Asseguram que contam a “verdade” sobre o novo coronavírus e a Covid-19 que as autoridades de saúde mundiais procuram esconder. Consideram que o novo coronavírus pode estar relacionado com a vacina da gripe, são contra o confinamento, contestam o uso de máscaras e os testes PCR e defendem que o SARS-CoV-2 se pode propagar através da tecnologia 5G. São um “grupo de mais de 140 médicos” espanhóis que se apresentaram oficialmente no passado dia 25 de julho, em Madrid, e o nome escolhido não é por acaso: Médicos Pela Verdade (Médicos por la Verdad, no original). A cerimónia foi transmitida pelo Youtube e teve cerca de hora e meia.

Plataforma Médicos pela Verdade

As suas teorias rapidamente se disseminaram pela Internet, sendo utilizadas por muitos negacionistas da pandemia de Covid-19 como prova de que o novo coronavírus e a gestão da pandemia são uma manipulação dos líderes mundiais. Mas a verdade é que muitas das teses defendidas pelos “Médicos Pela Verdade” são contrárias ao provado por cientistas, especialistas e autoridades mundiais. 

1. A OMS não ordena a utilização obrigatória de máscaras, que têm efeitos prejudiciais, pela população não infetada

A médica especializada em clínica geral Natalia Prego Cancelo defendeu, durante a sua intervenção, que o uso de máscaras só era obrigatório para “médicos, pacientes e cuidadores” e que a população não infetada não precisava de usar equipamentos de proteção individual. Segundo o site de fact-checking “AFP Factual”, a médica fundamentou a sua teoria recorrendo a dois comunicados da Organização Mundial da Saúde, um de 6 de abril e outro de 5 de junho. Neste último, segundo Prego Cancelo, a OMS corroborava que as máscaras deviam ser usadas apenas por médicos, cuidadores, enfermeiros, pessoal auxiliar e doentes.

No primeiro documento, a OMS explicou que ainda não tinha ficado demonstrado que o uso de máscaras, cirúrgicas ou de outro tipo, por pessoas saudáveis em comunidade evitava a transmissão de vírus respiratórios, incluindo a Covid-19. Na altura, o organismo defendeu que era “crucial” que os profissionais de saúde tivessem acesso garantido a estes equipamentos. A postura foi revista quando foi emitido o segundo comunicado, no qual a OMS, apesar de admitir que continuavam a ser feitos estudos sobre este tema, pediu aos governos incentivassem os cidadãos a usar máscaras em situações específicas como parte de um plano geral para interromper a transmissão do SARS-CoV-2. 

Num comunicado em junho, a OMS defendeu que os governos deviam incentivar os cidadãos a usar máscaras em situações específicas como parte de um plano geral para interromper a transmissão do SARS-CoV-2.

A médica citou ainda um documento do Centro Europeu de Controlo e Prevenção das Doenças (ECDC, sigla em inglês), de 8 de abril, para garantir que a utilização de equipamento de proteção individual provoca “dificuldades e doenças respiratórias, auto-contaminação, contaminação do meio-ambiente”, entre outros efeitos nocivos.

O documento do ECDC fala apenas dos problemas que o uso de máscaras pode causar a crianças ou pessoas com doenças respiratórias prévias, mas recomenda a sua utilização, incluindo por quem não tem problemas de saúde.

Prego Cancelo garantiu que o documento tinha sido ratificado pela OMS para reforçar a veracidade das teorias apresentadas, mas o que este organismo admitiu foi que o uso de máscaras podia provocar uma falsa sensação de segurança, dermatite de contacto ou agravar o acne, dores de cabeça ou dificuldades para respirar. Porém, a OMS não assumiu que as máscaras podem provocar doenças respiratórias. 

2. Os testes PCR não são eficazes para detetar o novo coronavírus

Na sua intervenção, Prego Cancelo citou um documento da OMS, de 9 de julho, para dizer que os testes PCR “não determinam vírus infecciosos”. Uma opinião secundada por Maria José Martínez Albarracín, apresentada como sendo licenciada em Medicina, uma informação que a “AFP Factual” não conseguiu provar ser verdadeira. Esta última declarou que os referidos testes podem "dar positivo a qualquer fragmento de ARN de um coronavírus” ou de qualquer outra coisa.

