crónica, de mais de oito horas por dia, ao ruído pode causar problemas auditivos nas crianças, incluindo a perda de audição em determinadas frequências. Na escola, a poluição sonora pode interferir com a capacidade de concentração da criança, o desenvolvimento da sua comunicação e fala e até a sua performance cognitiva.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) destaca que "o ruído é um problema e saúde pública importante" que tem "impactos negativos para a saúde humana e para o bem-estar". Este problema tem merecido cada vez mais atenção por parte das organizações internacionais e, por isso, a OMS desenvolveu um conjunto de diretrizes e recomendações para que os governos locais possam proteger os cidadãos do impacto que o ruído tem na saúde pública.

Segundo o relatório "Poluição Sonora na Europa – 2020", o trânsito é o principal causador de poluição sonora na maior parte das cidades da Europa. No entanto, em Portugal, o principal problema é o ruído causado pelo tráfego aéreo: Lisboa é a segunda cidade da Europa – a seguir ao Luxemburgo – que apresenta uma maior percentagem de pessoas expostas a níveis de ruído superiores a 55 decibéis (dB) e a 50dB durante período noturno (entre as 23h00 e as 07h00).

Lisboa é a segunda cidade da Europa – a seguir ao Luxemburgo – que apresenta uma maior percentagem de pessoas expostas a níveis de ruído superiores a 55 decibéis (dB) e a 50dB durante período noturno (entre as 23h00 e as 07h00).

Além disso, Portugal surge em quinto lugar na tabela, que inclui os países da União Europeia e o Reino Unido, com o mais elevado número de crianças entre os sete e 17 anos que têm problemas de leitura causados pelo ruído do tráfego aéreo, segundo dados relativos a 2017. Sobe para primeiro lugar, quando é analisada a percentagem de crianças com problemas de leitura entre todas as crianças que vivem nas áreas afetadas.

Concluindo: a poluição sonora tem impacto na qualidade de vida da população, principalmente nas grandes cidades. Uma exposição – longa ou curta – ao ruído causa problemas ao nível da saúde mental – como aumento de ansiedade, do stress e dos distúrbios de sono – e de saúde física – por exemplo, perda de audição, subida da pressão arterial e aumento da probabilidade de desenvolver doença cardiovascular. Nas crianças, o ruído pode prejudicar o desenvolvimento cognitivo e social, além de causar problemas de audição.

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