A Universidade de Oxford anunciou  na passada terça-feira, 16, que a substância dexametasona, um fármaco anti-inflamatório e imunossupressor, demonstrou bons resultados durante os ensaios clínicos que têm vindo a realizar. Os investigadores da universidade pretendiam testar a eficácia de diferentes medicamentos já existentes no tratamento da Covid-19. Face aos primeiros resultados, o Executivo rejubilou, com o primeiro-ministro britânico a apresentar a "descoberta" como algo absolutamente excepcional. Será assim? O Polígrafo foi ouvir os especialistas.

1. O uso fármacos como a dexametasona no tratamento da Covid-19 é uma novidade inovadora apresentada pelo estudo? 

A Universidade de Oxford tem em curso vários ensaios clínicos para confirmar a eficácia de um conjunto de medicamentos já existentes no tratamento da Covid-19, entre eles a dexametasona. No entanto, o efeito anti-inflamatório deste tipo de substância – do grupo dos glicocorticóides – na redução da infeção causada pelo coronavírus, já era conhecido pelos profissionais de saúde. Em Portugal, estes medicamentos eram já utilizados em casos graves e muito graves de Covid-19.

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“Desde 31 de março que a Sociedade Portuguesa de Cuidados Intensivos, à semelhança de outras sociedades congéneres, propõe nas suas propostas de abordagem terapêutica dos doentes mais graves – que incluem o estádio três da fase hiper inflamatória, em que há uma resposta descontrolada e lesiva – a utilização de fármacos anti-inflamatórios como o caso da dexametasona”, revelou ao Polígrafo Filipe Froes, pneumologista e coordenador do Gabinete de Crises da Ordem dos Médicos. No caso de Portugal não era utilizada a dexametasona, mas sim a substância metilprednisolona, que pertence à mesma família de glicocorticóides e apresenta igual efeito anti-inflamatório e imunossupressor.

Sobre o estudo da Universidade de Oxford, o pneumologista Filipe Froes admite ser importante porque vai “ajudar a fazer uma abordagem terapêutica mais segura e eficaz”. Porém, “na prática não nos vai alterar nada do que já é feito; vem consubstanciar a utilização e sobretudo quantificar a vantagem” do uso destes fármacos".

Sobre o estudo da Universidade de Oxford, Froes admite ser importante porque vai “ajudar a fazer uma abordagem terapêutica mais segura e eficaz”. Porém, “na prática não nos vai alterar nada do que já é feito; vem consubstanciar a utilização e sobretudo quantificar a vantagem” do uso destes fármacos". Para o pneumologista, o que é verdadeiramente fundamental para o combate à pandemia ainda está por encontrar: um fármaco que atue com eficácia na capacidade de contaminação e transmissão da doença.

Avaliação do Polígrafo: Falso
2- A dexametasona mostrou-se eficaz no tratamento da Covid-19 em casos graves e muito graves? 

Segundo os dados apresentados pela Universidade de Oxford, durante o ensaio clínico foi registada uma diminuição do número de mortes nos pacientes graves e muito graves tratados com dexametasona, comparativamente aos doentes em que não foi administrado o fármaco.

O estudo é, porém, preliminar e ainda não foi publicado ou revisto pelos pares. A divulgação dos dados antes da publicação teve como objetivo disponibilizar estes resultados, que consideram ser importantes para a “saúde pública”, o mais rapidamente possível para que o tratamento começasse a ser utilizado nos hospitais. Apesar de as conclusões ainda não terem sido validadas pelos pares, a Organização Mundial de Saúde (OMS) já deu as boas-vindas ao estudo considerando que este "mostra que a dexametasona, um glicocorticóide, pode ser um salva-vidas para os pacientes que estão criticamente doentes com Covid-19”.

No comunicado divulgado pela universidade britânica é explicado que a dexametasona foi administrada a 2.104 pacientes escolhidos aleatoriamente durante dez dias, tendo resultado na redução do número de mortes em um terço nos pacientes com ventiladores e em um quinto nos pacientes que estavam a receber oxigénio. “Com base nos resultados, uma morte teria sido prevenida pelo tratamento em cada oito pacientes ventilados e em perto de 25 pacientes que necessitassem só de oxigénio”, pode ler-se.