Em declarações à “AFP Factual”, o especialista em saúde pública Joan Carles March explicou que realmente a OMS diz, no referido artigo de 9 de julho, que os testes PCR “não determinam vírus infeciosos”, mas explicou que “é tão absurdo defender a total ineficácia dos testes porque não têm toda a cadeia do vírus, como defender que são absolutamente ineficazes”. 

testes PCR Covid
créditos: Senado Federal do Brasil

“Ainda que um teste PCR não possa captar na totalidade a presença do vírus, ou determinar a 100% que uma pessoa tenha o vírus, é o método mais sensível que temos para o detectar”, esclareceu ainda. Uma opinião secundada por Madalena Montt Guevara, doutorada pela Universidade de Pisa, à mesma fonte: “de todas as técnicas de quantificação disponíveis, tem a taxa mais alta de sensibilidade, reprodução e simplicidade." 

Juan Carbadella, membro da Associação Argentina de Virologia, explicou igualmente que “o PCR em vantagens e desvantagens mas é inegável que deteta a presença do genoma do vírus”. 

No final de julho, o Polígrafo  analisou uma publicação falsa que alegava que a margem de erro dos testes à Covid-19 é superior aos 80%. Na verdade, a taxa de sensibilidade dos testes para a Covid-19 é elevada, mesmo que seja impossível garantir sucesso nos resultados a 100%. Defeitos nos testes, contaminação ou má recolha de amostragens podem alterar os resultados do diagnósticos. E nenhum destes elementos está relacionado com a margem de erro original do teste.

3. Existe uma relação entre a vacina da gripe e os casos mais graves de Covid-19

Martínez Albarracín garantiu, ainda que sem mencionar quaisquer referências, que existem “estudos estatísticos que correlacionam com bastante probabilidade a vacina da gripe com casos de Covid-19 grave”. E defendeu que uma segunda vacina podia “provocar uma doença ainda mais grave”, que levaria as autoridades de saúde a falar da chegada de “uma segunda vaga” da doença. 

Tal como o Polígrafo analisou em maio, estas alegações têm como base o "Vacinação contra a influenza e interferência de vírus respiratórios entre o pessoal do Departamento de Defesa durante a temporada 2017-2018 de influenza". É da autoria de Greg Wolff, do departamento norte-americano Armed Forces Health Surveillance Branch (AFHSB), e foi publicado no dia 10 de outubro de 2019.

Na investigação desenvolve-se a teoria de que a vacinação contra o influenza [o vírus causador da gripe comum] pode aumentar o risco de contrair outros vírus respiratórios, um fenómeno conhecido como "interferência viral". Os investigadores analisaram quatro estirpes sazonais de coronavírus. No entanto, atendendo à data do estudoo SARS-CoV-2 ainda não tinha sido descoberto.

Na investigação desenvolve-se a teoria de que a vacinação contra o influenza [o vírus causador da gripe comum] pode aumentar o risco de contrair outros vírus respiratórios, um fenómeno conhecido como "interferência viral".

O Sistema de Saúde Militar dos EUA, do qual faz parte o AFHSB, informou a plataforma de verificação de factos "FactCheck.org" que o estudo incide sobre dados anteriores à pandemia de Covid-19, cerca de dois anos antes. Mais, a investigação debruçou-se sobre os coronavírus sazonais "sem potencial para uma propagação endémica" e "que impactam crianças e adultos sem complicações graves de saúde”.

Além disso, na conclusão do estudo sublinha-se que "os resultados mostraram pouca ou nenhuma evidência que apoie a associação de interferência viral e vacinação contra o influenza". Ou seja, a vacina contra a gripe comum não mudou a probabilidade de os indivíduos em geral terem outras doenças respiratórias.

4. A hidroxicloroquina é eficaz no tratamento de casos mais leves de Covid-19

“O que está provado é que a Covid-19 começa com sintomas leves que, uma semana depois, se podem agravar muito em algumas pessoas. Assim sendo, pode muito bem tratar-se a doença com hidroxicloroquina quando os sintomas são leves”, disse Martínez Albarracín, durante a apresentação da plataforma. 

A utilização deste fármaco tem sido um dos temas mais polémicos da pandemia provocada pelo novo coronavírus. Como já explicou ao Polígrafo o virologista Celso Cunha, "não há tratamentos profiláticos nem precoces para a Covid-19”. 

No início da crise, a hidroxicloroquina chegou a ser apontada como uma terapêutica antiviral experimental, mas as autoridades de saúde acabaram por decidir não continuar a utilizar o medicamento.

A hidroxicloroquina é um fármaco
créditos: Poligrafo

Foi a 4 de julho que a OMS tomou mesmo a decisão de descontinuar a utilização da hidroxicloroquina em doentes hospitalizados. "Os resultados interinos dos testes demonstram que a hidroxicloroquina e a lopinavir/ritonavir diminuem pouco ou nada a mortalidade de pacientes com Covid-19 hospitalizados, comparando com os tratamentos convencionais”, pode ler-se em nota publicada na página oficial.

