Portugal registou na segunda-feira passada, dia 16, 33.939 novos casos de Covid-19, um novo máximo diário em mais de três meses. Existem indícios de que Portugal está agora a entrar na sexta vaga de Covid-19, com o número diário de infeções a crescer diariamente e com a variante BA.2 da Ómicron, dominante no país. Mas será que a situação pode ser comparada aos restantes picos pandémicos?

É verdade que este número de casos diários, mais de 30.000, é superior ao registado em qualquer dia de 2020 ou 2021. Só em janeiro e fevereiro deste ano registou-se um número de infetados superior a este, atingindo-se o pico da quinta vaga a 26 de janeiro de 2022, com mais de 65 mil novos casos num dia.

O estado da pandemia na última semana de janeiro de 2021

No dia 28 de janeiro de 2021, de acordo com os dados divulgados pela Direção Geral da Saúde (DGS), registou-se o, até então, pico mais alto de casos diários de infeção por Covid-19: 16.432. Nessa semana, de 25 de janeiro a 31 de janeiro de 2021, segundo os dados da DGS, que foram tratados e compilados pela Universidade Johns Hopkins, Portugal registava um total de 84.326  novos casos de infetados com o novo coronavírus e uma média de cerca de 12 mil casos diários.

É verdade que este número de casos diários, mais de 30.000, é superior ao registado em qualquer dia de 2020 ou 2021. Só em janeiro e fevereiro deste ano registou-se um número de infetados superior a este, atingindo-se o pico da quinta vaga a 26 de janeiro, com mais de 65 mil novos casos num dia.

Na mesma semana, o país atingiu também os valores mais altos de número de mortes diárias por Covid-19 desde o início da pandemia. Nos sete dias referidos, registaram-se 2.013 óbitos, ou seja, uma média de 287 mortes diárias. Nos dias 28 e 31 de janeiro de 2021 registaram-se, em cada dia, 303 mortes, o valor diário mais alto até a esse momento.

Nessa altura, o plano de vacinação contra a Covid-19 tinha-se iniciado há apenas um mês e as primeiras vacinas estavam a ser administradas aos profissionais de saúde. Da primeira fase de vacinação faziam parte dos grupos prioritários os profissionais e residentes em lares e em unidades de cuidados continuados, bem como os profissionais das forças armadas, forças de segurança e serviços críticos e todos os doentes com mais de 50 anos que sofressem de insuficiência cardíaca, doença coronária, insuficiência renal ou doença respiratória.

Ou seja, a taxa de vacinação nesta altura era ainda muito reduzida, com cerca de 330.000 doses administradas. Uma vez que esta era a fase inicial, a maioria dos inoculados que integravam os grupos de risco ainda não beneficiava da proteção completa da vacina.

Já em relação aos internamentos hospitalares devido à doença, segundo os dados da DGS, a 31 de janeiro de 2021 encontravam-se internadas em enfermaria regular 6.694 pessoas. Na mesma data, as Unidades de Cuidados Intensivos (UCI) tinham 858 doentes internados. Desde meados de janeiro de 2021 e até ao final desse mês, as notícias de unidades hospitalares que entravam em rutura sucediam-se diariamente.

Quanto ao perfil etário dos óbitos e internados por Covid-19 no primeiro mês de 2021, segundo o relatório da DGS de 31 de janeiro verifica-se que, desde o início da pandemia, o grupo etário em que se tinha registado um maior número de infeções era o dos 40 aos 49 anos. Já em relação à caracterização demográfica dos óbitos por Covid-19 assinalava-se uma incidência clara no grupo etários das pessoas com mais de 80 anos.

Como estamos depois de mais de um ano de vacinação e a enfrentar um novo pico de infeções?

Na passada quinta-feira, dia 19 de maio, o "Público" noticiava que Portugal é o país da União Europeia (UE) com mais novos casos diários de infecção por SARS-CoV-2 por milhão de habitantes nos últimos sete dias e o segundo do mundo com mais mortes diárias associadas à doença, segundo os dados do site estatístico Our World in Data relativos a terça-feira (últimos indicadores disponíveis​ para Portugal). O jornal ressalvava, no entanto, que a taxa de letalidade (relação entre o total de mortes e o total de contágios) apresenta valores mais baixos do que a média da UE.