Avaliação do Polígrafo: Verdadeiro, mas...
3. A dexametasona é um medicamento que cura a Covid-19? 

O dexametasona não cura a Covid-19. Este fármaco – à semelhança de outros fármacos da família dos glicocorticóide – atua como anti-inflamatório e imunossupressor, ou seja, provoca uma diminuição da atividade do sistema imunológico. Por isso, os medicamentos desta família são prescritos em situações em que a resposta imunológica organismo se torna agressiva para os órgãos onde está o vírus e chega mesmo a destruir tecido celular.

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“Este fármaco não faz nada ao vírus propriamente dito; não é um fármaco antiviral. O que faz é reduzir a resposta exacerbada do sistema imunológico, que é uma tentativa do nosso organismo reduzir o vírus, mas, sendo ineficaz, tem como consequência a destruição dos próprios tecidos”, explica ao Polígrafo Alexandrina Ferreira Medas, professora de Farmacologia na Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra.

“Este fármaco não faz nada ao vírus propriamente dito; não é um fármaco antiviral. O que faz é reduzir a resposta exacerbada do sistema imunológico, que é uma tentativa do nosso organismo reduzir o vírus, mas, sendo ineficaz, tem como consequência a destruição dos próprios tecidos”, explica ao Polígrafo Alexandrina Ferreira Medas, professora de Farmacologia na Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra.

Em situações graves e muito graves, a Covid-19 provoca uma tempestade de citocinas que resulta numa hiper-ativação da resposta inflamatória, levando o sistema imunológico do paciente a atacar os pulmões – onde se aloja o vírus –, destruindo parte do tecido pulmonar. “Os glicocorticóides, como a dexametasona, são muito eficazes a reduzir essa resposta inflamatória” e, ao administrar este fármaco em fases graves ou muitos graves da doença, “o que se consegue é que a destruição do tecido pulmonar não seja de tal modo grave que se torne a causa direta da morte da pessoa”, acrescenta a farmacologista. Mas o vírus, esse, permanece no corpo.

Avaliação do Polígrafo: Falso
4. Tomar dexametasona para previnir a infeção por Covid-19 pode ser perigoso para a saúde?

A dexametasona não tem um efeito preventivo da Covid-19 nem é uma cura para a doença. Aliás, se o fármaco for tomado num estádio inicial da doença, este pode mesmo ter o efeito contrário ao pretendido. “Uma pessoa que tem Covid-19, mas que apresenta sintomas ligeiros de uma gripe normal, não tem benefício nenhum em tomar dexametasona. Pelo contrário, iria reduzir a resposta do seu sistema imunológico que, se calhar, é o que está a fazer com que a infeção viral não se torne muito grave”, esclarece a Alexandrina Ferreira Mendes, que considera “muito perigosa” a corrida às farmácias para procurar este fármaco.

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créditos: Poligrafo

O próprio estudo refere que a utilização deste medicamento “não teve benefícios entre os pacientes que não precisavam de apoio respiratório”. Também a Organização Mundial de Saúde, na conferência de imprensa de 17 de junho, alertou que a dexametasona não é “um tratamento ou profilaxia” e que este fármaco só deve ser utilizado nos casos doentes com casos graves de Covid-19 – como aliás está descrito também no estudo da Universidade de Oxford.

Além disso, quando administrado em doses mais altas e durações maiores, a dexametasona pode ter vários efeitos secundários: “É um anti-inflamatório imunossupressor, geralmente está associado ao maior risco de desenvolver infeções”, explica Filipe Froes, que acrescenta que este fármaco está ainda associado ao aumento de “osteoporose, glicémia, cataratas, atrofio da pele”.

A dexametasona é um medicamento sujeito a receita médica, pelo que não se deve tomar sem indicação e supervisão de um médico. A automedicação é uma prática que pode ser perigosa, pelo que deverá consultar o seu médico antes da toma de qualquer substância.

 Avaliação do Polígrafo: Verdadeiro

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