5. Anticoagulantes e anti-inflamátórios podem combater a doença

Durante os discursos dos “Médicos pela Verdade”, Albarracín garantiu também que, só após a realização de autópsias, foi possível aos “bravos médicos italianos” perceberem que era preciso dar anticoagulantes e anti-inflamatórios para se salvarem vidas. Isto porque, acrescentou, os “ventiladores nada podem fazer quando um pulmão está com todos os seus vasos destroçados”. 

Conforme explica a “AFP Factual”, existe realmente um estudo sobre autópsias em Itália que refere que foram detetados coágulos em pequenos vasos sanguíneos de 33 dos 38 pacientes investigados. Dados que levaram os autores do estudo a concluir que a Covid-19 estava vinculada com problemas de coagulação do sangue e com tromboses. Além disso, o texto publicado em 22 de abril explicava que todos os pacientes tinham pneumonia. Este estudo não foi, porém, validado pelos pares, um dos passos mais importantes para corroborar a validade de uma investigação científica.

Ainda assim, o Ministério da Saúde italiano viu-se na obrigação de divulgar um comunicado para negar que o país tivesse descoberto uma cura para a doença provocada pelo novo coronavírus. “As terapias disponíveis atualmente continuam a basear-se no tratamento dos sintomas da doença, proporcionando terapias de apoio - como fornecer oxigénio - às pessoas infetadas”, explicou o governo italiano em 29 de maio. 

“As terapias disponíveis atualmente continuam a basear-se no tratamento dos sintomas da doença, proporcionando terapias de apoio - como fornecer oxigénio - às pessoas infetadas”, explicou o governo italiano em 29 de maio. 

Carlos Jiménez, presidente da Sociedade Espanhola de Pneumologia e Cirurgia Torácica, desmentiu à “AFP Factual” que os anticoagulantes ou os anti-inflamatórios sejam fármacos eficazes contra a Covid-19 visto que a sua administração depende dos critérios clínicos e analíticos de cada paciente. “Precisamos de ensaios clínicos totalmente controlados para obter conclusões controladas”, reforçou.

Tal como o que acontece relativamente aos fármacos, Jiménez defende que a ventilação mecânica - seja invasiva ou não - também depende dos parâmetros clínicos de cada caso. Porém, recorda que a “ventilação mecânica, utilizada de maneira correcta, já salvou muitas vidas”.  

Não existe, até ao momento, qualquer medicamento ou substância com capacidade de curar o prevenir a Covid-19, segundo a  OMS .

6. O dióxido de cloro previne a infeção provocada pelo novo coronavírus

Uma das informações falsas difundidas pela plataforma no dia da sua apresentação foi a que garantia que estava provado que o dióxido de cloro podia ser usado como tratamento preventivo à Covid-19.

Em 26 de julho, Nuno Saraiva, professor de virologia na Universidade Lusófona, garantiu ao Polígrafo que “não há nenhuma evidência baseada na ciência que diga que [a solução] é benéfica para qualquer tipo de infeção”. 

O dióxido de cloro é um composto químico que pode ser usado “como um desinfetante”, à semelhança da lixívia, mas não como um fármaco. Para ser um medicamento, “o composto tem que matar ou eliminar o patogénico – seja o vírus, bactéria, parasita da malária, ou outros –, mas tem também que não matar o hospedeiro”.

“Este composto não é específico para o vírus, atacará qualquer proteína”, prossegue o especialista, referindo-se em especial às proteínas “das membranas que estão à volta das células”. Ao atacar essas proteínas, o dióxido de cloro pode não só provocar graves danos na saúde, como levar à morte por intoxicação.

7. O novo coronavírus pode propagar-se através da tecnologia 5G

Apresentador do evento e conhecido em Espanha por ser um negacionista da pandemia, o médico Ángel Ruiz Valdepeñas assegurou que o SARS-CoV-2 se pode espalhar através da “contaminação eletromagnética da tecnologia 5G”.

Esta teoria é rejeitada pela OMS que lembra que o vírus - que não se propaga pelas ondas eletromagnéticas nem pelas redes de comunicações móveis - “se espalhou em países em que não existe” esta tecnologia. 

créditos: Poligrafo

A rede 5G funciona através de ondas de rádio que fazem parte do espectro eletromagnético. Utilizam um tipo de radiação não-ionizante, o que significa que não prejudica o ADN dentro das células.

Existem várias teorias falsas que relacionam a Covid-19 ao 5G. Uma delas, analisada pelo Polígrafo, garantia que esta rede era a verdadeira causa das mortes atribuídas ao novo coronavírus. Na construção da acusação estava o facto de Wuhan, local onde apareceram os primeiros casos de Covid-19 considerado o centro da pandemia, ter sido uma das primeiras cidades chinesas onde foi implementada esta rede.

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