A pandemia deflagrara no ano anterior e, para tentar minorar os seus efeitos, o trabalho remoto permanecia como o formato por excelência. Em março de 2021, a Microsoft efetuou um estudo para medir o impacto no cérebro das reuniões profissionais por vídeo, mais propriamente das que ocorrem a um ritmo consecutivo.

Para tal, o Microsoft Human Factors Lab pediu a 14 funcionários da Microsoft e outras empresas que participassem em reuniões de vídeo enquanto usavam equipamento de electroencefalograma (EEG), permitindo assim monitorizar a atividade elétrica dos seus cérebros.

Os voluntários foram divididos em dois blocos de sessões (com sete elementos cada qual). Num, participaram em quatro reuniões de meia hora consecutiva (duas horas contínuas), com tarefas diferentes entre as chamadas (exemplos: concepção de um layout de escritório numa sessão, criação de um plano de marketing noutra sessão). No outro bloco, os demais funcionários integraram exatamente o mesmo tipo de reuniões, apenas com uma diferença: intervalos de 10 minutos a intercalá-las, durante os quais meditaram com uma aplicação da Microsoft.

Os resultados do estudo mostraram a necessidade imperiosa de fazer pausas entre as sessões e a pertinência de introduzir definições – no Outlook e outras aplicações da Microsoft – que tornem inevitáveis esses intervalos.

Ao mesmo tempo, naquilo que “reportaram” sobre a atividade cerebral, evidenciaram, indiretamente, o muito maior desgaste provocado pelo teletrabalho, em particular pela sucessão de reuniões por videochamada (e pelo próprio caráter intensivo deste meio).

Eis as duas funções - que correspondem a três fenómenos registados pelo EEG - que foram objeto de análise:

  1. Atividade média das ondas beta
  •  Estas ondas, associadas ao stress, aumentaram a sua atividade com as reuniões virtuais consecutivas. Quer isto dizer que o formato que propicia este tipo de eventos favorece a acumulação do stress.

O CÉREBRO FUNCIONA DE FORMA DIFERENTE QUANDO SE FAZ PAUSAS

O Laboratório de Factores Humanos da Microsoft utilizou gorros EEG para medir a atividade das ondas beta - associadas ao stress - no cérebro dos participantes da reunião. Para aqueles a quem foram dadas pausas, a atividade média de ondas beta manteve-se estável ao longo do tempo; a "frieza" dos seus níveis de stress é aqui visualizada em azuis e verdes. Para aqueles que foram privados de pausas, essa atividade subiu com o passar do tempo, sugerindo uma acumulação de stress; esse aumento é aqui retratado com cores que mudam de frio para quente. O gráfico representa a diferença relativa na atividade beta entre as condições de pausa e de não rutura no topo de cada reunião (média dos 14 participantes na investigação). Brown Bird Design
  • A atividade beta torna-se ainda mais intensa no final de um evento (reunião) que antecede um outro e também no início desse subsequente. Nas transições correm picos da atividade beta, sendo estas uma fonte ainda maior de stress. No teletrabalho, as sessões seguidas, obedecendo muitas vezes a um calendário pré-estabelecido, são muito frequentes.

SALTAR DIRETAMENTE DE UMA REUNIÃO PARA OUTRA PODE PROVOCAR PICOS DE STRESS

Sem pausas, a atividade da onda beta no cérebro pode aumentar acentuadamente no início e no fim das reuniões, sugerindo um aumento do stress. Fazer pausas não só previne esses picos como provoca um mergulho na atividade beta - o que se correlaciona com menos stress Ilustração: Valerio Pellegrini
  1. Assimetria alfa frontal

A assimetria frontal é um indicador da capacidade de concentração. Com a repetição de sessões por videochamada essa assimetria apresenta valores que revelam maior abstração ou até mesmo a “ausência” do colaborador.

FAZER INTERVALOS AJUDA O TRABALHADOR A ENVOLVER-SE MAIS

Para avaliar se as pessoas estão envolvidas ou abstraídas, os investigadores estudam um padrão de onda cerebral conhecido como assimetria alfa frontal (a diferença entre a atividade da onda alfa direita e esquerda na área frontal do cérebro). No estudo da Microsoft, os que fazem pausas mostraram uma assimetria positiva, que está associada a um maior envolvimento. Aqueles que não fizeram pausas mostraram assimetria negativa, que está associada a maior ausência/abstração. Ilustração: Valerio Pellegrini

Michael Bohan, director do grupo de Engenharia de Factores Humanos da Microsoft, que supervisionou o projeto, não tem dúvidas: "A nossa investigação mostra que as pausas são importantes, não só para nos tornar menos exaustos até ao fim do dia, mas também para melhorar efetivamente a nossa capacidade de concentração e envolvimento durante essas reuniões".

A gigante tecnológica americana já desenvolveu algumas ferramentas nos seus produtos para facilitar a realização de pausas e assim mitigar os efeitos deste desgaste – provocado por um meio (reuniões por videochamada) eminentemente ligado ao teletrabalho.

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