Alice Santos tornou-se conhecida do público em geral ao entrar para para o novo reality show da TVI “O Triângulo” que estreou este domingo. Mas a fama da jovem de 22 anos nasceu no TikTok, no início do ano, depois de publicar uma série de vídeos com alegações polémicas (e, muitas vezes, falsas) sobre saúde.

Numa conta de TikTok com mais de 88 mil seguidores, Alice Santos - que garante não ter recebido nenhuma das vacinas contra a Covid-19 - alega, por exemplo, que os antidepressivos “ainda fazem pior” e descreve os doces de Natal como alimentos “tóxicos”.

Apesar de uma parte significativa dos comentários às publicações de Alice Santos serem escritos em tom satírico, há vídeos com mais de meio milhão de visualizações e mais de 27 mil likes.

O Viral - o primeiro jornal português de fact-checking de saúde - reuniu três alegações falsas (e potencialmente perigosas) sobre saúde publicadas pela influenciadora digital.

Componente presente em produtos de higiene pessoal é cancerígeno?

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“Está na hora de deitarem fora todas as pastas de dentes convencionais que têm na vossa casa.” É com esta frase que Alice Santos começa um vídeo em que aconselha os seus seguidores a deitarem fora os produtos de higiene pessoal (como champô, pasta de dentes e gel de banho) que contenham “Sodium Laureth Sulfate” (SLES).

A concorrente do “Triângulo” vai mais longe e diz que o SLES é “um produto cancerígeno que está presente em detergentes convencionais que estão à venda nos supermercados”. No entanto, esta ideia partilhada por Alice Santos é falsa, dado não existir evidência científica robusta que prove que o SLES ou o SLS (Sodium Lauryl Sulfate) aumentem o risco de cancro.

A desinformação sobre os supostos malefícios destes dois componentes circula online há mais de 10 anos anos e até já mereceu um esclarecimento da Direção-Geral do Consumidor (DGC).

Num texto publicado no site da DGC em outubro de 2008 adiantava-se não terem “qualquer fundamento este tipo de informações que circulam na Internet sobre os perigos para a saúde resultantes da utilização de champô ou pasta de dentes contendo lauril sulfato de sódio (SLS)”.

“Este tensioativo que entra na composição de algumas pastas de dentes, assim como o 'laureth sodium sulfate' (lauril éter sulfato de sódio) que integra a lista de ingredientes de vários champôs, não constam da lista de substâncias proibidas legalmente adotada em Portugal e na Comunidade Europeia”, sustentava-se no mesmo comunicado.

A DGC esclarecia também que “o perfil toxicológico destes ingredientes permite incluí-los nestes produtos cosméticos, além de outras utilizações” e sublinhava que “a Diretiva Produtos Cosméticos é em termos de produtos de consumo um dos instrumentos legais mais completos em relação à garantia da segurança dos consumidores”.

À data de hoje, ambos os componentes continuam autorizados na Europa e não há evidência que comprove que são cancerígenos.

Água com limão tem efeito detox?

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Num vídeo com o tema “rotinas detox que faço todos os domingos para começar bem a semana”, Alice Santos refere que consome diariamente água com limão e toma uma cápsula com probióticos. A concorrente do “Triângulo” acrescenta ainda que, por vezes, junta sal dos Himalaias à bebida.

Em declarações ao Viral, a nutricionista no Reino Unido (equivalente a registered dietitian), Margarida Beja, e a nutricionista e investigadora da Universidade de Ulster, Helena Trigueiro, adiantam ser falsa a ideia de que a água com limão tem efeito desintoxicante.

Helena Trigueiro avança que já existe conhecimento suficiente de que a água com limão não traz nenhum benefício extraordinário à saúde. “É água. Portanto, é bom para hidratar, mas muito mais do que isso é esperar um milagre”, vinca.

No mesmo sentido, Margarida Beja sublinha que os probióticos também não têm efeito detox.

Além disso, para Helena Trigueiro, “não faz sentido” a toma indiscriminada e não orientada de probióticos. A investigadora defende que “as pessoas devem estar aconselhadas por um profissional de saúde para perceberem o que faz sentido para melhorar a sua saúde a nível da microbiota”.

Noutro plano, a nutricionista afirma que - tal como o Viral já verificou anteriormente - o sal dos Himalaias também “não oferece mais benefício nutricional só por ser cor de rosa e mais apelativo visualmente”.

Antidepressivos “ainda fazem pior” e basta “sol” e exercício para evitar depressão?

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Num dos vídeos mais vistos de Alice Santos (com mais de 700  mil visualizações), a concorrente do “Triângulo” responde à pergunta de um seguidor sobre qual a sua opinião acerca dos antidepressivos e ansiolíticos (medicamentos com efeito calmante) dizendo considerar que “nem devia ser permitido andar aí a recomendar antidepressivos”, pois, na sua perspetiva, estes medicamentos “ainda fazem pior”.

Em declarações ao Viral em janeiro de 2023, Ricardo Gusmão, psiquiatra, professor de saúde mental na FMUP e investigador no Instituto de Saúde Pública, comentava o vídeo em questão e adiantava ser falsa a ideia de que os antidepressivos “ainda fazem pior”.

O psiquiatra sublinhava que os antidepressivos são medicamentos “regulados” que existem “há mais de 70 anos” e que, “se fizessem mal, não existiriam, seriam retirados do mercado” pelas entidades reguladoras. Além disso, lembrava o especialista, os antidepressivos podem “salvar vidas” visto que “a depressão é a principal razão de suicídio”.

Nesse sentido, o investigador adiantava existirem dois “tratamentos nucleares” para a depressão: os antidepressivos e as psicoterapias da família cognitivo-comportamental e interpessoal.

“Estes dois tipos de psicoterapia são mais para as situações que estão no limiar entre o normal e o anormal – mas que geram bastante sofrimento – e para as doenças ligeiras a moderadas. Os antidepressivos estão mais indicados para as doenças moderadas a graves, graves e muito graves”, acrescentava.

Além disso, completava, “a maioria das pessoas tem vantagem em associar ao antidepressivo a terapia cognitivo-comportamental ou a terapia interpessoal”.

Por outro lado, concluía o professor da FMUP, declarações como as que estão presentes no vídeo de Alice Santos podem aumentar o estigma em relação à depressão, um fator “que está na base da discriminação, do não acesso a tratamentos adequados e da procura de tratamentos que não funcionam”.

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