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A praga secular que mata milhões em todo o mundo

Este artigo tem mais de um ano
Entre dez a doze portugueses morrem diariamente por diabetes, uma doença que afeta mais de um milhão de pessoas e cujo Dia Mundial se comemora no próximo dia 14 de Novembro

Assinalado na data de aniversário de Frederick Banting – o cientista que, juntamente com Charles Best, descobriu a insulina em 1922 -, o Dia Mundial da Diabetes foi criado em 2006 com o objetivo de consciencializar as pessoas sobre a doença e divulgar as ferramentas para a sua prevenção.

Em Portugal, a Diabetes é a principal causa de cegueira, uma das principais causas de insuficiência renal a necessitar de diálise, a principal causa de amputações não traumáticas (que não são causadas por um acidente) do pé e da perna. As pessoas com diabetes têm 4 vezes maior risco de ter um enfarte do miocárdio e de morrer de doenças cardiovasculares.

Segundo dados daDirecção-Geral da Saúde, a mortalidade causada pela doença tem vindo a diminuir em Portugal, mas a verdade é que os números ainda assustam: por ano sucumbem entre 2.200 a 2.500 mulheres e cerca de 1.600 a 1.900 homens, o que significa mais de 4% das mortes das mulheres e de 3% nos homens. A doença afeta mais de 13% da população portuguesa e estima-se que 44% das pessoas com diabetes esteja por diagnosticar.

Se em Portugal a doença é um flagelo, no mundo o cenário é equivalente. Segundo dados da Federação Internacional de Diabetes, há neste momento 382 milhões de pessoas a sofrer da patologia

Os centros de saúde realizam avaliações do risco de desenvolver diabetes, mas o Programa Nacional para a doença propõe um aumento do número de novos diagnósticos precoces. De 2015 para 2016 o número de avaliações de risco de desenvolver diabetes teve um decréscimo, de 621 mil avaliações para menos de 619 mil. Até 2020, a DGS pretende aumentar em 30 mil o número de novos diagnósticos através de diagnóstico precoce, diminuir a mortalidade prematura por diabetes em 5% e diminuir o desenvolvimento de diabetes em 30 mil utentes de risco. Em termos regionais, a diabetes apresenta maior prevalência no Alentejo e na região autónoma dos Açores, sendo o Algarve a região com menor prevalência.

Se em Portugal a doença é um flagelo, no mundo o cenário é equivalente. Segundo dados da Federação Internacional de Diabetes, há neste momento 382 milhões de pessoas a sofrer da patologia, sendo que 46% não sabem que a têm.

Uma longa história

A diabetes é uma doença muito antiga. Na verdade, ela sempre existiu, mas como os pacientes morriam muito rapidamente – já que pouco se sabia de medicina e de qualquer eventual tratamento – não tivemos relatos até cerca de 1500 antes de Cristo.

O primeiro relato conhecido da diabetes é de um papiro da Terceira Dinastia Egípcia, que data de 1552 a.C., no qual o médico Hesy-Rá, no Papiro de Ebers, menciona uma doença que causava poliúria – muita urina–, polidípsia – muita sede –, e polifagia – muita fome –, além de causar uma perda de peso rápida. Os curandeiros da época também notaram que a urina dessas pessoas atraía formigas, mas não sabiam identificar o motivo.

Foi Areteu da Capadócia quem, no século II, deu a esta doença o nome de “diabetes”, que em grego significa “sifão”

O tratamento recomendado pelos médicos daquela época era completamente natural: óleo de rosas, geleia da carne de cobra, coral vermelho em pedaços, amêndoas doces e até mesmo esterco de cabra cozido em leite. O pai da Medicina árabe, Buqrat, também relatou alguns casos de uma misteriosa doença, que era resumida em “grande quantidade de urina e definhamento da pessoa”. A expectativa de vida, naquela época de 460 a.C., para uma pessoa com esse quadro, raramente passava de um mês.

Foi Areteu da Capadócia quem, no século II, deu a esta doença o nome de “diabetes”, que em grego significa “sifão”, referindo-se ao seu sintoma mais chamativo que é a eliminação exagerada de água pelos rins, expressando que a água entrava e saía do organismo do diabético sem fixar-se nele. Ainda no século II, Galeno, contemporâneo de Areteu, também se referiu à diabetes, atribuindo-a à incapacidade dos rins em reter água como deveriam.

Nos séculos posteriores não se encontram nos escritos médicos referências a esta enfermidade até que, no século XI, Avicena refere com precisão esta patologia no seu famoso Cânon da Medicina.

O ponto mais alto na história da investigação da doença surgiu em 1921, quando a dupla canadiana constituída por Frederic Banting e Charles Bestque conseguiu isolar a insulina

Após um longo interval, Thomas Willis fez, em 1679, uma magistral descrição da diabetes para a época, ficando desde então reconhecida pela sua sintomatologia como entidade clínica. Foi ele quem, referindo-se ao sabor doce da urina, lhe deu o nome de diabetes mellitus(sabor de mel), apesar de esse facto já ter sido registado cerca de mil anos antes na Índia.

Em 1755 – ano do terramoto que abalou a cidade de Lisboa -, Dpson identificou a presença de glicose na urina. Frank, por essa altura também, classificou a diabetes em duas formas: diabetes mellitus(ou vera), e insípida, esta sem apresentar urina doce. A primeira observação feita através de uma necropsia num diabético foi realizada por Cawley e publicada no London Medical Journal em 1788. Quase na mesma época, o inglês John Rollo, atribuindo à doença uma causa gástrica, conseguiu melhorias notáveis com um regime rico em proteínas e gorduras e limitado em hidratos de carbono.

Os primeiros trabalhos experimentais relacionados com o metabolismo dos glicídios foram realizados por Claude Bernard, que descobriu, em 1848, o glicogénio hepático e provocou a aparição de glicose na urina, excitando os centros bulbares. Ainda na metade do século XIX, grande clinico francês Bouchadart assinalou a importância da obesidade e da vida sedentária na origem da diabetes e traçou as normas para o tratamento dietético, baseando-a na restrição dos glicídios e no baixo valor calórico da dieta. Os trabalhos clínicos e anatómico-patológicos adquiriram grande importância nos finais do século XIX.

O ponto mais alto na história da investigação da doença surgiu em 1921, quando a dupla canadiana constituída por Frederic Banting e Charles Bestque conseguiu isolar a insulina e demonstrar seu efeito hipoglicêmico. Esta descoberta significou uma das maiores conquistas médicas do século XX, porque transformou as expectativas e a vida dos diabéticos e ampliou horizontes no campo experimental e biológico para o estudo da diabetes.

Posteriormente, o transplante do pâncreas passou a ser considerado uma alternativa viável à insulina para o tratamento da diabetes tipo 1. O primeiro transplante de pâncreas com essa finalidade foi realizado em 1966, na Universidade de Manitoba.

Uma linha mais recente de pesquisa na Medicina tem tentado fazer o transplante apenas das ilhotas de Langerhans. O procedimento é simples, tem poucas complicações e exige uma hospitalização de curta duração. O grande problema é a obtenção das células, que são originárias de cadáveres. São necessários em média três doadores para se conseguir um número razoável de células.

 

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