A Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho (EU-OSHA) estudou os efeitos do teletrabalho permitido por ferramentas das TIC durante os períodos mais agudos de pandemia – quando era exclusivo ou largamente maioritário – e concluiu que este regime implica alguns perigos para os respetivos colaboradores.

O relatório “O teletrabalho e os riscos para a saúde no contexto da pandemia da COVID-19: provas do terreno e implicações políticas”, publicado em 2021, identifica dois tipos de ameaças: riscos psicossociais e perturbações musculoesqueléticas.

Do ponto de vista metodológico, o estudo deste organismo da União Europeia para a segurança no trabalho cruzou literatura sobre o tema e trabalho de campo (entrevistas em Espanha, França e Itália).

Os riscos psicossociais têm um fator à cabeça: a intensificação do (tele)trabalho. Para tal concorre, como principal veículo, o maior número de horas de laboração, quer por via das designadas “horas extraordinárias informais” como da transformação do tempo de deslocação pendular em tempo de trabalho.

O estudo refere ainda as “dificuldades acrescidas” em dar por terminado ou interromper o dia de trabalho, que decorrem de pressão externa do empregador (formas diretas de controlo intrusivo ou outras práticas de gestão, como o envio de e-mails fora do horário de trabalho, que geram expectativas implícitas de disponibilidade prolongada ) ou autoimposta (percepção de ter de estar constantemente disponível ou mostrar sempre visível ou ativo).

O isolamento e a dificuldade em conciliar a vida pessoal com a vida profissional (“conflito trabalho-vida”) são os principais riscos psicossociais apontados.

O primeiro, é consequência natural mas nefasta da “prolongada falta de cara-a-cara” com colegas (propiciando a sobrecarga de informação, devido à gestão de grandes quantidades de informação através de múltiplas e sobrepostas ferramentas digitais, e as reuniões virtuais, que não deixam espaço para trocas mais informais).

Quanto à dificuldade em conjugar a vertente laboral com a pessoal/familiar, o relatório da EU-OSHA indica que é um problema com muito maior incidência no sexo feminino, ao ponto de considerar que “o teletrabalho possa exacerbar as desigualdades de género na distribuição dos cuidados e das responsabilidades domésticas, especialmente entre casais com filhos”. A ansiedade e o stress resultantes do conflito entre a vida profissional e a vida privada – do facto de não ser capaz de atuar como habitualmente – e os sentimentos de culpa por estar demasiado concentrado/a nas tarefas de trabalho e não cumprir as responsabilidades familiares são consequências muito comuns dessa difícil compatibilização entre as duas esferas, que recaem com muito maior prevalência nas mulheres.

O outro grande polo de risco é físico (corpo) e é relativo às Perturbações Musculoesqueléticas relacionadas com o Trabalho (MSD). Segundo este estudo “a incidência das MSDs é maioritariamente relatada em relação ao aumento do sedentarismo, más condições ergonómicas em casa e a experiência de condições de trabalho stressantes ou de duração mais longa (horas)”. Os problemas mais recorrentes que daí advêm são o que é classificada como uma sensação de "fadiga subjectiva" e dores nas costas e pescoço. O sedentarismo pode também contribuir para o aparecimento de problemas de outra natureza como o aumento de peso, fadiga visual ou tensão ocular.

lacs

O relatório alerta que “as limitações de espaço enfrentadas por muitos empregados impedem-os de montar um posto de trabalho doméstico em conformidade com as normas mínimas ergonómicas” e que estes constrangimentos são “especialmente graves para empregados que têm de partilhar a sua sala de trabalho com outros membros da família, nomeadamente parceiros também a trabalhar”.

A Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho defende mesmo que existe uma relação “altamente relevante” do trabalho à distância com as MSD e alguns riscos psicossociais, recomendando a existência de “diálogo social e negociação colectiva” para a regulação dos acordos de teletrabalho.

Assine a Pinóquio

Fique a par dos nossos fact checks mais lidos com a newsletter semanal do Polígrafo.
Subscrever

Receba os nossos alertas

Subscreva as notificações do Polígrafo e receba os nossos fact checks no momento!

Em nome da verdade

Siga o Polígrafo nas redes sociais. Pesquise #jornalpoligrafo para encontrar as nossas publicações.
International Fact-Checking Network