Ingerir água gelada provoca ataques cardíacos?

É uma publicação viral nas redes sociais, com milhares de partilhas acumuladas, não obstante a aparência rudimentar. Baseia-se numa mensagem sem qualquer indicação de origem, autoria e fontes de informação. "A água gelada fecha quatro veias do coração e causa ataque cardíaco", alerta desde logo na primeira frase.

"Bebidas geladas são a principal causa de ataques cardíacos. A água gelada cria problemas no fígado, prende a gordura no fígado. Muitas das pessoas que aguardam por um transplante de fígado são vítimas da água gelada. A água gelada afeta as paredes internas do estômago", prossegue.

É verdade que ingerir água gelada provoca ataques cardíacos, vários tipos de cancro e outros problemas de saúde? Não. Esta alegação é falsa e não existem quaisquer estudos que relacionem o consumo de água gelada com qualquer um dos problemas de saúde identificados. Este alerta já foi alvo de vários fact-checks mas continua a ser partilhado nas redes sociais.

Para descodificar esta publicação, o G1 falou com especialistas de nutrição, de cardiologia e de hepatologia para perceber se existia algum fundamento na informação difundida. Todos os profissionais de saúde garantiram tratar-se de uma informação falsa. A nutricionista Marisa Coutinho, que trabalha na Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo, garante que “não existe nenhuma comprovação científica de que a água gelada provoque essas reações”.

Já o cardiologista Abrão Cury, médico no Hospital do Coração e docente na Universidade Federal de São Paulo, explicou ao G1 que a “água muito gelada pode dar algum espasmo no estômago, algum desconforto na parede do estômago, mas a temperatura do corpo logo equilibra isso”. “Não causa cancro. O fígado nem sabe que está a beber água gelada. Também não tem nenhuma relação com o enfarte. A água gelada não causa gripe nem resfriado”, garantiu.

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Em caso de ataque cardíaco deve tomar imediatamente duas aspirinas?

Surgiu recentemente no Facebook e visa alertar a população sobre o que fazer na iminência de um ataque cardíaco, aconselhando a toma de duas aspirinas mal acometam os primeiros sintomas.

“Um cardiologista afirmou que, se cada pessoa receber este e-mail e o enviar para mais dez pessoas, pelo menos uma vida poderá ser salva. Eu fiz o meu trabalho! Espero que faças o teu”. A mensagem é clara: passar esta informação pode salvar vidas e os utilizadores das redes sociais não mediram esforços. A informação, aparentemente validada pelo Hospital de Santa Maria e por um cardiologista, começou a espalhar-se rapidamente na Internet.

“Pode não sentir nunca uma primeira dor no peito, durante um ataque cardíaco. 60% das pessoas que tiveram um ataque cardíaco enquanto dormiam, já não se levantaram. Porém, a dor no peito pode acordá-lo de um sono profundo”, lê-se na mensagem.

Depois são dadas instruções: “Se assim for, dissolva imediatamente duas aspirinas na boca e engula-as com um pouco de água. Em seguida, ligue para o 112 e diga ‘ataque cardíaco’ e que tomou duas aspirinas. Sente-se numa cadeira ou sofá e espere pela chegada do pessoal da emergência do 112 e não se deite”.

Há alguma base de sustentação científica relativamente à eficácia deste procedimento de emergência?

O Polígrafo contactou Luís Baquero, coordenador do Departamento de Circulação e Cirurgia Cardiotorácica do Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa, em Lisboa, o qual desfez a ideia veiculada na publicação em análise: “É um mito de que se fala muito. Não tem mal fazê-lo, de facto, mas não resolve nada. E os dois comprimidos de aspirina também não está provado que sejam mais eficazes do que um. Aliás, após o tratamento do enfarte, a dose que se faz é de 100 mg que equivale a 1/5 de um comprimido normal de aspirina”.

Um enfarte, ou ataque cardíaco, pode ter diversas causas, explica-nos o cirurgião: “Um deles é a formação de uma placa de colesterol que se rompe e cria um trombo. Como se rompe a placa, o conteúdo da placa é gordura e entra em contacto com o sangue. O organismo defende-se para o tapar. E nessa manobra para tapar aquela fissura, cria um trombo e esse trombo é que impede que o sangue entre no coração, na coronária, no músculo. E há outros mecanismos que são as placas que vão fechando pouco a pouco e aí não há aspirina que chegue”.

Mas será recomendável fazê-lo? “Se estiver num sítio remoto, sem acesso a um hospital, sim, pode fazer. Pode favorecer de alguma forma a diluição do trombo que se tenha formado e causado o enfarte. Se bem que não está escrito em lado nenhum das guidelines de tratamentos de enfarte que deva ser feito. Mas, como medida e em último caso, não há problema”, conclui o médico.

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A folha de louro "protege o coração de convulsões e derrames"?

Está a circular nas redes sociais uma publicação na qual se afirma que a folha de louro tem uma série de benefícios para a saúde, tais como "proteger o coração de convulsões e derrames" ou mesmo o "tratamento de gripes, constipações e tosse grave". Será verdade?

"A primeira afirmação nem sequer faz sentido de um ponto de vista bioquímico. Os triglicéridos são constituídos por ácidos gordos, e esses sim podem ser saturados, monoinsaturados ou polinsaturados", explica Sérgio Veloso, pós-graduado em Nutrição Clínica e mestre em Biologia Humana pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. De acordo com a Direção-Geral da Saúde, as gorduras monoinsaturadas são "o tipo de ácidos gordos que o nosso organismo melhor tolera". O consumo deste tipo de gorduras está associado à "diminuição da fracção LDL", o chamado "mau colesterol". Tipos de gorduras mono são, por exemplo, o azeite, frutos secos ou o abacate.

Em relação à folha do louro, o especialista destaca que "a grande maioria dos estudos são in vitro, cultura de células ou modelos animais (coelho ou rato)" e que "a extrapolação desses resultados não pode ser feita pelos motivos óbvios da diferença fisiológica, mas também porque a qualidade dos estudos não o permite".

Além disso, como explica Veloso, "os animais são expostos aos compostos isolados, concentrados, ou a quantidades de louro que não são passíveis de ingestão pelo ser humano".

"Convém não esquecer que os animais são expostos aos compostos isolados, concentrados, ou a quantidades de louro que não são passíveis de ingestão pelo ser humano", sublinha.

Sérgio Veloso assume que os "únicos estudos" que conhece realizados em seres humanos foram feitos através da administração do louro "na forma de chá e com efeitos clinicamente insignificantes mesmo que estatisticamente significativos nos níveis de HDL [o chamado 'colesterol bom']". O que o leva a concluir que, "por mais romântico que possa ser, não há evidência clínica" para as teorias sobre os benefícios do louro para a saúde.

Questionada pelo Polígrafo, Helena Real, nutricionista e secretária-geral da Associação Portuguesa de Nutrição, explica que "embora existam alguns estudos afirmando que a folha de louro poderá ter benefícios na redução do colesterol, os resultados não serão suficientes para atestar, com certeza, os efeitos do consumo de louro".

A especialista esclarece ainda que, uma vez que os estudos são realizados in vitro ou com uma amostra reduzida de participantes, "se torna quase impossível controlar totalmente todos os outros fatores que envolvem o estilo alimentar do indivíduo e aplicar exatamente as mesmas condições a todos os indivíduos que participem nestes estudos".

As recomendações de doses e a duração de consumo também devem ser tidas em conta. Além disso, a quantidade de louro utilizada na culinária "nunca é muito elevada".

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