Segundo estes dados, Portugal registou uma média de 2,29 óbitos por milhão de habitantes nos últimos sete dias. Esta segunda-feira, dia em que se registaram mais de 30 mil casos diários de Covid-19, morreram 29 pessoas em Portugal por causa da doença. Isto depois de se terem registado 35 óbitos no domingo, o número mais alto desde 19 de fevereiro deste ano.

Portugal é o país da União Europeia (UE) com mais novos casos diários de infecção por SARS-CoV-2 por milhão de habitantes nos últimos sete dias e o segundo do mundo com mais mortes diárias associadas à doença.

O Polígrafo consultou o relatório mais recente divulgado pela DGS, referente à semana de 3 a 9 de maio de 2022, e no qual é apresentada uma evolução do estado da pandemia no país desde março de 2020. Verifica-se que o número de infeções diárias atualmente está a evoluir no sentido ascendente. Em  janeiro deste ano chegaram a registar-se mais de 60 mil casos diários, número que se prevê atingir nas próximos duas semanas, segundo Graça Freitas, diretora-geral da Saúde, que estimou ainda a ocorrência de 50 óbitos diários nesse período. Isto menos de um mês desde que o Governo deixar cair o uso obrigatório das máscaras em espaços fechados.

Mas existe uma comparação importante a ser feita. Se verificarmos os dois picos pandémicos, o de 2021 (16.432 casos num dia) e o até agora registado em 2022 (65.706 casos num dia), ambos no mês de janeiro, é notório que mesmo sendo o número de casos diários muito superior em 2022, a ocupação hospitalar diária não acompanhou esta tendência de crescimento. Pelo contrário, com quase seis vezes mais casos a taxa de internamento desceu significativamente, com ênfase nos internamentos em UCI.

A mesma tendência verifica-se em relação aos óbitos por Covid-19. Se na pior semana de janeiro de 2021 registava-se uma média diária de 287 mortes diárias, em janeiro de 2022 (e provavelmente nas próximas semanas) esta média ronda as 50 mortes por dia devido à doença.

E como se justifica isto?

Através da vacinação. Tal como referido desde o início da sua administração, a vacina contra a Covid-19 tem como objetivo prevenir o surgimento de doença grave e das suas consequências, reduzindo a pressão exercida sobre o sistema de saúde.

Portugal destacou-se ao longo do processo de vacinação como um dos países da UE e até do mundo com uma maior cobertura vacinal. Segundo os dados mais recentes, os idosos, grupo etário de maior risco de desenvolvimento de doença grave, têm, quase na totalidade, a vacinação completa.

Também nos restantes grupos etários observam-se valores próximos dos 100% no que respeita à toma da primeira e segunda dose da vacina contra a Covid-19. Só no grupo das crianças entre os 5 e os 11 anos se verifica uma taxa de vacinação inferior, de 36%. Já em relação à vacinação de reforço, a terceira dose, a verdade é que à medida que o grupo etário decresce em idade, decresce também a percentagem de portugueses que optaram por ter o reforço da proteção contra o coronavírus.

Ao analisar a incidência da doença por faixa etária, atualmente, verifica-se que é também entre os mais jovens que se regista uma maior incidência da doença. Segundo os últimos dados da DGS, a faixa etária dos 10 aos 19 anos, nos sete dias em apreço, foi a que registou um maior número de casos, 5.606. Segue-se a faixa dos 40 aos 49 anos com um número idêntico, 5.169 casos em sete dias. Nos grupos etários entre os 600 e 80 ou mais anos o número de infeções desce para valores entre 1.425 e 350.

É, portanto, claro que existe uma relação entre a taxa de vacinação e a incidência da doença. Por outro lado, ainda que se avizinhe uma sexta vaga da Covid-19, a verdade é que, à semelhança do que aconteceu em janeiro passado, a cobertura vacinal, principalmente dos grupos de risco, evita o desenvolvimento de doença grave e um consequente internamento hospitalar.

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Artigo originalmente publicado a 21 de maio, às 17h00, e atualizado dia 23 de maio, às 15h25.

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