A pandemia e o espectro do teletrabalho mudaram a conceptualização dos espaços de trabalho, vulgo escritórios? Se sim, em quê?

Devido à recente pandemia, é inegável que o “espaço de trabalho” está na vanguarda do discurso arquitetónico. Não pela pandemia em si, nem pelo trabalho remoto - já que temos as ferramentas e fazemos isso há algum tempo - mas mais pelo facto de que com a Covid ficámos a perceber de forma clara que o desenho desatualizado dos escritórios tem graves impactos negativos no nosso bem-estar e saúde mental. Arriscamo-nos a dizer que, na verdade e com uma certa ironia, está a acabar com nossa produtividade!

Um estudo pré-pandemia publicado pela BBC demonstrou que os trabalhadores de meia-idade passavam mais tempo sentados do que os pensionistas. Este fator, por si só, aumenta o risco de graves problemas de saúde a longo prazo, seja doença cardíaca, diabetes ou outros.

Receção em escritórios de advogados no Porto, zona de pausa na charneira entre as zonas de gabinetes e de reuniões Frederico Marinho

O “open space” é um conceito cada vez mais adotado. Porquê?

O “open space” é um conceito antigo, que por si só não traz nenhum valor acrescentado à discussão. Como pensadores e designers, todos nós precisamos olhar para espaços que contribuam para o bem-estar das pessoas que os vivenciam.

Os layouts e espaços de trabalho do futuro devem ser centrados numa ideia de “individualidade colaborativa”. Isto é, com locais de trabalho que provavelmente serão idiossincráticos e cheios de ajustes únicos

Quais são, no presente, os aspetos críticos na organização dos escritórios?

Pensar sobre os aspetos críticos da organização do escritório de hoje é ir além do arranjo típico de mobiliário e zonas funcionais. Na nossa óptica, é fundamental pensarmos o espaço a partir das nossas necessidades enquanto ser – harmonia, saúde, felicidade. O escritório do futuro deve ser um lugar para onde toda equipa de trabalho quer e gosta de ir todos os dias. Um lugar confortável para receber, entreter, “servir” seus funcionários e convidados: uma casa fora de casa.

Sala de reuniões em escritórios de advogados no Porto, em dia de trabalho Frederico Martinho

A luz é um deles? Há uma dimensão da importância de luz que vai para além da questão da eficiência energética ou este elemento já não é assim tão importante?

Vejamos este tema a partir de uma perspetiva científica (os “healing spaces” de que falávamos). Dados do “International Wellbeing Institute” sugerem que a produtividade diminui quando a equipa fica a mais de 7,5 metros de uma janela. Propomos, então, que a consideração cuidadosa do zoneamento de programas e propósitos seja estabelecida para que um forte foco em estratégias que combinem luz natural e artificial possa ser alcançado. Estratégias que podem tirar partido de novas tecnologias em iluminação artificial como modo de compensação, de que são exemplo: usar lâmpadas UV de mesa ou lâmpadas de espectro natural para mitigar as deficiências específicas do espaço, de modo a reduzir a ansiedade e o stress.

“Lounge” da nova sede de empresa de criptoativos no Porto, em fase de obra Arquivo craft

E que tendências na organização/disposição do espaço identifica e, por outro lado, antecipa?

Os layouts e espaços de trabalho do futuro devem ser centrados numa ideia de “individualidade colaborativa”. Isto é, com locais de trabalho que provavelmente serão idiossincráticos e cheios de ajustes únicos – cada setor tem suas próprias particularidades. Precisamos de nos concentrar em espaços onde os funcionários se sintam valorizados e onde as suas necessidades específicas sejam atendidas. Como designers, devemos sempre lembrar que a cultura do escritório é tão importante quanto as tendências de design. A título de exemplo, concluímos recentemente um projeto, neste momento em construção, para a filial no Porto de uma empresa americana de criptoativos. Apesar de o objeto de trabalho ser totalmente desmaterializado, cerca de metade da área da totalidade dos espaços será dedicada ao bem-estar dos funcionários, permitindo momentos de pausa mas também de jogo e interação, zonas de conversa privada, entre outros.

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